Após um 2019 de tensões, instabilidade é única certeza para 2020

Insatisfação na América Latina, guerra comercial entre grandes potências econômicas, além da eleição nos EUA, com desdobramentos relevantes, devem compor o cenário no mundo para o próximo ano

Legenda: Protestos no Chile contra as políticas do governo conservador resultaram em repressão e violência nas ruas
Foto: Foto: AFP

O ano que chega em muito deve se assemelhar a 2019. A continuidade de eventos que estão arrefecidos, mas ainda fortes - como é o caso dos protestos na América Latina - ou mesmo a concretização de decisões adiadas por anos - como a saída do Reino Unido da União Europeia. Dentre estes, um dos atos centrais deve ocorrer apenas no penúltimo mês de 2020: a eleição presidencial nos Estados Unidos.

Agendada para novembro, a disputa pelo comando da maior economia do mundo deve ter desdobramentos mundiais. Em contraponto à tentativa de reeleição de Donald Trump, um republicano, deve vir a candidatura do Partido Democrata, ainda uma incógnita. São pelo menos 14 democratas dispostos a enfrentar Donald Trump em 2020.

Antes disso, no entanto, deve se desenrolar o processo de impeachment contra Trump, o que deve ter repercussão eleitoral. "Irá desgastar politicamente [Trump], mas o impeachment dificilmente vai ocorrer, porque precisa do aval do Senado e a maioria do Senado é republicana", explica Gustavo Guerreiro, pesquisador do Observatório das Nacionalidades da Universidade Estadual do Ceará.

"O esforço do Partido Democrata é para alongar o processo, para retardá-lo ao máximo e, com isso, tentar gerar algum desgaste", concorda Dawinson Belém Lopes, professor de Política Internacional da Universidade Federal de Minas Gerais. O impacto, contudo, parece ser mínimo até o momento. "O que se observa é que as linhas de aprovação e de desaprovação do Trump seguem imóveis nesse processo todo", afirma Lopes.

Tendência

Para Lopes, o resultado desta disputa pela presidência dos EUA pode determinar ainda para onde apontam os caminhos da próxima década. "A partir da vitória de Trump em 2016, uma série de fenômenos se desencadearam. Por exemplo, uma onda de regimes de extrema direita pelo mundo", explica. "A eleição do ano que vem vai ser uma confirmação desse movimento ou vai significar que esse movimento teve vida curta", completa Lopes.

Por outro lado, uma crescente força direitista é a tendência identificada por Guerreiro. Para ele, as crises em diferentes países tem contribuído para "o aumento da pobreza, da desigualdade e o avanço de soluções neoliberais e de modelos de arrocho fiscal". "Isso cria um ambiente para solução autoritária, que geralmente vem do campo da direita", conclui.

"O que tenho a impressão é que os avanços da direita, geram reações na esquerda e fica dividido. Para cada Reino Unido, tem um Canadá. Para cada México e Argentina pendendo à esquerda, tem uma Bolívia e Chile que pendem à direita", contrapõe Lopes.

Agitações

A resolução de um 2019 turbulento nos países latino-americanos deve pautar a América Latina durante 2020. Desde as novas eleições presidenciais na Bolívia até as respostas do governo chileno às manifestações nas ruas do país.

"Diferente de outros anos, em que a América Latina especialmente a América do Sul, era uma área mais tranquila, agora não. É um momento de instabilidade", projeta o professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, Pio Penna Filho.

"Mesmo que a onda de movimentos tenha diminuído um pouco, embora ainda permaneça, se o governo não avançar na pauta de reivindicação, elas vão voltar com toda força", prevê Guerreiro.

ONU

Nesse contexto, a Organização das Nações Unidas tem enfrentado uma diminuição de protagonismo no cenário mundial. A razão, aponta Pio Penna Filho, é a valorização de acordos bilaterais em detrimento do multilateralismo."A ONU tem tido então uma perda de capacidade estabilizar o sistema e influenciar a política internacional, porque ela está cada vez mais esvaziada. Então, é um cenário internacional de pouca estabilidade", conclui o pesquisador.

Política externa

O segundo ano do governo do presidente Jair Bolsonaro não deve ser tão diferente no que se refere às relações exteriores, projetam os especialistas. Com a continuidade de Ernesto Araújo à frente do Itamaraty, a perspectiva é de continuidade ao que foi iniciado durante 2019: uma diplomacia menos pragmática.

Contudo, apontam os pesquisadores, algumas concessões também foram feitas, principalmente quanto a China. "O discurso dos primeiros meses de governo eram discursos hostis à China. Esse discurso se transforma ao longo do ano e o Brasil passa a ter na China um parceiro efetivo", lembra Dawinson Belém Lopes.

"Há pouco tempo foram feitos acordos bilaterais com a China, porque a dinâmica internacional impõe que não se pode se isolar no mundo", concorda Gustavo Guerreiro. Para ele, eventuais mudanças no rumo da diplomacia brasileira terão como razão "a dinâmica internacional mais do que uma iniciativa do atual governo".

A retomada, por parte de aliados do presidente, dos planos de transferência da embaixada brasileira em Israel, hoje localizada em Tel Aviv, para Jerusalém é motivo de preocupação.

A possibilidade desta mudança havia sido levantada ainda em 2019, mas o Governo Federal havia recuado após pressões econômicas. Filho do presidente, Eduardo Bolsonaro ressaltou, no início de dezembro, a intenção de concretizar a transferência em 2020.

"Isso seria um problema porque desperta o contra movimento de árabes. E o Brasil, além de uma enorme comunidade árabe, também tem fluxos comerciais com estes países", afirma Lopes.

É um momento delicado para a diplomacia, resume Pio Penna Filho. "É uma política externa que nós ainda não temos certeza de como funciona, não tem norte", explica o professor. O quadro de instabilidade no mundo pode ajudar ou prejudicar o Brasil neste sentido, conclui.

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