Vítimas de agressões físicas e psicológicas relatam superação

Lenice Ferreira e Andreza Sormane sequer se conhecem, mas suas histórias de vida se cruzam a partir do momento que passaram a presenciar e sofrer, diariamente, as consequências do machismo

Legenda: Insultos, ofensas e provocações também fazem parte das lembranças de Lenice Ferreira. Hoje, aos 47 anos, a agente de saúde aposentada, não se intimida em partilhar tudo que sofreu em seu antigo relacionamento
Foto: Rodrigo Gadelha

Viviam como se aquilo fosse normal. Até perceberem que não. Apanhar todos os dias sob justificativa que tinham feito algo errado não era certo. Dia após dia, ser questionada sobre quem era o pai da criança, também não. Ver a mãe sendo jogada contra a parede e ameaçada - se denunciasse, as consequências viriam para ela e as filhas -, já era cena do cotidiano. E, mesmo assim, difícil de ser suportada.

As histórias que abrangem violência doméstica não seguem uma regra. Há casos em que basta uma agressão para a vítima se distanciar dos abusos. Outros perpassam gerações, deixando nas vidas de cada parente as marcas indeléveis do sofrimento.

"Eu sabia que, a qualquer hora, ia sobrar para mim". Andreza Sormane Fernandes, 42, cresceu vítima da violência dentro de casa. Ela, a mãe e a irmã sofreram com agressões do pai policial militar. A única sensação quando ele estava em casa, de volta do trabalho, era pânico. A escolha por conviver com um criminoso não foi feita por Andreza. A professora conta que quando criança presenciou diversas cenas brutais entre os pais.

"Meu pai sempre teve casos fora do casamento. Quando minha mãe perguntava por essas mulheres, ele respondia batendo nela e em nós também. Se a gente olhasse a briga deles, também apanhava. Quando tinha oito anos vi ele tentando sufocar minha mãe. Pedi que não fizesse aquilo e foi aí que levei vários chutes. Meu pai sempre chegava bêbado em casa. Depois que cresci, descobri que ele chantageava a minha mãe dizendo que, se fosse denunciado, ele iria abusar sexualmente de todas as filhas", recorda Andreza.

Insultos, ofensas e provocações também fazem parte das lembranças de Lenice Ferreira. Hoje, aos 47 anos, a agente de saúde aposentada, não se intimida em partilhar tudo que sofreu em seu antigo relacionamento.

Além de dois filhos, a relação com o ex-esposo, resultou em relatos que, hoje, são compartilhados com outras mulheres, na tentativa de mostrar que matar aos poucos não depende diretamente de socos, chutes, facadas ou tiros.

"Conheci ele em 1988. Namoramos por dois anos. Nesse tempo, ele tinha crises de ciúmes mas eu achava que era algo normal. Lembro que a primeira agressão foi na minha formatura. Ele não me deixou dançar com ninguém e também não dançou comigo. Casamos em 1990 e na noite do casamento ele me deixou sozinha. Discutiu comigo dizendo que eu estava dando atenção a outros homens. Ele sempre piorava quando bebia", recorda Lenice.

Apoio

Mesmo após décadas, os episódios nas vidas de Lenice e Andreza são lembrados detalhadamente. Andreza conta sobre o dia que a mãe foi ao comandante da Polícia Militar de Iguatu e falou o que vinha sofrendo dentro de casa. A busca por ajuda externa fez com que o comportamento do marido mudasse a curto prazo. Isso durou até a bebedeira seguinte.

"O comandante ameaçou afastá-lo da corporação. Depois disso, um dia meu pai chegou em casa procurando um documento. Minha mãe disse que não sabia onde estava o papel. Ele ficou com raiva e jogou ela com força contra a parede. Foi tão forte que minha mãe foi ao hospital e lá soube que uma parte do fígado dela tinha sido esmagado. Tudo isso ainda dói muito em mim. Ele teve câncer e morreu. Depois foi a vez dela morrer. Tudo isso ainda dói muito em mim. Todos esses episódios estão dentro da minha cabeça. As agressões iam muito além do aspecto físico", destaca Andreza.

A professora acrescenta que após as mortes dos pais foi momento de cuidar de si. Procurou por apoio psicológico especializado a fim de superar uma grave depressão.

Andreza não se sente "curada" e diz ter muitos traumas. Depois de decidir enfrentar as lembranças dolorosas, ela garante que nenhuma mulher deve omitir qualquer agressão, não importando de onde ela vem.

"O silêncio pode ajudar a matar. Carrego comigo as cicatrizes e sei que não devemos nos calar. Na época da minha mãe não tinha a Lei Maria da Penha. Ela aguentou tudo na intenção de preservar a família. Em briga de marido e mulher eu me meto, sim! Eu denuncio e vou fazer o que puder para salvar a vida daquela mulher. Não omito mais a realidade. Tudo que eu passei na vida tem que servir de exemplo para evitar outras histórias assim. As minhas cicatrizes são sinais de luta e de força", reforça Andreza.

Lenice tem o mesmo ponto de vista. Aos 47 anos, a mulher confessa que, por muito tempo, romantizou a relação de brigas constantes com o esposo, mas, depois de inúmeras ofensas e golpes, percebeu que o futuro imediato ao lado dele seria a morte.

"Ele pedia desculpa mas, depois, fazia de novo. Um dia determinou que eu ia passar a noite em pé. Não me deixou dormir. Ficava teimando que nossos filhos eram de outro homem e ficava me esganando mandando eu falar a verdade. Me batia e depois mandava eu me olhar no espelho para ver como tinha ficado. Até que vi que ele não se arrependia e soube que ali era o fim", recorda.

A agente de saúde admite nunca chegou a denunciar o ex-marido. Como muitas mulheres tinha receio. Para Lenice, seus filhos não mereciam ter um "pai bandido".

"Hoje sei que nunca foi uma relação saudável. É preciso, sim, buscar ajudar. Sozinha não dá. Minha família foi quem me fortaleceu. Mas te digo que não foi do dia para a noite. A violência doméstica é algo que esmaga. Tem que ter muita força para sair", sustenta Lenice.

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