Arnaldo Antunes dribla a rigidez do tempo e do mundo por meio dos poemas de "Algo antigo"

Novo livro do poeta e compositor paulistano acende discussões a partir do enlace entre versos livres e de forma fixa, poemas visuais e fotografias

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De pés descalços e roupa folgada, Arnaldo Antunes caminha de um lado para o outro num recinto de madeira. Está em um sítio no interior de São Paulo, onde passa a maior parte do tempo entre memórias e criações. Enquanto prepara um café, envolvido pela luz do exterior adentrando nas frestas do cômodo, recorda os primeiros poemas de sua autoria, gestados ainda na adolescência, aos 13 anos.

“Eles já tinham essa ideia de subverter um pouco a forma tradicional da linguagem”, percebe. Na sequência, cita um, marcado pela amálgama da última sílaba do verso anterior com a primeira do verso seguinte, produzindo o mesmo som.

“Ia tudo emendado junto”, diz. A fala está presente no documentário “Com a palavra: Arnaldo Antunes”, dirigido por Marcelo Machado e lançado em 2019. A produção está disponível no catálogo da Netflix.

No mesmo ano, o poeta e compositor paulistano finalizou um livro que, reformulado na quarentena, chega às mãos do público neste mês, “Algo antigo”. Publicada pela Companhia das Letras, a obra é um compêndio desassossegado de poemas cuja predisposição é driblar a rigidez do tempo e do mundo, expediente imutável do artista.

Nas páginas, o autor de “As coisas” (Iluminuras, 200) e “Agora aqui ninguém precisa de si” (Companhia das Letras, 2015) se vale do enlace entre versos livres e de forma fixa, poemas visuais e fotografias para quebrar os invólucros dos ciclos temporais, reformulando-os. “- não dá pra ficar parado aí na porta”, brada em um dos poemas. Alguém discorda?

Dança das letras

Uma cacofonia de letras nos assalta desde a capa, concebida pelo próprio Antunes com a esposa, a artista plástica Marcia Xavier. No miolo, contudo, o jogo linguístico, longe de ser dissonante, continua dinâmico, ágil, emaranhado. Poeta de múltiplos hojes, Arnaldo capta do imediatismo das horas ao comportamento atroz dos “bacanas/ canalhas/ sacanas”.

Também abraça volúpias, como em “x” e “pistilo” (“labor/ de lábios// no bico/oblíquo/ do beija-flor”), e convoca à fuga da inércia em “o que não” (“aproveita/ o que venta”).

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Uma criação em específico é dedicada ao recente nonagenário Augusto de Campos, ícone maior do concretismo na poesia brasileira. “NO” entrelaça, num mesmo bloco de letras, vida, idade e devir. Um apuro pela entonação gráfica que atravessa outros tantos versos.

Em “quarentena”, a distância entre letras e expressões culmina em uma poderosa meditação sobre o estado das coisas. “saga” inscreve, em meio círculo, os ciclos. E “ou” carrega uma força de mudança ao confrontar o leitor em letras garrafais: “Acata ou ataca”.

Poesia ativa

Trata-se, portanto, de um refinado trabalho de composição e sonoridade verbais, encontrados também em cirúrgicos epigramas. A sensação é de ouvir a voz grave e metálica de Antunes – conhecida do grande público sobretudo por meio das canções dos Titãs e dos Tribalistas – passeando por entre os cortes e encaixes de letras e palavras.

Autora do texto de orelha do livro, Noemi Jaffe destaca que a poesia de Arnaldo é ativa em sua ética, nos próprios movimentos gráficos, rítmicos e sonoros, e na maneira como propicia perguntas à audiência, sem deixar de ter consciência da morte.

Complemento a ideia ao sublinhar que o ofício do artista, mais que buscar um sentido, almeja multiplicar-se em vários, função primeira da poesia. E faz isso de forma clara, direta, sem rodeios, munido até de certa melancolia. “algo/ que já era/ (embora/ vivo)/ para (agora)/ ser/ um livro”.

Nesse tempo que escorre as dores e amarguras do tumultuado presente, Arnaldo Antunes parece evocar a todo momento o verso de uma das canções do álbum “Iê iê iê” (2009): “A coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer”.

Talvez para agigantar as esperanças no amanhã, contrapondo as intolerâncias pessoais e coletivas. Fresta onde vaze sol ou só riso, ave ou aviso, cor, descoberta.

livro arnaldo

Algo antigo
Arnaldo Antunes

Companhia das Letras
2020, 224 páginas
R$ 49,90

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