Blocos do Benfica marcam a trajetória do Pré-Carnaval de Fortaleza

Quem vive o ciclo carnavalesco de Fortaleza, certamente já curtiu alguma festa no bairro Benfica. Naquela região, que é também um reduto do público universitário, a folia só cessa na quarta-feira de cinzas

Legenda: O Hospício Cultural nasceu da vontade de misturar diferentes expressões no Benfica

Quando os blocos de Carnaval começam a sair em cortejo pelas ruas, é chegada a hora de reverberar a energia guardada. Em meio a uma Fortaleza de diferentes facetas, os lugares onde os foliões reúnem-se são diversos, mas o bairro Benfica destaca-se como ponto de encontro da maioria dos fortalezenses no início de um dos períodos mais festivos do País.

Ainda no início dos anos 1990, o músico e compositor Dilson Pinheiro viu um grande potencial naquela região. "Fui a uma festa no bairro, com três ou quatro amigos, e soltei que se eu criasse um bloco por lá seria muito legal. Já tinha até o nome na cabeça: Quem é de Benfica", conta o fortalezense, hoje responsável pelo "Num Ispaia Sinão Ienche".

Como quem tem uma relação íntima com o Carnaval desde a infância, ele arregaçou as mangas para tornar esta ideia realidade e, no ano seguinte, viu os amigos com os quais tinha compartilhado o desejo tornarem-se apoiadores da nova empreitada.

"Colocamos o bloco na rua pela primeira vez, bem timidamente, ali saindo da Paulino Nogueira, com 30 ou 40 pessoas. Eu brinco sempre sobre meu 'arrepiômetro'. Quando eu senti isso (o arrepio), o sentimento todo, percebi que tinha dado tudo certo", explica Dilson.

O crescimento foi instantâneo. No meio dos foliões, surgiram os carros de som e as ramificações do bloco e, a partir disso, vieram também os desafios, com as reclamações de moradores próximos. Nesse momento, a preocupação diante do futuro do "Quem é de Benfica" e mesmo um incômodo em realizar um evento de grandes proporções tomaram conta dos pensamentos de Pinheiro.

"A festa começava às 17h e terminava às 22h, mas as pessoas começaram a ir embora às 2h. Então ficou muito ruim, quase um caos. Após essas reclamações, pensamos que estava inviável fazer o bloco", comenta.

Legenda: O Maracatu Solar, segundo o presidente Pingo de Fortaleza, criou raízes em meio ao Benfica, e surgiu em 2006 da vontade de diversificar as expressões culturais no bairro
Foto: Foto: Kid Júnior

Mesmo com o sentimento de frustração, em 1998, Dilson abriu as possibilidades para ganhar as ruas da Praia de Iracema, no que viria a ser o futuro polo da Mocinha.

Mesmo com essa desistência, a música e os cantos de Carnaval não saíram do bairro nem por um segundo. Ao longo do tempo, blocos iniciaram e cessaram as atividades todos os anos, da mesma forma que o ciclo sempre começa e chega ao fim.

Da nova leva, "Eu Não Sou Cachorro Não", "Damas Cortejam" e "Hospício Cultural" têm sido alguns dos que movimentam o espaço "benfiquense". Para Fernanda Farias, integrante do Damas, a mobilização para tocar no Carnaval foi algo natural e o local escolhido não poderia ser outro.

O ano de 2013 marcou a criação do conjunto musical de mulheres feministas. Os ensaios descompromissados e o costume de festejar acabaram estimulando a inscrição do grupo nos editais de incentivo para, finalmente, subir em um palco oficial.

"Nós já nos conhecemos em uma bateria e um dia tivemos essa vontade de dar espaço para algo feito só por mulheres", relata Fernanda. No ano passado, um problema com documentação impediu a saída do bloco, mas 2020 foi aguardado com ansiedade para a retomada.

"Nos preparamos muito e temos muita felicidade de fazer parte de um projeto desse. É um encontro, um afago que temos ali perto do Benfica, uma forma de ter essa festa na vida".

Responsabilidade

Já para Andréa Oliveira, que fazia parte do extinto Sanatório Geral, também sediado no Benfica, e hoje é uma das componentes do Hospício Cultural, a vontade de promover cultura naquela região impulsionou o crescimento da folia. "Saímos pela primeira vez em 2017, com menos de 15 pessoas", diz aos risos. "Tentamos, desde então, cantar e animar, mas também trazer consciência para o público que frequenta o bairro. O objetivo é ter essa pegada social, de denúncia, focada nas minorias".

Entre os sorrisos escancarados e o cansaço feliz de quem se entrega à alegria, também existem os entraves de utilizar o espaço público e lidar com milhares de pessoas.

Segundo Fernanda, por exemplo, é necessário atenção e respeito com quem vive nas ruas onde o bloco passa. Além disso, é preciso entender o papel dos organizadores na manutenção desse tipo de evento.

Legenda: Sem sair nas ruas do bairro em 2019, o "Damas Cortejam" volta com a temática feminista no ciclo carnavalesco deste ano
Foto: Foto: Thiago Gadelha

"Falamos sempre da questão do respeito, do lixo, etc. Quando fizemos totalmente por conta própria, mandamos cartinha para as pessoas que vivem ali nos arredores do bairro, explicando as informações do bloco, convidando quem tivesse interesse em comparecer e curtir com a gente. Estamos lembrando constantemente do respeito às pessoas que moram em todo o bairro", opina.

No Hospício Cultural não é muito diferente. Andréa explica que a preocupação é constante e também existe o cuidado de repassar as mensagens principais difundidas no bloco.

"Mesmo com o auxílio que recebemos da Prefeitura, por exemplo, buscamos auxiliar na questão da limpeza das calçadas e praças, do barulho. Distribuímos sacos de lixo, fazemos reuniões com os ambulantes das proximidades. Tudo como uma questão de apostar em uma curtição saudável e feliz para todo mundo".

Ainda que "colocar o bloco na rua" seja uma tarefa árdua, na qual cada gota de suor é necessária, a felicidade ao sentir o movimento das pessoas parece recompensar sempre.

"Já começamos esquentando no pré e estamos ansiosos pelo que o Carnaval reserva desta vez", finaliza Fernanda, como quem aguarda cada segundo que antecede essa energia prestes a eclodir.

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