Aclamado, filme cearense "Pacarrete" chega aos cinemas nesta quinta-feira (26)

Em Fortaleza, a estreia acontece no Cinema do Dragão do Mar; longa de Allan Deberton foi exibido em festivais nacionais e estrangeiros, divertindo e emocionando plateias ao contar a história de uma professora de dança aposentada

Legenda: A atriz paraibana Marcélia Cartaxo dá vida à personagem Pacarrete no longa-metragem
Foto: Luiz Alves

Outrora anônimo, abreviado entre os limites de um município no interior do Ceará, hoje o nome “Pacarrete” é figura conhecida no meio cinematográfico. Também pudera. Grande vencedor do Festival de Cinema de Gramado no ano passado – onde angariou oito troféus e foi aplaudido de pé – o longa vem conquistando plateias e elogios ao longo de competições e exibições especiais, Brasil e mundo afora.

Nesta quinta-feira (26), o trabalho dá o definitivo passo na busca por novas audiências ao ocupar as salas de cinema de todo o Brasil. Em Fortaleza, as sessões acontecerão no Cinema do Dragão do Mar, estreando em meio aos rigores sanitários impostos pela pandemia de Covid-19. 

O filme chega ao circuito comercial após adiamento do lançamento em abril e, por isso, emerge com uma nobre intenção: acreditar na necessidade de manutenção dos cinemas enquanto equipamentos físicos durante este turbulento período.

A perspectiva é alimentada por Allan Deberton, diretor, produtor e roteirista da película. Em entrevista ao Verso por telefone, o cineasta cearense teceu comentários acerca dessa ocasião particular em que a obra entra em cartaz.  “Vejo que há uma excelente intenção dos cinemas de retomar as atividades, com todos os cuidados em combate à doença”, situa. 

"De nenhuma forma, entretanto, estou incentivando as pessoas a irem para o cinema. Existe o filme como opção, assim como há outros filmes em cartaz. Mas uma vez que ‘Pacarrete’ é um título nacional, a gente deixa como sugestão para assistirem a uma produção que foi muito bem feita e emociona. É um filme em que estávamos muito ansiosos para esse momento de encontro com o público, mas, claro, mantendo sempre o cuidado de combate ao vírus”, completa.

Ele conta que o instante é de muita felicidade, tendo em vista que “Pacarrete” é seu primeiro longa-metragem e os percursos pelos quais o trabalho passou chancelaram a potência da história que apresenta. Narrado com muito bom humor e sentimento, o filme relata o cotidiano da personagem-título, interpretada por Marcélia Cartaxo, uma professora de dança aposentada que vive com a irmã em Russas. 

O grande sonho dela é estrear um balé para a população local durante a grande festa da cidade. Para isso, tenta convencer a prefeitura de seu show, mas a falta de interesse dos moradores no número e os maus julgamentos que fazem dela tornam-se grandes empecilhos.

É uma obra que fala de superação, de não desistir de ser quem você é. Acho muito importante essa mensagem que o filme deixa, de ‘seja singular e vá em busca dos seus sonhos’. É por isso que ele acaba emocionando, porque deixa as pessoas motivadas”, observa o diretor.

Reconhecimento

“Pacarrete” também foi longe ao integrar a seleta lista da Academia Brasileira de Cinema com produções cotadas para representar o Brasil no Oscar 2021. Apesar de o escolhido ter sido “Babenco”, documentário dirigido por Bárbara Paz sobre o realizador argentino Hector Babenco (1946-2016), Deberton não deixa de comemorar o alcance da obra sob sua assinatura.

“Até agora, mesmo depois do anúncio, recebo com muita alegria comentários de grupos de cinefilia, críticos e pessoas que estavam na banca torcendo por ‘Pacarrete’. Porque ele foi esse filme pequeno que surpreendeu. Para mim, tem um duplo significado: além de ser um longa feito no interior do Ceará, é sobre uma mulher que existiu, levando uma história que é genuinamente nossa e que está emocionando”, diz.

O diretor ainda comenta que a protagonista está quase virando um ícone. Não à toa, a extensa quantidade de mensagens que recebe diariamente com os dizeres “Hoje estou meio Pacarrete” ou “Hoje estou pacarreteando”. “Vira quase um estado de espírito”, ri. 

“Então, quando penso que a gente estava nessa lista de representantes brasileiros para o Oscar, vem à memória a nossa grande torcida, por estar representando a produção cearense e brasileira no exterior. Mas também estamos super confiantes de que o filme escolhido vai fazer um ótimo trabalho. Torcendo por ‘Babenco’”.

Legenda: O diretor Allan Deberton comenta que, para o público que já conferiu a película, a protagonista representa como que um estado de espírito
Foto: Luiz Alves

Novos ares

O próximo passo de “Pacarrete” será ocupar o streaming. Allan Deberton diz que, depois do circuito nas salas físicas, a película poderá ser conferida nas plataformas digitais. Até lá, o cineasta trabalha no roteiro de um filme e faz o desenvolvimento de um outro longa que vai dirigir. Ambos os projetos iniciarão as gravações tão logo se efetive o financiamento e seja superada a pandemia. A ideia é que se concretizem em 2021.

Enquanto prepara os dois trabalhos, o cineasta reflete ainda que sua mais recente obra tenta superar a barreira dos rótulos de “filme de arte” ou “de nicho”. Na verdade, há características nele que dialogam frontalmente com apelos populares. “Ele conversa com diversos tipos de público, além de ter muita graça – com vários tons de comédia, inclusive musical – e um drama super emocionante”, analisa.

Ao mesmo tempo, por ser natural de Russas, onde morou até os 19 anos, Deberton percebe que o longa – ao ser exibido em praça pública no município, em dezembro do ano passado – trouxe outros ares para o local e deve plantar essa semente nos novos espectadores. É preciso olhar além.

A cidade ficou muito emocionada porque percebeu, de um modo diferente, aquela mulher que viveu entre eles. Antes ela era vista sob um viés cruzado, no sentido de preconceito, de não-entendimento; hoje as pessoas têm bastante orgulho, tanto pelo filme ter sido feito na cidade, quanto dela que, agora, é motivo de inspiração”, dimensiona.

“Acho que a nossa atitude deve ser sempre de incentivo, de valorização do cinema, do artista, principalmente o local. ‘Pacarrete’, assim, também emerge com essa necessidade de as pessoas descobrirem o cinema por meio do cinema brasileiro, que tem sido muito elogiado, inclusive internacionalmente. E, claro, de promover a empatia com aquele que é diferente, algo que é muito plural e pode ser manifestado de diversas formas”, conclui.

Estrela

Responsável por dar vida à força e valentia de Pacarrete, Marcélia Cartaxo observa que a chegada ao mercado exibidor é mais um vitorioso capítulo na jornada da obra. A premiada atriz paraibana reflete o quanto o filme ganhou ainda mais profundidade e importância com a pandemia.

"'Pacarrete'" é um apelo muito grande para essa resistência, seja lá como ela for. Não se pode nunca apagar que é a arte da nossa vida. Nunca deixar de lutar e resistir. O filme tem outras camadas, como a questão de um cuidar do outro, das cidades do interior onde é mais difícil acontecer a arte. Ficamos nessa luta", divide.

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