Papa Francisco expressa "dor" por 215 crianças mortas em internato católico do Canadá

O pontífice prestou solidariedade ao povo canadense e classificou a descoberta dos cadáveres como "terrível notícia"

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Legenda: Um memorial foi improvisado para homenagear as 215 crianças encontradas enterradas perto das instalações em Kamloops
Foto: Cole Burston/AFP

A descoberta dos restos mortais de 215 crianças indígenas nas instalações de um antigo internato da Igreja Católica no Canadá fez o papa Francisco expressar um sentimento de "dor" neste domingo (6). Contudo, o pontífice não pediu desculpas pelo ocorrido, apesar dos múltiplos apelos dos canadenses. 

"Acompanho com dor as notícias que chegam até nós do Canadá a respeito da chocante descoberta dos restos mortais de 215 crianças" na Colúmbia Britânica (oeste), declarou o papa ao final da tradicional oração dominical do Angelus na Praça de São Pedro do Vaticano.

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Na sexta-feira (4), o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, lamentou a recusa do papa e da Igreja Católica em reconhecer sua "responsabilidade" e "parte da culpa" na gestão dos internatos para crianças indígenas no Canadá.

O gestor exortou os católicos canadenses a falar com seus padres e bispos para "transmitir a eles a mensagem de que é hora de a Igreja Católica reconhecer sua responsabilidade, sua parcela de culpa e, acima de tudo, estar presente para que a verdade seja conhecida".

Neste domingo, o papa evitou ir tão longe e simplesmente declarou: "Uno-me aos bispos canadenses e a toda a Igreja Católica do Canadá para expressar minha solidariedade ao povo canadense marcado por esta terrível notícia".

"Esta triste descoberta aumenta ainda mais a consciência da dor e do sofrimento do passado. Que as autoridades políticas e religiosas do Canadá continuem a trabalhar juntas com determinação para lançar luz sobre este triste caso e humildemente se comprometerem a embarcar em um caminho de reconciliação e alívio", acrescentou.

Os apelos de grupos indígenas para que o papa se desculpasse aumentaram nos últimos dias, depois que os restos mortais de crianças em idade escolar foram encontrados na semana passada em um antigo internato de Kamloops administrado pela Igreja Católica de 1890 a 1969.

"Estes momentos difíceis representam um forte apelo a todos nós para nos afastarmos do modelo colonizador e também das atuais colonizações ideológicas, e marcharmos lado a lado no caminho do diálogo, do respeito recíproco e do reconhecimento dos direitos e valores culturais de todos os filhos e filhas do Canadá", disse.

Achado de cadáveres

Cerca de 150.000 crianças ameríndias, mestiças e inuítes (esquimós, termo que atualmente tem conotação pejorativa no Canadá) foram internadas à força em 139 internatos desse tipo em todo o país, onde ficaram isoladas de suas famílias, idioma e cultura. 

Em 2015, uma comissão nacional de inquérito declarou essas práticas como "genocídio cultural".

A Conferência Episcopal Canadense estimou na segunda-feira que a descoberta dos restos mortais era "avassaladora" e expressou sua "profunda tristeza", mas sem oferecer um pedido formal de desculpas.

Na terça, o ministro canadense Marc Miller considerou "vergonhoso" a falta de desculpas do papa e da Igreja Católica.

Poucas horas depois das declarações do ministro, o arcebispo de Vancouver, Michael Miller, apresentou suas "sinceras desculpas e profundas condolências às famílias".

"A Igreja estava inquestionavelmente errada ao implementar uma política governamental colonialista que foi devastadora para as crianças, famílias e comunidades", considerou.

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