Crianças com saudades desenham cartas para "quando tudo passar"

A segunda crônica do projeto "Histórias de passar os dias" traz Maria, a menina que distraiu o tempo

Legenda: Desenho de Lis é instrumento para a saudade acabar

Era uma vez…

Não: foi um dia desses.

Na verdade, foi semana passada: Maria levantou-se e deu um grito tão alto que só não acordou a casa toda porque somente ela ainda dormia.

— Mããããeee”!!! “Paaaaiii”!!!

A mãe da menina, que já fazia o almoço, colocou o cozido em fogo baixo e saiu aflita, suando mais do que a tampa da panela em que o feijão fervia. O pai, que consertava uma cadeira quebrada, viu a mãe entrar no quarto e ficou à porta, de pé, na retaguarda.  

— O que foi, filha?

Maria esticou os braços, abriu a boca, fechou os olhos e falou num bocejo de quem não teve hora pra acordar:

 — Bom diaaaa!!!!!

 — E aquele grito, perguntou a mãe.  

— Foi só pra dar ‘bom dia’ a vocês.

Legenda: Figuras no papel desenhadas por Mariana dizem sobre o que ela faz em casa durante isolamento

A mãe, aliviada, o pai, suspirado, os dois contrariados:  

— Precisava de um grito desse, Maria, reclamou o pai.  

— Meu coração quase sai pela boca, emendou a mãe.

A menina riu-se, porque logo imaginou a mãe dando um tremendo arroto e o coração saindo da sua boca, feito uma grande bola de sabão fazendo tum-tum.

Tem mania de imaginar, essa Maria.

— Precisava, ela respondeu.

Só queria saber se os dois estavam perto. Ontem na televisão disseram: “fique em casa, coronavírus não é brinquedo não”.  

Nunca tinha ouvido falar. Mas depois desse nome estrambólico não foi mais para escola, os pais trabalham de casa e agora estão mais tempo juntos. O ponteiro das horas gira e ela rodopia: pula amarelinha, joga bola, pula corda, faz desenho, brinca de boneca, faz cozinha, descansa. Toma banho, joga bola, faz ginástica, lê um livro, vê TV. Pega-pega, esconde-esconde, ninguém sabe onde ela guarda toda essa energia.

“Eu queria que fosse ‘coronavírus’ todo dia”!  

Legenda: O mundo pelo olhar e as cores de Isabella

Agora que aprendeu a palavra inventa de dizer bobagem. Pobre menina bobinha. O pai tenta explicar que é uma doença muito séria que está por aí em vários lugares do mundo. Para que não chegue perto todo mundo tem que ficar bem esperto. Ou seja, em casa e de mãos bem lavadas.  

— É uma pandemia, Maria!

— Papai bobinho. Eu que te ensinei a lavar as mãos, ela lembra, e agora é quem explica: não quero ninguém doente, mas se está todo mundo em casa com os parentes, então, nem tudo é mau. Eu passava o dia inteiro sem você e a mamãe, e agora é tão legal....  

E achou interessante se a tal da pandemia também afetasse a telefonia. “Aí eles vão largar o celular e ter mais tempo pra gente brincar”, tramou sozinha.

Não é que Maria só via o lado bom das coisas. Para ela, as coisas não têm lado, ela apenas são: dentro ou fora.

Os dias foram passando, e enquanto o ponteiro das horas seguia girando e ela continuava inventando tanta coisa para fazer, um sentimento, a saudade, começou a aparecer: da titia, da vovó, do vovô e dos amiguinhos. Até dos passarinhos e das flores lá fora. Viu no jornal que o mundo está parando para não se contaminar. Era bom estar em casa, mas a saudade infectava e também precisava acabar.

Legenda: Julia, durante a quarentena, tem jogado, lido, brincado, estudado

Resolveu fazer desenhos-cartas para cada um que ama. Vai entregar pessoalmente quando tudo passar. Dizer do que fez em casa e do que deseja lá fora encontrar.

— Vai ser legal quando todo mundo, no Planeta todo, se abraçar.

Chamou de “Dia do Abraço” - não vê hora de chegar. Até lá, pula, dança, corre, grita, canta e, depois que descansa, toma banho, joga bola, faz ginástica, lê um livro, vê TV. Arrr Pega-pega, esconde-esconde, ninguém sabe onde Maria encontra tanta energia.

Era a menina distraindo o tempo e a saudade, reinventando os dias com as melhores companhias, enquanto as outras não vêm.

E na cabeça um tic-tac:

“Será que tem como não ter doença e todo mundo, mesmo assim, parar e ficar mais tempo junto? Com mamãe, papai, vovô, vovó, minhas amigas e as titias?”  E saiu rodando em seus pensamentos:  

— Só se for uma pandemia... de amor e alegria!!!

 (​Livremente inspirado nos relatos e Ilustrações das amigas Júlia, Isabella, Mariana e Lis, que distraem o tempo na quarentena e guardam a saudade em desenhos e cartas para o ‘dia do abraço’. Quando tudo passar​)

Ouça, abaixo, a narração de "A menina que distraiu o tempo", pela contadora de histórias Viviane Paiva:


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