Coletânea formada por vários autores reúne crônicas de uma Fortaleza obscena

Organizado por Íris Cavalcante, finalista do Prêmio Jabuti, e-book com download gratuito é lançado nesta quinta-feira (9), por meio de live

Legenda: Da esquerda para a direita, Yvonne Miller, Paulo Henrique Passos, Íris Cavalcante e Renato Pessoa, alguns dos escritoras e escritores presentes na antologia
Foto: Divulgação

Evocado por Hilda Hilst (1930-2004) no título de um livro e apregoado por tantos outros feitos dentro e fora do campo das artes, o termo “obsceno” e os atos ligados a ele dizem respeito a tudo aquilo que é contrário ao pudor. Nos dicionários, ainda é possível encontrar as conotações “que denota vulgaridade” ou ainda “que agride ou ofende”.

Refletindo sobre os tantos diálogos travados entre essa palavra e o panorama atual do País – bem como a partir de uma experiência pessoal envolvendo um caso de injustiça – Íris Cavalcante se motivou a fazer um deslocamento do próprio lugar de ocupação para as experiências de outras pessoas.

Assim, conversando com amigos e sempre pautada pelo sentimento de coletividade que a escrita promove, a literata cearense – finalista do Prêmio Jabuti 2018 com o livro “Vento do 8º Andar (Premius Editora) – idealizou uma convocação pública a fim de oportunizar uma produção coletiva, na qual o fio condutor seria exatamente falar de uma Fortaleza obscena, com total liberdade de criação.

Legenda: A escritora Andrea Agnus, de Fortaleza, integra a coletânea com a crônica "Ser pirambuense é um espanto"
Foto: Divulgação

Nascia “Crônicas de uma Fortaleza obscena”, obra com lançamento marcado para esta quinta-feira (9), às 19h, em live pelo instagram. A priori disponível somente na versão e-book, com download gratuito, o livro reúne 33 escritoras e escritores em linhas que se intercruzam não apenas devido ao gênero literário que comportam, como também pela originalidade no trato com a temática central.

Segundo Íris, a chamada de textos foi divulgada nas redes sociais, entre amigos e em um blog de concursos literários, o que possibilitou atingir pessoas de vários lugares do Brasil e do mundo. Não à toa, entre os escritores contemplados na publicação, saída pela editora Territórios, estão Alberto Arecchi, de Pavia, na Itália; Carolina Cordeiro, de Açores, em Portugal; e Jaime Soares, de Vila Nova de Famalicão, também do país luso.

Foram selecionados textos que abordam o tema proposto com originalidade e literariedade, respeitando os direitos humanos universais, algumas das prerrogativas da convocação. “Foi um desafio divertido”, confessa a organizadora da coletânea.

Diversidade

Vários nomes cearenses também estão contemplados nas páginas, advindos da Capital e do interior. Entre eles, estão Zélia Sales, Renato Pessoa, Paulo Henrique Passos, Andrea Agnus e Leide Freitas. O prefácio é assinado pelo fortalezense Alberto Perdigão.

Abrangente, o raio de alcance da obra também abraça autoras e autores do Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Norte, Amazonas, Bahia, São Paulo, Distrito Federal e Pernambuco. Para Íris – que, além de organizar o livro, também assina um texto nele – a surpresa foi a diversidade de perspectivas que os literatos deram à palavra “obscena” e à própria capital cearense.

“Cito o caso do escritor português Jaime Soares, que não conhece Fortaleza e a narrou dentro de uma cena ambientada numa capela da nossa cidade, em uma crônica cheia de tensão e sensualidade. Bem como o arquiteto italiano Alberto Arecchi, que acredito que também não conhece a Capital, e nos presenteou como um texto narrado numa Fortaleza imaginária”, enumera.

Legenda: O cronista David Ehrlich, do Paraná, assina o texto "Pornô cult"
Foto: Divulgação

Ainda que o gênero proposto para o trabalho tenha sido a crônica, foram recebidas produções nos formatos de minicrônica e prosa poética, e também no gênero conto. “Afinal, como disse Mário de Andrade, ‘conto é tudo o que o autor chama de conto’, uma vez que conto e crônica são gêneros literários que dialogam num movimento de muita proximidade. O limiar entre eles é mínimo, então respeitei a livre criação dos autores”, explica Cavalcante.

“Também me surpreendi com a qualidade dos textos de escritores principiantes, e outros publicados e até premiados”, observa. Para ela, a leitura do material se torna um exercício imagético de desbravamento pelos bairros de Fortaleza. 

Em determinado momento, estamos num bar do Conjunto Ceará. Em outro, no Dragão do Mar, na Gentilândia ou na Humberto Monte, conversando ora com autores em sua primeira publicação – a exemplo de Vânia Queiroz e Paulo Brasil Andrade; ora com autores conhecidos, como Zélia Sales e Renato Pessoa; ora premiados, caso de Carolina Cordeiro e Wagner Pires; e ainda ao lado de dois alemães que residem no Brasil, David Ehrlich e Yvonne Miller.

A multiplicidade desses encontros é belamente traduzida em toda a extensão do projeto, a começar pela capa, criada por Rebeca Gadelha. Nela, distintos elementos da cidade se espraiam por entre a malha gráfica. Estão lá o famoso relógio posicionado na Praça do Ferreira, a rubra passarela do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura e o lendário Edifício São Pedro, por exemplo.

Abarcar o coletivo

Neste momento tão difícil para a cultura e para as artes no Brasil, “Crônicas de uma Fortaleza obscena” avança na paisagem literária, portanto, com ousadia e coragem. “Ousadia pela proposta e, em contrapartida, pela adesão dos autores e autoras a esse tema polêmico, transgressor e fora da curva, que é tratar do obsceno dentro de outro viés, como a desigualdade social, a injustiça, a transfobia, o relacionamento abusivo, a misoginia, e os múltiplos preconceitos que temos que lidar em nossa existência”, cita Íris.

“Coragem porque foi uma iniciativa pessoal que abarcou o coletivo, sem nenhum incentivo financeiro, contando com a parceria do amigo Eduardo Ezus, um escritor de Mossoró (RN), idealizador da revista Tamarina Literária”.
Íris Cavalcante
Poeta

Para o lançamento virtual de logo mais, haverá um bate-papo com seis autores, em três blocos, sobre como a proposta da antologia chegou até eles e de que forma se deu o processo criativo de cada um, além de outras particularidades. A princípio disponível somente em e-book, a obra pode, em breve, também ganhar a versão física, mediante processo de co-publicação.

“Espero que o material chegue ao leitor com o mesmo carinho e esmero com que criamos essa produção multiautoral. Trabalhar com o que amamos é nosso principal valor. Nos divertimos e realizamos um projeto de qualidade”, garante Íris. 

 

Serviço
Lançamento da antologia “Crônicas de uma Fortaleza obscena”
Nesta quinta-feira (9), às 19h, por meio de live transmitida pelos perfis @iris_cavali e @tamarina_literaria, no instagram


Crônicas de uma Fortaleza obscena
Vários autores
Organização: Íris Cavalcante

Editora Territórios
2021, 110 páginas
Download gratuito do e-book neste link

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