Após retaliação do Irã, Donald Trump evita inflamar conflito

Pronunciamento do presidente americano reduz apostas em cenário de guerra ampla no Oriente Médio, aliviando nervosismo no mercado

Legenda: Presidente americano Donald Trump disse que nenhum soldado americano morreu durante os ataques em Iraque
Foto: Foto: AFP

Os Estados Unidos e o Irã evitaram, nesta quarta-feira, reforçar a retórica de guerra, após os ataques às duas bases militares usadas pelas forças americanas no Iraque. O mercado financeiro reagiu, aliviado, depois das declarações menos beligerantes dos líderes dos dois países inimigos.

"Os EUA estão prontos para abraçar a paz com todos os que a buscam", disse Donald Trump, em discurso televisionado, dirigindo-se diretamente aos iranianos.

O presidente dos EUA, que enfrenta tanto um processo de impeachment no Congresso como uma difícil reeleição em novembro, vangloriou-se, no entanto, da decisão de ordenar o assassinato do general iraniano Qassem Soleimani, na sexta-feira passada.

Soleimani, um herói nacional no Irã, foi, segundo Trump, "o principal terrorista do mundo" e "deveria ter sido liquidado há muito tempo".

O ataque de terça-feira contra as bases de Ain al-Asad e Erbil, no Iraque, não resultou em baixas americanas, garantiu Trump. O Exército iraquiano também anunciou não ter sofrido baixas nos 22 ataques com mísseis, a maioria contra a base de Ain Al-Asad.

Nas Bolsas de Valores, após o nervosismo da abertura dos negócios, os principais indicadores do mercado acionário se acalmaram após o discurso de Trump. Em Nova York, os índices acionários fecharam em alta. No Brasil, o dólar caiu 0,31%, a R$ 4,0519, mas a Bolsa paulista destoou e teve leve queda de 0,18%.

Encenação

O discurso de Trump após os ataques às bases militares foi "evasivo", sem qualquer sinalização clara sobre eventuais novas respostas de Washington no conflito com o Irã, esperada pelo mercado, avaliou o economista-chefe da Necton Investimentos, André Perfeito. "A impressão é que há uma grande encenação de ambos os lados e circulam notícias que o Iraque (e por conseguinte os EUA) já sabia do ataque iraniano. Um jogo combinado entre as partes para criar um 'empate' entre Washington e Teerã", observou.

Para Perfeito, "ninguém mais leva a sério o presidente norte-americano", considerando seu histórico.

"Ele queimou seu capital e depois do diz que me diz da crise norte-coreana ficou claro para o mercado que o estilo dele é esse mesmo: muito barulho por nada".

Ainda assim, a volatilidade deve permanecer ditando o comportamento dos mercados, pois "tudo o que envolve Oriente Médio é potencialmente explosivo". "Não será fácil 'enrolar' o mercado desta vez", avaliou.

Petróleo

Em meio ao clima de aparente trégua no mercado financeiro em relação às apostas de eclosão de uma guerra ampla no Oriente Médio, a cotação do barril de petróleo fechou em queda de 4,9% em Nova York, depois que, aos olhos dos bancos, o presidente americano afastou o risco de um aumento das tensões.

Já a Petrobras confirmou, nesta quarta-feira, que, por segurança, suspendeu o trânsito de seus petroleiros pelo Estreito de Ormuz, um ponto de passagem importante, por onde circulam os navios.

Segundo a Petrobras, "a companhia avaliou o referido cenário e, em conjunto com a Marinha do Brasil, decidiu por evitar, no momento, o trânsito pelo Estreito de Ormuz". A estatal disse ainda que avalia rotineiramente alterações nas rotas de suas embarcações com objetivo de evitar trechos que tragam risco à segurança de suas operações.

"Tal mudança não trará qualquer impacto ao abastecimento de combustíveis no Brasil. Os desdobramentos locais seguem sendo monitorados e avaliados", informou.

Em seu discurso, nesta quarta-feira, Trump tentou derrubar um mantra da esquerda mundial de que os EUA só pensam nas reservas de petróleo do Oriente Médio. O presidente americano celebrou seu sucesso econômico, que, segundo ele, tornaram os EUA menos dependentes do petróleo do Oriente Médio, mudando as "prioridades estratégicas" de Washington na região.

"Hoje vou pedir à Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) que se envolva muito mais no processo no Oriente Médio", afirmou.

Trump também pediu para a comunidade internacional seguir seu exemplo e abandonar o acordo nuclear com o Irã, como os EUA já fizeram em maio de 2018. O pacto já está desmoronando: Teerã disse no domingo que se desliga de qualquer limite ao número de centrifugadoras para o enriquecimento de urânio, um de seus principais compromissos decorrentes do acordo.

"Chegou o momento de Reino Unido, Alemanha, França, Rússia e China reconhecerem essa realidade. Devem romper agora com os restos do acordo com o Irã", disse o líder da Casa Branca.

Já o guia supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, chamou os disparos contra as bases usadas pelos americanos no Iraque de "um tapa na cara" dos EUA, considerando, porém, que "ações militares desse tipo não são suficientes para este caso". "É necessário que a presença corrupta dos EUA na região termine".

"Não estamos buscando escalada ou guerra, mas nos defenderemos", disse Javad Zarif, chefe da diplomacia iraniana, explicando que as represálias "proporcionais" da noite "terminaram".

Foguetes

Mesmo com os esforços da diplomacia para evitar uma escalada das agressões entre os dois países, o clima de guerrilha ainda permanece na capital iraquiana. Dois foguetes caíram, nesta quarta-feira à noite, na Zona Verde de Bagdá, onde fica a embaixada americana no Iraque. Foi o terceiro ataque à Zona Verde desde que um ataque dos EUA utilizando um drone resultou na morte do general Qassem Soleimani.

Desde que morreu, Soleimani está sendo chamado de "Che Guevara do Oriente Médio" por muitos setores.

"A imagem que estão fazendo de Soleimani é de um guru de política externa, mártir e estrategista, algo longe do discurso de que era um terrorista e responsável pela morte de pessoas", ressalta Sanam Vakil, pesquisador do centro de estudos Chatham House, em Londres.

Os líderes de Washington e Teerã tentaram, nesta quarta-feira, acalmar o mundo sobre as expectativas de uma guerra ampla no Oriente Médio, após duas bases do Iraque usadas pelos EUA sofrerem ataques por mísseis

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