Artistas do Bom Jardim organizam 'vaquinha' para levar espetáculo cearense à Alemanha

Campanha de financiamento se encerra no dia 20 de agosto. Até a data de fechamento da reportagem, o grupo arrecadou apenas R$ 80

Legenda: Espetáculo "A Rua é NOIZ" em Fortaleza. Além das passagens, financiamento coletivo também vai permitir a compra de material cenográfico
Foto: Divulgação

A vida de crianças e adolescentes do Grande Bom Jardim é primordial à trajetória do Instituto Katiana Pena (IKP). Ensinando a dança, insere em um dos territórios mais vulneráveis de Fortaleza a perspectiva de mudança social. Trata de arte enquanto estratégia pedagógica para o desenvolvimento humano. Desde 2015, a casa idealizada pela bailarina e coreógrafa Katiana Pena permite que jovens da região tenham acesso à formação em dança clássica e contemporânea.

Destacam-se também as aulas de balé, capoeira, atividades de incentivo à leitura, aulas de inglês, "contações de histórias", cineclube, artes plásticas e ilha digital. Esse cuidado contempla também a existência e atuação da companhia CorpoMudança

Criada em 2007, começou no Centro Cultural Bom Jardim (CCBJ), no qual Katiana era professora da primeira turma de balé do equipamento estadual. Em janeiro de 2015, a educadora criou na sala da própria casa um espaço de ensino para os filhos da comunidade. O grupo permanece em atividade até hoje. No próximo mês de agosto, no Centro Cultural Dragão do Mar (CDMAC) apresentam o espetáculo "D'Kebrada - Memórias de um Território". Porém, outro desafio se avizinha para essa turma.

Internacional

O CorpoMudança foi convidado pelos organizadores do festival alemão "Formation Now" para um intercâmbio de 10 dias em Hamburgo. Em setembro, naquela terra estrangeira, os bailarinos terão a chance de apresentar os trabalhos "A Rua é Noiz" e "D'Kebrada - Memórias de um Território". O evento, no entanto, oferece apenas alimentação e hospedagem. As passagens áreas são responsabilidade dos cearenses.

Legenda: Festival "Formation Now" acontece em setembro na Alemanha
Foto: Txai Costa Mendes

Como manda o histórico de resistência da Instituição localizada no bairro Bom Jardim, a solidariedade será mais uma vez fundamental no caminho destes jovens. Para custear a viagem de ida e as despesas com materiais cenográficos, o IKP organiza financiamento coletivo online. A "vaquinha" de R$ 100 mil também tem a missão de pagar o seguro de viagem obrigatório para os 13 participantes do CorpoMudança.

"Acho tão importante essa experiência para os alunos. Eles têm o preconceito colocado goela adentro e poder levar jovens do Bom Jardim, falar de nossa arte em outro lugar é algo incomparável", divide Katiana.

Legenda: Katiana Pena democratiza o ensino da dança no Grande Bom Jardim
Foto: Kid Junior

Se a expectativa é das maiores para a professora, o mesmo sentimento toma conta dos integrantes do corpo de baile. Gutemberg Morais e Cibele Araújo refletem sobre a chance de artistas criados na periferia da Capital mostrarem sua arte na Europa. Além de um sonho, já é a constatação do quanto a cultura é capaz de propiciar novos horizontes e levar dignidade a uma faixa social tão carente de políticas públicas igualitárias.

"Significa muito para mim, pois vou levar minha periferia para o Mundo", defende Morais. Há oito anos atuando ao lado do IKP, o bailarino lembra que o evento realizado na Alemanha reúne a arte criada por jovens. A troca de saberes, explica, permitirá que o público do festival vivencie um pouco da dura realidade da periferia cearense. Todavia, testemunhar e abraçar outras existências é primordial dentro da experiência.

"Essa fusão de culturas vai causar impactos para ambos. Ter acesso à cultura deles é enriquecedor. Lidar com uma nova língua, com a dança e poder representar o meu bairro é incrível. Representar as periferias não só de Fortaleza, mas do Brasil inteiro. Mostrar que somos profissionais. Temos técnica e estamos levando nossa arte. Vai ser um grande salto para nós artistas", arremata Morais.

A fala de Cibele Araújo emociona. "Chamo ela de 'tia' por que estou com Katiana desde pequena", divide. A primeira aula foi aos oito anos, ainda no CCBJ. Hoje, aos 21, integra o CorpoMudança e divide os conhecimentos adquiridos com as crianças atendidas pela Instituição. A depender da garra mostrada no testemunho, é só questão de tempo para a companhia apresentar os espetáculos na Alemanha.

Legenda: Vai ser um grande salto para nós artistas”, arremata o bailarino Gutemberg Morais
Foto: Txai Costa Mendes

"É uma vitória para nós, que sempre lutamos por isso, por nossa visibilidade como grupo, como profissionais que somos, pelo trabalho que fazemos com essas crianças no bairro. A oportunidade de viajar é uma vitória pessoal como bailarina e professora da instituição. Será algo histórico para nosso bairro. Onde um grupo de periferia vai para a Alemanha? Vamos conseguir e virão outras oportunidades", aposta Cibele.

A campanha de financiamento se encerra no dia 20 de agosto. Até a data de fechamento da reportagem, o grupo arrecadou apenas R$ 80. "Quando se fala em Bom Jardim sempre usam uma referência tão ruim. Levar essa periferia para outro lugar nunca será clichê. Será uma porta aberta na própria vida desses adolescentes", finaliza Katiana Pena.

Acesso o financiamento coletivo nesse link.