Indecisão em estados-chaves deixa eleição sem favorito nos EUA

Apesar de Joe Biden aparecer em primeiro em estados decisivos como Arizona, Flórida, Pensilvânia e Wisconsin, vantagem é pequena e pode desaparecer com esforços de última de hora de Donald Trump

Os brasileiros estranham o modo dos americanos de escolher seus presidentes. É uma eleição indireta. Conquistar o maior número de votos populares é insuficiente para vencer. Em 2016, a maioria dos americanos votou em Hillary Clinton, mas Trump venceu em estados-chaves, mais representativos, de maior peso, que contribuem com mais votos qualificados na contagem geral do chamado "colégio eleitoral".

Até ontem (1º), as pesquisas mostravam que o democrata Joe Biden liderava em quatro desses estados decisivos, mas a vantagem em relação ao republicanos Donald Trump é pequena, ou seja, pode ser ilusória diante de diversos fatores, como o grau de comparecimento às urnas e às decisões de última hora dos eleitores, no país campeão de mortes e de casos de Covid-19 e bombardeado por "fake news" políticas em redes sociais.

Essas variáveis tornam impossível cravar que Biden será o vencedor amanhã (3). Neste ano, as batalhas mais acirradas serão travadas em seis dos 50 estados: Arizona, Flórida, Michigan, Carolina do Norte, Pensilvânia e Wisconsin.

A Flórida é o mais indeciso desses estados. A mais recente pesquisa não deixa claro quem levará todos os votos do estado. Biden aparece com 48%, enquanto Trump figura com 46%, ou seja, uma margem de apenas dois pontos percentuais.

Em 2016, Trump venceu na Flórida por 49% contra 47% de Hillary Clinton. Nos pleitos anteriores, os democratas venceram na Flórida com Obama alcançando 50% (2012) e 51% (2008).

Legenda: Últimos comícios de Trump na busca pela virada nas pesquisas de intenções de voto
Foto: AFP

A região de Miami na Flórida é uma dessas que vive a situação de "pêndulo". A maioria hispânica se decepcionou em 2018 com os democratas, especialmente os jovens de origem cubana, que começaram a se identificar com as ideias dos republicanos, como a rejeição ao regime socialista de Cuba.

Vantagem

No estado da Carolina do Norte, Biden também tem uma vantagem estreita em relação a Trump (49% a 47%). Há, por aqui, imensas comunidades de eleitores negros, profissionais moderados e estudantes, bem como votantes brancos, conservadores e ligados à economia rural.

Na região de Union, um bastião republicano perto da cidade de Charlotte, Trump venceu fácil em 2016, mas agora há sinais de rejeição ao presidente, dando esperança aos correligionários de Biden de que o democrata possa vencer por aqui amanhã.

Legenda: Os últimos atos de campanha de Joe Biden antes da votação na próxima terça (3)
Foto: AFP

Pensilvânia

Já a Pensilvânia é um exemplo de estado desafiante para Trump. Em 2016, ele venceu por menos um ponto percentual (48,2% a 47,5%). Uma de suas grandes cidades é a Filadélfia. Os protestos antirracistas podem ter contribuído para a população negra nessa região ter escolhido Biden, mas Trump pode compensar essa perda com os votos dos brancos da área rural.

No estado de Michigan, as pesquisas dão uma vantagem de oito pontos para Biden (51% a 43%). É historicamente um reduto democrata, mas em 2016 Trump conseguiu aqui uma das vitórias mais surpreendentes, com uma diferença minúscula de 0,3 ponto percentual de vantagem.

Já no estado de Wisconsin, Biden deve superar Trump, segundo recente pesquisa (52% a 42%), graças aos votos das cidades liberais de Milwaukee e Madison. Mas o norte e o oeste do estado, com predominância rural, podem pender para o lado de Trump.

No estado do Arizona, Biden tem 49%, ante 45% de Trump. A região de Maricopa, onde fica Phoenix, é a mais importante. Em 2016, Trump venceu aqui por um triz, mas dois anos depois a região mudou de lado e apoiou uma senadora democrata. A eleição de amanhã vai dizer se Biden realmente ganha por aqui ou se Trump conseguiu, na reta final, virar o jogo.

As últimas pesquisas sobre a sucessão presidencial nos EUA apontam um resultado imprevisível, já que Joe Biden não conseguiu abrir uma vantagem ampla em relação a Donald Trump

O peso da pandemia

Há meses, as pesquisas mostram que a maioria dos americanos desaprova a maneira como Trump lida com a crise de saúde. Apenas 40% dos entrevistados aprovam Trump, de acordo com uma pesquisa recente da Gallup, em comparação com 60% em março.

A influência dos idosos

Os idosos podem ser o fiel da balança na eleição amanhã. Pesquisadores sustentam que esse público, que tradicionalmente vota no partido de Trump, se decepcionou com a resposta da Casa Branca à crise da saúde e pode votar em Biden. Seria o "efeito Covid-19" mudando o jogo eleitoral na maior democracia do mundo.

Metas de 100 dias

Se eleito amanhã, Joe Biden já tem metas para os primeiros 100 dias de governo. Da luta contra o coronavírus até a retomada do Acordo de Paris sobre o clima e a promoção de uma reforma migratória, Biden diz que sua presidência mudaria o curso do país em várias frentes. "Teremos a enorme tarefa de reparar os danos que ele causou", disse Biden recentemente sobre Donald Trump.

Biden diz que lançaria imediatamente uma estratégia nacional para acabar com a crise causada pela pandemia. Seu plano incluiria a obrigatoriedade de máscaras em todo o país e a ampliação dos testes de diagnóstico gratuitos de Covid-19, tornando qualquer vacina futura "gratuita para todos".

A reabertura efetiva da economia será outra prioridade. Ele revelou um plano de US$ 700 bilhões para criar milhões de empregos. O financiamento viria da cobrança de impostos mais altos dos mais ricos. Também disse que vai investir alto no setor de energias renováveis. Biden pede ações para combater a mudança climática. "A primeira coisa que vou fazer é voltar ao Acordo de Paris". Trump abandonou o pacto climático global em 2017.

Biden prometeu reformas de imigração. Ele prometeu reverter proibições de viagens que impedem cidadãos de vários países de maioria muçulmana de entrar nos EUA.

Quero receber conteúdos exclusivos sobre o mundo

Assuntos Relacionados