Banda cearense Os Alfazemas anuncia fim do grupo com temporada de despedidas

Grupo tem 11 anos e fez história no Ciclo Carnavalesco de Fortaleza

Os Alfazemas
Legenda: Banda Os Alfazemas no Carnaval de 2018, no Aterrinho da Praia de Iracema
Foto: Natinho Rodrigues

Em meio à catarse da terça-feira de Carnaval de 2020, no Aterro da Praia de Iracema, a banda Os Alfazemas decidiu que, após uma década sem férias, era o momento de respirar. O que os integrantes não imaginavam é que, no dia seguinte, o primeiro caso de coronavírus seria confirmado no Brasil, transformando os dias longe do palco em mais de um ano. O tempo avançou e, com ele, veio o “novo decreto”, anunciado nesta segunda-feira (4/10): é chegada a hora da despedida.

Em nota publicada nas redes sociais, o grupo escreveu que seguirá fazendo shows e encontrando com o público somente até o final do próximo Carnaval (tendo ou não). 

“Depois disso iremos dar uma pausa consciente para seguirmos nossas vidas em busca de novos objetivos, voltando para cumprir somente um último compromisso num casamento agendado antes da pandemia”, disseram.

Ao Diário do Nordeste, o vocalista Adriano Uchôa afirmou estar em paz com a decisão.

“A gente passou por muita loucura nos últimos meses por conta da pandemia e foi um momento para refletir sobre o que queríamos fazer com as nossas vidas, muita coisa mudou e, conversando, chegamos à conclusão de que estava na hora de dar uma paradinha”.
Adriano Uchôa
Cantor

Mas, mesmo antes desse contexto sanitário, a ideia já passava pela cabeça do vocalista. Ele admite que estava infeliz com a rotina de trabalho. 

“Trabalhar na noite é muito desgastante, e tomei uma série de decisões erradas que tornou tudo mais difícil, não tinha descanso. O Alfazemas surgiu como uma brincadeira, era um grupo de pessoas para se divertir, moleques da faculdade. As coisas vão mudando, a vida vai pedindo deslocamentos e a gente segue com ela pra não ficar preso ao passado”. 
Adriana Uchôa
Cantor

Trajetória de conquistas

Esse passado, Adriano reconhece, é feito de muitas realizações. Ao longo de 11 anos, a banda cover, que começou com releituras de brega e depois incluiu um repertório de balada, comandou shows para milhares de pessoas no Ceará, mas também em outros Estados do Nordeste, como Paraíba, Piauí e Maranhão.

Além dos palcos, Os Alfazemas foram parar no cinema, com uma releitura da canção “Nunca mais”, de Odair José, que integrou a trilha sonora do filme “O Shaolin do Sertão” (2016), de Halder Gomes. O DVD “Cabaré da Saudade” (2015) também destaca esse encontro com o audiovisual.

Mas foi o reconhecimento que o poder público concedeu ao grupo no Ciclo Carnavalesco de Fortaleza que abriu todas as portas para essas conquistas, e a banda admite isso na nota de despedida. 

“Foi assim que criamos um laço afetivo com as pessoas de nossa cidade em nossos prés e Carnavais de rua pelo Benfica, Centro, Comunidade das Quadras, Praia de Iracema e tantos outros locais. Esse será sempre nosso maior patrimônio”, acreditam.
Os Alfazemas

Entre os sonhos que não foram possíves de realizar, o vocalista destaca uma apresentação no Theatro José de Alencar e um pré-carnaval de Arena, num estádio de futebol. A banda gravou ainda um DVD autoral, mas que não pretendem tornar público.

A banda Os Alfazemas se consagrou no Ciclo Carnavalesco de Fortaleza
Legenda: A banda Os Alfazemas se consagrou no Ciclo Carnavalesco de Fortaleza
Foto: Natinho Rodrigues

Projeções futuras

Para os fãs, Adriano Uchôa (voz e violão), Alexandre Lima (baixo), Thiago Oliveira (guitarra), Breno Souza (bateria), Aldenor (teclado) e Emerson (produtor) prometem se “despedir de maneira correta”. Daí a intenção de tocar até o Carnaval de 2022, se a pandemia estiver controlada, e também de gravar essa temporada de despedida, se houver recursos.

“As pessoas colaboraram muito… A gente não fazia show para elas, fazia junto com elas. Queremos fechar bem esse ciclo, porque elas merecem e também porque nesse contexto é um privilégio a gente poder decidir parar”, comenta Adriano.

Até lá, como esse tipo de evento segue em teste pelo Estado, Os Alfazemas estão com uma programação mais restrita, aos sábados, a partir das 14h, no Simpatizo Amor de Bar, localizado na Aldeota.

Ainda sem rumo definido, o vocalista admite ter alguns planos, como passar uma temporada viajando de bike e lançar um novo disco autoral, dando continuidade a um trabalho solo disponibilizado nas plataformas de streaming durante a pandemia. 

“Eu pretendo continuar cantando, não tem como parar, só quero redirecionar a energia”, explica.
Adriano Uchôa
Cantor

Adriano Uchôa
Legenda: Adriano Uchôa, em pré-Carnaval no Benfica, em 2014
Foto: Natinho Rodrigues

É com um olhar crítico e até um pouco pessimista, porém, que ele observa esse momento de retomada cultural. 

“Algumas casas privadas estão com equipamentos sucateados, a gente precisa se virar nos 30, trabalhar recebendo pouco, e olhe que já era desvalorizado, agora mais ainda. E tenho temor em relação ao poder público, com esse governo de desmantelamento das políticas culturais, que não tem nem Ministério da Cultura”, desabafa.
Adriano Uchôa
Cantor

A resistência, acredita ele, virá em novas linguagens, novos movimentos, e, para isso, defende que os artistas precisam se unir mais. 

“Nesses anos todos, nunca consegui entrar em uma panelinha. Acredito que é necessário montar uma cooperativa artística, tirar do poder público a decisão de quem faz os grandes eventos”, sinaliza, apontando para a reconstrução.

 
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