Irã vai revidar morte de general pelos EUA, avaliam especialistas

Primeiras respostas do país persa ao ataque americano contra comandante militar Qassim Soleimani podem vir das milícias iranianas no Iraque, Síria, Líbano e Iêmen. Ofensiva cibernética também pode ser uma das represálias

Legenda: Oriente Médio vive tensão após a morte de general iraniano Soleimani
Foto: Foto: AFP

A promessa do Irã de vingar a morte do general Qassim Soleimani em um ataque realizado pelos EUA pode levar o país persa a mobilizar seus aliados no Iraque, a realizar ações no estratégico Golfo de Ormuz ou fazer um ataque cibernético, entre outras possíveis represálias, segundo analistas.

Após vários incidentes entre os EUA e o Irã e a aceleração da crise, os especialistas não imaginam que a morte do poderoso general, um homem-chave do regime de Teerã, fique sem resposta. "Há um amplo espectro de respostas possíveis, e nem todas envolvem ação militar ou violenta", diz Heiko Wimmen, chefe da organização do Grupo de Crise para Síria, Líbano e Irã.

"Nenhum dos dois lados quer a guerra, nenhum dos dois tem nada a ganhar. O perigo é que estejam numa colisão frontal, esperando que o outro recue. Se nenhum dos dois fizer isso, pode terminar em desastre", afirmou.

O Iraque, onde a República Islâmica conta com um grande apoio, deve estar no centro das primeiras respostas de Teerã, mesmo que seja através de suas milícias, aliados e outros apoiadores. "O Iraque agora se tornará o primeiro campo de batalha", disse Alex Vatanka, especialista iraniano no Instituto do Oriente Médio em Washington.

"Haverá muita pressão sobre a presença militar no Iraque", afirma Vatanka, lembrando que os americanos perderiam muito estrategicamente se abandonarem o país. Em Bagdá, os comandantes das facções pró-Irã já chamaram seus combatentes "para estarem preparados". O líder xiita Moqtada Sadr reativou o Exército Mehdi, sua milícia dissolvida há uma década.

Ações contra os norte-americanos também são possíveis no Líbano, possivelmente no Iêmen ou na Síria, onde o Irã é ativo com seus aliados, como os huthis iemenitas ou o Hezbollah libanês.

O Irã foi acusado muitas vezes em 2019 de atacar navios petroleiros na costa da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos e de confiscar embarcações marítimas perto do Estreito de Ormuz. Também se suspeita que esteja por trás de um ataque espetacular contra duas instalações de petróleo sauditas, que tiveram um enorme impacto. "O Irã mostrou que pode atacar instalações, bloquear navios. É possível um bloqueio?", pergunta Jean-Charles Brisard, presidente do Centro de Análise de Terrorismo (CAT) em Paris.

Os países ocidentais anunciaram várias operações para garantir o transporte nesta região ultramilitarizada.

Ciberataque

"O Irã tenta buscar uma capacidade cibernética ofensiva que permita ataques contra infraestrutura crítica dos EUA e de seus aliados", declarou Dan Coats, diretor da National Intelligence, responsável pelos serviços de inteligência americanos.

Especialistas consideram o Irã como um dos principais atores no cenário cibernético global. "Os iranianos formaram um 'exército cibernético', um grupo que jurou lealdade ao guia supremo sem ser uma estrutura social", disse Loic Guézo, secretário-geral da Clusif, um grupo de profissionais franceses especializados em segurança e informação. "Seus meios de ação são mais sobre infraestrutura do tipo industrial; é aí que eles são bastante assustadores: uma intrusão nos sistemas de produção de energia americanos", destacou.

Arsenal nuclear

Desde maio passado, o Irã violou vários compromissos do acordo de 2015 que garantiam a natureza pacífica de seu programa nuclear, em resposta à decisão de abandonar o acordo dos EUA em 2018 e ao restabelecimento das sanções dos americanos que sufocam a economia iraniana.

