Consultora de estilo traz reflexões sobre o processo de redescoberta do guarda-roupa pós-quarentena

Elaine Quinderé reflete sobre como as mudanças causadas pela pandemia influenciam o autoconhecimento e a forma de se vestir

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Legenda: A consultora de estilo Elaine Quinderé demonstra versatilidade com uma mesma peça de roupa

A necessidade de permanecer dentro de casa durante o período de isolamento social mudou diversos dos nossos hábitos cotidianos. Vestir-se foi um deles. Para uns, o exercício de escolher uma roupa específica para o dia aumentou a produtividade no home office. Para outros, o pijama se tornou farda. Independentemente do propósito individual de cada um, o que é comum a todos é que o mundo continua girando e as pessoas continuam se vestindo.

Os questionamentos sobre essas novas formas de viver, porém, continuam invadindo nossas cabeças. Ainda somos os mesmos de antes da pandemia? Essas transformações, que afetaram tanto nosso comportamento quanto nosso corpo, não impactam também na nossa maneira de nos expressarmos? Em um período de flexibilização, no qual os ambientes externos à casa começam a ser novamente ocupados, como redescobrir o que ficou guardado por tanto tempo?

Para a consultora de estilo Elaine Quinderé, “o vestir é uma forma de contar uma história, de mostrar a nossa personalidade, de comunicar e isso não deixou de existir. Há vida a ser vivida, né? Eu não vou ignorar o que acontece no mundo, mas eu preciso me vestir porque as reuniões no Zoom ainda estão acontecendo, ou porque preciso sair de casa por algum motivo importante ou apenas porque quero me sentir bonita”.

Se conseguimos nos expressar pelo que vestimos, nossos estilos e práticas de consumo refletem diretamente as experiências que vivemos e as transformações pelas quais passamos. Conforto e identidade têm sido alguns dos aspectos buscados nas roupas durante a quarentena, segundo a consultora, por meio de um processo de reflexão sobre o que realmente importa a partir de agora.

“Tem também a onda do minimalismo, que ganhou força por conta de tudo que estamos vivendo. Ao mesmo passo, as pessoas estão tentando se permitir mais, tentar não ligar tanto para o “pode/não pode” e sim para o que traz felicidade”, pondera.

Volta às ruas

Na contramão do movimento de conforto e aconchego buscado durante o isolamento, existe quem possua o desejo latente de ser visto e de se expressar publicamente mais uma vez. Catalisadora de novas tendências, a moda da quarentena foi também palco para extravagâncias: golas altas, brincos grandes, chapéus, lenços e cores. No momento de colocar o pé para fora de casa, a ânsia de usar tudo-ao-mesmo-tempo-agora aflora para alguns, visto que o depois é completamente imprevisível. Como pesar então essas escolhas?

De acordo com Elaine, não existe certo e errado na moda. Mais do que truques de “styling”, autoconhecimento é palavra-chave. Há dois anos atuando no mercado, a consultora foca seu trabalho em auxiliar pessoas, principalmente mulheres gordas, a encontrarem uma imagem que esteja em sintonia com seus estilos de vida, crenças e valores. “Por ser uma mulher gorda, vejo o quanto o mercado da moda e da consultoria de estilo carece de um olhar atencioso ao nosso corpo”, expressa.

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Legenda: A individualidade e a criatividade são fatores que podem influenciar no “funcionamento” de uma peça

Ela reforça que as dicas práticas podem ser úteis, porém somente até certo ponto. A individualidade, a criatividade e a disponibilidade de cada pessoa para pensar uma determinada roupa são fatores que podem influenciar muito mais no “funcionamento” de uma peça.

“Tem uma coisa que eu acredito: teste. Não adianta só pensar na roupa na cabeça, tem que colocar em prática e exercitar o olhar para você conseguir usar suas peças das mais variadas formas e na maior quantidade possível de vezes”, introduz. “Prova, se olha e se pergunta: ‘Eu gosto disso?”, ‘Se eu não gosto, por que eu não gosto?’, ‘Que tipo de mudança eu posso fazer pra ficar com a minha cara?’. Não é porque uma roupa tem um estilo específico que ela não cabe na minha vida".

"Temos a mania de ver as roupas como caixas fechadas, mas elas podem combinar com tudo. Eu digo sempre: tem que testar, se olhar no espelho e se perceber”, manifesta. Mudanças, muitas vezes, assustam. Entretanto, é pertinente pensar que elas não precisam ser fonte de tantos problemas e preocupações.

Assim como o mundo ao redor, nossos corpos também se adaptam às situações e podemos - ou até devemos - usar esse poder de mutabilidade ao nosso favor. Não é tarefa fácil, mas Elaine assinala que vestir-se também pode ser uma forma de cuidado consigo mesmo, entendendo quais são as roupas que proporcionam bem-estar e que vestem o seu corpo atual.

“É preciso um olhar atento para o que se tem no armário agora. Se questionar sobre o que posso fazer com o que não cabe mais na minha vida, como posso aproveitar melhor as peças que eu tenho e quais dessas roupas servem na minha vida e no meu corpo hoje”, considera.

Não há necessidade de refazer o guarda-roupa inteiro, mas procurar novas formas de usar o que já se tem. Além das roupas em si, a maneira como olhamos para ela também diz muito sobre nós, já que as escolhas de consumo que fizemos nos trouxeram até aqui. “Viabilizar o que já se tem é também uma forma de ser ambientalmente responsável. Questionar antes de comprar qualquer coisa… Isso vale para agora, para depois da pandemia e para daqui 50 anos”, afirma.

Por fim, ela atenta para um fato importante: não apenas nós devemos nos ajustar ao agora, mas também o mercado. Segundo a consultora, a magreza ainda impera no mundo da moda e, por isso, ainda existem tabus e limitações na hora de se vestir. “É essencial uma grade de tamanhos que vista todos os corpos. A moda precisa ser mais inclusiva”, finaliza.

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