Autocuidado pincelado à mão

Paciência, criatividade, capacidade de lidar com imprevistos e aprendizagem das técnicas são fundamentais para quem busca o bem-estar físico e mental por meio da arteterapia de fazer cerâmica

Imagem: Ester Franklin
Legenda: Como processo terapêutico, muitos têm buscado a arte da cerâmica para se redescobrir. Como o manuseio da argila é natural e envolve o fazer com as mãos, ceramistas acreditam na capacidade desse tipo de arte para reforçar o bem-estar
Foto: Ester Franklin

O Processo de manuseio do barro tem transformado a realidade de quem adotou a atividade como um fazer terapêutico. Para a jornalista Ivana Moreira, por exemplo, o contato direto com a cerâmica a tornou menos perfeccionista e controladora. "O barro tem vida própria. Se no processo de produção, a peça rachar, rachou. Não tem o que fazer. O jeito é se entregar por inteiro à criação e recomeçar", comenta.

E foi a partir desse entendimento adquirido no processo de construir, livre de cobranças, domínios ou culpas, que a jornalista desenvolveu cada vez mais suas habilidades criativas com a arte, se libertou das crises de ansiedade e se descobriu uma profissional ceramista.

Imagem: Ivana Moreira
Legenda: Os difusores de cerâmica para óleos essenciais, são as peças mais produzidas por Ivana Moreira
Foto: Ivana Moreira

Ivana começou a frequentar um curso de cerâmica em 2018, após um quadro de ansiedade e estresse ter se agravado. "Eu estava em um cargo de chefia. Encarei desafios, fiquei muito estressada. E naquele momento bom salário e carteira assinada não me bastavam", relembra da época.

Após sair do antigo emprego, Ivana começou a fazer acupuntura e continuou com a terapia que já frequentava há 9 anos. No período, a terapeuta colocou em questão o resgate de coisas que ela realizava por prazer quando era mais nova. "Na adolescência, eu fazia trabalhos manuais de pintura e bijuterias, mas cerâmica nem sabia que existia", releva Ivana.

A partir desse resgate e reflexão, a jornalista começou a procurar algo que nunca tinha feito. Foi quando se encantou realmente com a criação e se transformou em ceramista.

Há quase um ano e meio atuando na nova profissão e, apesar dos ganhos ainda não se igualarem à renda anterior, a ceramista está certa de sua escolha.

"Na cerâmica vi a oportunidade de trabalhar com algo que eu pudesse fazer meu próprio horário, sem cobranças e ser livre. É muito prazeroso presenciar a evolução de cada um. Algumas chegam caladas, depressivas e nas primeiras semanas de contato com o barro estão alegres, comunicativas e entusiasmadas com o uso da argila. Eu noto a cerâmica como instrumento de cura. Ela é um material com resgate de memória", relata.

Tempo 
Já a pedagoga Ester Franklin contabiliza sete anos dedicados à arteterapia com cerâmica. "Minha relação com a cerâmica uniu a vontade de aprender algo com a necessidade de me libertar da ansiedade e da ociosidade. Fui coordenadora escolar por 23 anos. Decidi sair da escola e fiquei meio sem saber o que fazer, mas sempre tive vontade de aprender a trabalhar com cerâmica", revela Ester.

Se desligar dos afazeres rotineiros e se conectar inteiramente consigo mesma estão entre as motivações de Ester, bem como o desenvolvimento da paciência.

Imagem: Ester Franklin
Legenda: Para a ceramista Ester Franklin, a vitória régia em cerâmica remete a natureza em toda a sua grandeza. Além de Incontáveis possibilidades de recriar formas e cores por meio da argila
Foto: Ester Franklin

"O desenrolar desse trabalho muitas vezes independe da gente. Eu coloco uma peça no forno achando que vai sair de uma cor, ela sai completamente diferente. A gente passa a manhã inteira montando uma peça, aí ela racha. Por isso digo que a cerâmica tem vida própria. Meu aprendizado foi enorme", comenta a pedagoga que, apesar de divulgar seu trabalho nas redes sociais, mantém a atividade somente por satisfação pessoal, não como profissão.

"Eu era uma pessoa completamente imediatista e controladora. Queria ver as coisas prontas, acabadas. E no início, esse processo me deu uma certa angústia, poxa, mas não era bem assim que eu imaginava a peça. Mas aí acaba que a construção com a cerâmica transforma a gente. Vamos aprendendo que as coisas não acontecem exatamente como queremos", diz.

Sensação 
A artista plástica Denise Saboia é professora de cerâmica e, com 20 anos de experiência na área, ela diz que a maioria dos alunos se propõe a fazer aulas como terapia e por prazer de trabalhar com arte e criação desse material.

"A composição mineral da argila é muito terapêutica e saudável. O processo é natural, feito à mão. As aulas são livres, não tem prazo determinado de participação, os alunos vão ficando, usufruindo tanto a parte de conhecimento quanto desfrutando do convívio com o outro", conta Denise.

A professora ainda revela ser natural que alguns alunos cheguem ao espaço deprimidos e o trabalho manual os ajudam a lidar e controlar a condição. "Psiquiatras e terapeutas costumam encaminhar seus pacientes para as aulas de cerâmica", pontua ela.

A psicóloga e professora universitária Selene Mazza trabalha com argila como técnica de arteterapia com pacientes no consultório há mais de 25 anos. Apesar da vontade de trabalhar com a cerâmica ter vindo de longa data, ela só iniciou as aulas em julho deste ano, por isso a psicóloga se identifica no Instagram como aprendiz de ceramista.

Imagem: Selene Mazza
Legenda: Para a psicóloga Selene Mazza, trabalhar com barro dentro do ambiente terapêutico é o produzir sem controle, apenas aceitar o resultado
Foto: Selene Mazza

A paixão de Selene pela cerâmica está ligada não somente a sua trajetória profissional, como elemento importante para se entrar em contato com o aspecto mais íntimo, primitivo e inconsciente do ser humano.

"Esse aspecto inconsciente, quando é levado para a cerâmica, ele acaba refletindo no resultado. Ou seja, no dia que você não está bem, que vai mexer com o barro nada dá certo. O barro resseca, não modela. Enfim, toda sua energia interior vai sendo colocada nesse material básico, denominado de prima-matéria, de projeção das nossas questões energéticas", explica.

Conforme a psicóloga, o processo da cerâmica tem relação com a perspectiva psicológica de cada um sobre os quatro elementos: a terra, água, fogo e ar. "Psicologicamente falando, a cerâmica apresenta uma questão voltada para o não controle. O aluno vai aprender a lidar com aquilo que não se pode controlar, com o não suposto, o incerto, lidar com as variedades que a própria modelagem e a esmaltação oferecem".

Uma das coisas que a fazem ter esse vínculo com a cerâmica é, coincidentemente ou oportunamente, sua concepção teórica do seu trabalho. "Então, eu digo que juntei a fome com a vontade de comer. Não sei se outra pessoa com outra concepção teórica faria a mesma leitura que eu faço, mas é minha leitura profissional. Agora, pessoalmente, é um estilo de vida e é isso que eu defendo, precisamos sempre buscar um sentido e nossos significados de vida, para aonde queremos caminhar".

É justamente na aula de cerâmica que a psicóloga diz conseguir se encontrar com ela mesma. É o espaço no qual ela produz suas peças, as quais ela pode dar para quem quiser sem comercialização. "Tem aquelas que eu não dou, são exclusivamente minhas, porque essas são minhas energias. Mas quando dou uma peça a alguém sei que estou dando uma parte de mim com afeto, amor, intenção, com energia", finaliza.

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