Campanha "Branquitude em Movimento" visa contribuir à diminuição da desigualdade na mídia cearense

Maioria dos brasileiros é formada por negros. Contudo, o mercado de comunicação ainda é um território pouco protagonizado por esta população

Legenda: A publicitária e doutora em Linguística, Tânia Dourado reforça que "o racismo é um problema dos brancos"

A história de Maria Alice é a mesma da maioria da população brasileira. Muito recente, um vídeo causou comoção nas redes sociais. As imagens mostram a menina, de apenas dois anos, assistindo ao Jornal Hoje e se reconhecendo na aparência da jornalista Maju Coutinho. A pequena piauiense aponta para a TV e fala feliz: "Esse aqui é meu cabelo".

Na última terça-feira (3) Maju teve a oportunidade de conhecer Alice durante o programa Encontro com Fátima Bernardes. Na ocasião, a âncora revelou o quanto sua infância foi marcada pela carência de representatividade na televisão. A falta de artistas e comunicadores negros a fez pensar em "alisar" o cabelo.

O caso coincide com a concretização em Fortaleza da campanha "Branquitude em Movimento". A ação esgarça o debate do racismo no mercado de Comunicação e propõe posicionamentos mais firmes dos profissionais da informação na busca por um discurso antirracista.

Ciente do quanto o racismo "é um problema dos brancos", como aponta o material de divulgação, a publicitária e doutora em Linguística Tânia Dourado lança provocação nunca antes proposta aos trabalhadores da área. A premissa é de que agências, veículos, empresas de comunicação, escolas de formação e capacitação em jornalismo, marketing, publicidade e propaganda se comprometam publicamente com a criação de discursos voltados contra o preconceito racial.

O convite é direcionado tanto às empresas responsáveis pelas peças comunicativas quanto aos clientes que contratam estes serviços. Para uma empresa poder usar o selo com o slogan "Somos Antirracistas" serão necessárias mudanças pontuais nos modos de produção e estabelecimento dos produtos midiáticos.

Assim, é preciso desconstruir toda uma lógica opressora. Propor mudanças do discurso discriminatório em prol de uma prática emancipatória. A campanha batalha uma comunicação reparadora, na qual o sujeito negro tenha exatamente o mesmo espaço que o sujeito branco e que este participe em igualdade de condições.

"O racismo é um problema de branco porque foi o branco que o criou. Somos herdeiros de um discurso colonial que contamina as práticas sociais de maneira a naturalizar a exclusão do sujeito negro privilegiando sempre o sujeito branco. E somos nós, profissionais de comunicação brancos, os responsáveis pela propagação e legitimação do racismo", descreve a linguista.

Percepções

A população negra representa cerca de 53,6% dos brasileiros, como aponta o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O total, entretanto, passa longe de ser refletido no território da informação. O feliz exemplo da jornalista Maju Coutinho ainda é uma exceção na comunicação social majoritariamente composta por protagonistas brancos.

Em abril de 2013, o Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em convênio com a Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj), divulgou a pesquisa "Quem é o jornalista brasileiro?". A enquete foi aplicada com 2.731 jornalistas de todos os Estados e indicou que de 145 mil jornalistas, 23% são negros. 72% são brancos.

Realizado pela agência Heads, em parceria com a ONU Mulheres, a sétima edição do estudo "TODXS - Uma análise da representatividade na publicidade brasileira" mostrou, em dezembro de 2018 o quanto o mercado nacional ainda precisa quebrar estereótipos. Propagandas exibidas na TV e publicações de marcas nas redes sociais continuam a não representar a diversidade de raças e gêneros.

Foram monitorados 2.149 comerciais veiculados nos canais de televisão de maior audiência do País durante uma semana. O melhor resultado foi entre as protagonistas negras, que chegou a 25% de participação nas peças publicitárias. Já quando a pesquisa abarca protagonistas homens e negros, os dados ainda são muito baixos. Apenas 13%. Mesma análise realizada seis meses antes trouxe índice de 1%.

Lugar de fala

Profissional multidisciplinar, Tânia trabalha com inclusão desde 1998 e atuou como professora universitária na Comunicação durante 20 anos. Formou mais de 3 mil publicitários, bem como redatores e roteiristas. Além do ambiente acadêmico conhece o mercado por conta da trajetória como empresária, diretora de criação, redatora, roteirista, entre outras funções exercidas.

Atuando na perspectiva de uma escola linguística crítica, que procura enxergar os discursos e o papel social deles, a pesquisadora delimitou durante a tese de doutorado o território discursivo da moda. Já na curadoria para o desenvolvimento do estudo, surgiram inquietações explícitas.

"Durante os quatro anos de dedicação exclusiva a esse estudo, eu me deparei com 48 capas de conteúdos de Vogue nas quais nós só tivemos uma única capa com uma mulher negra brasileira. Para mim foi devastador", descreve.

Tânia lembra que o "Branquitude em Movimento" fala diretamente para os profissionais brancos. A organizadora situa seu lugar de fala, enquanto mulher branca e profissional de comunicação responsável pelos discursos propagados na mídia. É preciso o comprometimento da população branca, em especial, dos profissionais de comunicação.

"Nós construímos um imaginário coletivo, nós criamos os padrões de beleza, somos nós que elegemos as imagens que vão aparecer nas embalagens do produtos. Somos nós que elegemos o 'bebê Johnson' ao longo dos anos. Bebê branco e de olho azul. Era um padrão a ser alcançado. Somos nós que consideramos e demos o título de 'rainha dos baixinhos' a uma mulher branca", argumenta a publicitária cearense.

"Branquitude em Movimento" pontua, assim, a necessidade de representatividade. A invisibilidade contribui para constatações gritantes, acredita Tânia. "Você não se sente bom o suficiente. Você não sente que pode chegar até lá. Não é por acaso que a população negra é a maioria carcerária. Não é por acaso que a população negra ocupa cargos como o de babá, porteiro, empregada doméstica. O racismo é devastador. Potencializa a questão da desigualdade social. Precisamos combater o racismo. Ele é prioridade. Não tem como combater a desigualdade social sem atacar o racismo", diz.

A missão da campanha "Branquitude em Movimento" é por igualdade de participação da pessoa negra na comunicação. Despir a área de estereótipos negativos e que reforça o padrão hierárquico de que o branco é a pessoa no topo da pirâmide. Além de vender uma marca, posicionar produtos, potencializar e alavancar vendas, o mercado carece de iniciativas dessa natureza.

A organizadora da campanha resgata o quanto o papel ético da mídia pode salvar vidas. Educação e justiça social são prioridades. Tânia relembra as campanhas em prol da erradicação da poliomelite. A peça publicitária do Zé Gotinha, ainda hoje utilizado e totalmente querido pelas crianças, vêm desde 1988 atuando na memória da população.

A primeira fase de "Branquitude em Movimento" vai atuar no chamado público de empresas e profissionais. Um selo lidera a iniciativa e identificará espaços que busquem a igualdade social. Num segundo momento a ideia é a organização de palestras em jornais, universidades e agências de publicidade. O discurso midiático propaga e constrói o imaginário coletivo. "Qual o imaginário e padrão de beleza que construímos? Cabe a nós, agora, essa desconstrução. É isso que proponho para a sociedade branca e para quem atua na comunicação", finaliza Tânia Dourado.

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