Espera-se para a próxima segunda-feira um anúncio do Irã de novas decisões sobre o acordo que está morrendo, como a reativação de instalações proibidas ou a superação de novos limites de enriquecimento de urânio. A França pediu, ontem, a Teerã que evite o risco de uma "grave crise de proliferação nuclear".

Segundo Vatanka, Soleimani era uma figura importante e será necessário "um discurso de vingança" do regime iraniano. Mas nem Washington nem Teerã querem ir para um confronto maior, convencional e brutal. Outras figuras da revolução foram abatidas e "nunca foram verdadeiramente vingadas", disse o pesquisador. O regime iraniano, já em grande dificuldade no nível interno, não tem chance de vencer uma guerra dessa magnitude. "Não é um regime suicida", insiste Vatanka.

Brasil

As reações da morte do comandante iraniano no Brasil refletiram a polarização ideológica. Os apoiadores do presidente Jair Bolsonaro defenderam ação dos EUA. "O general Suleimani - do qual muitos aí estão morrendo de pena - era um dos principais inimigos de Israel e liderava diversas forças iranianas na Síria que tentaram atacar Israel nos últimos anos. Sua eliminação é uma vitória contra o Irã e contra o terrorismo mundial", comentou a deputada bolsonarista Carla Zambelli.

Já a oposição a Bolsonaro atacou os EUA. "2020 começa com a violência justificada como morte 'preventiva'. É a velha receita americana de poder: provocar guerras", disse Jandira Feghali (PCdoB-RJ).

Por sua vez, o presidente descartou a possibilidade de tabelar o preço dos combustíveis para controlar impactos e disse que vai discutir o assunto com a equipe econômica.

Os preços do petróleo dispararam, ontem, em meio ao temor de um conflito no Oriente Médio. Em Londres, o barril subiu 3,5%, voltando ao maior patamar desde setembro.

A Bolsa paulista caiu 0,73%. O índice acionário americano Dow Jones recuou 0,81%. O dólar subiu 0,77%, a R$ 4,0522.

Alta de combustíveis ainda sem definição

Importadores de petróleo e derivados apostaram, ontem, que a Petrobras não vai, por enquanto, rever seus preços. Com isso, a perspectiva é que também eles não se movimentem. A Associação dos Importadores de Combustíveis aguarda um posicionamento da estatal para a semana que vem, segundo o presidente da entidade, Sérgio Araújo.

“Agora, seria uma precificação de risco. É muito especulativo neste momento. A Petrobras deve aguardar uma estabilização da cotação, o que deve acontecer na próxima semana”, diz. 

Os importadores têm papel relevante no mercado interno e costumam pressionar a estatal pelo reajuste dos preços para que também eles tenham espaço para acompanhar o mercado internacional. Por isso, a visão do economista e coordenador técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), Rodrigo Pimentel, é que a posição dos importadores terá influência na reação da Petrobras. A associação tem recorrido ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica toda vez que avalia que a Petrobras atua descolada do mercado externo. Ao segurar os preços internos, a empresa impede a livre a concorrência no mercado, argumenta. A Petrobras não falou, ontem, sobre a alta do petróleo.

Reforço de tropa

Os EUA anunciaram que vão enviar até 3.500 soldados adicionais ao Oriente Médio para reforçar a segurança dos interesses americanos na região, após a morte do general iraniano Qassim Soleimani em um bombardeio americano.

Ameaça de vingança

O guia supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, ameaçou "vingar" a morte de Soleimani e decretou três dias de luto. "Não há dúvida de que a grande nação do Irã e as outras nações livres da região se vingarão da América criminosa por esse assassinato horrível", disse o presidente Hassan Rohani.

Chefe da elite militar

O guia supremo iraniano nomeou Esmail Qaani como o novo chefe da força Al-Qods, braço de elite da Guarda Revolucionária do Irã . "As ordens da força Al-Qods permanecem exatamente as mesmas que sob a direção do mártir Soleimani", disse Khamenei.

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