Banalizar cirurgias plásticas como a lipoaspiração não é autocuidado

Mulheres, como a influencer Liliane Amorim, seguem morrendo após se submeterem a procedimentos invasivos e arriscados. Conteúdos divulgados nas redes sociais colaboram com a insatisfação feminina com a própria aparência e mantém ativo uma rede que lucra com a insegurança de mulheres.

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Mais uma mulher morreu após se submeter a uma cirurgia estética. Liliane Amorim, influencer pernambucana que morava em Juazeiro do Norte, foi mais uma vítima de um sistema que reduz mulheres a uma busca incessante pela beleza como único valor possível a ser alcançado. Ela não foi a primeira e, infelizmente, não será a última mulher vítima de um sistema que lucra com a insegurança feminina e impõe padrões que jamais serão alcançados. A gente segue morrendo alimentada por uma indústria que lucra com nossa insegurança.  

A felicidade não está no abdômen falsamente trincado, nem no maxilar quadrado, muito menos na bochecha 'negativa'. Porém, se antes esse sentimento era perpetuado por capas de revistas, ele agora está na palma da mão disseminado por influencers e celebridades patrocinadas por clínicas de estética. 

O mito da beleza não é sobre aparência. É sobre controle. Essa é uma das máximas publicadas por Naomi Wolf em "O Mito da Beleza", livro que analisa a indústria da beleza como forma de manter mulheres longe das estruturas de poder da sociedade.

E patrocinar mulheres nas redes sociais para que elas influenciem outras a seguirem na busca incessante pela beleza a qualquer custo é só mais uma forma de manter a máquina girando, nos deixando sem dinheiro, sem autoestima, sem saúde mental e com fome, envoltas em inúmeras dietas. Quem consegue lutar contra um sistema assim? 
 

Afinal, onde a influência entra nisso? Porque enquanto a influencer estiver publicando conteúdo patrocinado por clínica de estética normalizando colocar uma agulha no rosto como algo rápido, simples e tranquilo, vai existir mulheres acreditando que precisam passar por aquele procedimento e que ele não traz problemas, só soluções. A influencer/celebridade que se filma colocando produtos no rosto com uma agulha ou sorrindo em uma mesa de cirurgia com o argumento de "transparência" com a seguidora, no fim, só alimenta a indústria.

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Legenda: Livro "O Mito da Beleza", de Naomi Wolf

Quem consome passa a sentir uma necessidade de se submeter a esses procedimentos, quase como um desejo genuíno de 'melhorar' aquilo que a incomodava. Mas, de fato incomodava ou passou a incomodar quando viu nas redes sociais as fotos de 'antes x depois' de alguém que você segue e admira?  

Existe ainda um buraco mais profundo. Tais procedimentos passaram a ser divulgados como um exercício de "autocuidado", como se fazer procedimentos estéticos invasivos fosse equivalente a "se cuidar, olhar para si mesma com carinho". O dinheiro, o tempo e a saúde investidos nisso ganham um status redentor de carinho consigo. E aí nessa já foi o rinoplastia, já foram os dentes perfeitamente alinhados e brancos, já foi a bichectomia, já foi a harmonização facial, agora é a LipoLad... a todo momento vai surgir um procedimento novo vendido como a sua salvação e esse argumento é perpetuando por quem sabe que influencia pessoas. A conta nunca fecha. 

De produtos para a pele até a cirurgias plásticas, tudo vem se escondendo no guarda-chuva do autocuidado e quem não os prioriza passa a ter a sensação de que não dá atenção de qualidade a si mesma. Porém, autocuidado não é sobre botox e lipoaspiração.
  

Em tempo, essa que vos escreve não idolatra cada pedacinho do corpo e, sim, talvez fizesse procedimentos estéticos. Não os fazer não me torna alguém melhor. Fazê-los também não a torna alguém pior. Mas a problemática aqui está em transformar isso em um "conteúdo" nas suas redes sociais, normalizar e minimizar intervenções sérias e influenciar pessoas a passarem por elas. Não foi apenas uma vez em que me peguei obcecada por realizar algum procedimento e esse desejo sumiu, como que por milagre, após deixar de seguir a pessoa que compartilhava o conteúdo patrocinado. De cílios volumosos a massagens redutoras, já economizei bons centavos só com um "unfollow".  

Sabemos que a culpa não é da mulher que submete a qualquer procedimento, há um culpado muito claro disso e se chama patriarcado. Ele é o único que ganha com isso e também, entre outras coisas, quem permite que pessoas se sintam confortáveis em falar sobre a aparência do outro (em especial, das mulheres) com sentimento de propriedade e sem filtro.

Mas, para além de culpa, estamos falando sobre responsabilidades. Quando se sabe quem carrega um status de influenciador, soma-se a isso uma necessidade de consciência sobre a mensagem que se transmite. Já dizia tio Ben, grandes poderes carregam grandes responsabilidades.   

Lembre-se sempre que autocuidado está muito mais ligado a alimentar-se bem, fazer exercícios, ir para uma terapia e até fazer umas massagens e umas máscaras faciais. Mas não tem nada a ver absolutamente nada a ver com botox ou cirurgia desnecessária! Muito cuidado com o conteúdo que você gera e consome. Pois, no fim das contas, precisamos cuidar uma das outras.

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