Polícia Civil conclui que Aldemir cometeu feminicídio contra Jamile

Advogado foi indiciado por homicídio com dolo eventual, fraude processual e porte ilegal de arma de fogo de uso permitido. Investigadores pediram à Justiça Estadual que o suspeito seja monitorado por tornozeleira eletrônica

Legenda: O advogado Aldemir Pessoa Júnior, ex-namorado de Jamile, negou as acusações quando prestou depoimento
Foto: Foto: Helene Santos

Após quase sete meses de investigação, a Polícia Civil concluiu que o advogado Aldemir Pessoa Junior matou a namorada, a empresária Jamile de Oliveira Correia, com um tiro efetuado dentro do apartamento da vítima, no bairro Meireles, em Fortaleza. No relatório final, do Inquérito Policial, assinado na última segunda-feira (16) e enviado à Justiça Estadual ontem, os delegados Socorro Portela e Felipe Porto pedem o monitoramento eletrônico do indiciado.

Os investigadores do 2º DP (Aldeota) acreditam que o crime foi cometido com dolo eventual. "O homicídio, na forma do dolo eventual, fica caracterizado em decorrência da previsibilidade do fato delituoso, da previsão auferida pelo investigado e, consoante a teoria do consentimento ou do assentimento, da continuação da prática delituosa, com o risco de produzir o resultado", atesta o relatório.

Aldemir Júnior ainda foi indiciado pela Polícia pelos crimes de fraude processual, por orientar o porteiro do condomínio a limpar o sangue do chão e não comunicar o fato, o que se configurou como alteração do local do crime, além de o advogado, provavelmente, limpar a pistola; e por porte ilegal de arma de fogo de uso permitido.

A atitude do advogado depois de deixar a namorada no hospital também intrigou os policiais. De acordo com a investigação, Aldemir não informou que Jamile foi alvejada aos familiares dela; enviou mensagens por redes sociais para amigas da mulher, pelo celular da mesma; pagou o velório da companheira com um cartão dela; e ainda assinou um contrato de aluguel de um imóvel da empresária (já que era procurador legal dela), no valor de R$ 6 mil, dois dias após a morte.

O 2º DP já havia pedido pela prisão temporária do suspeito, mas o juiz negou e aplicou outras medidas cautelares (como não sair de Fortaleza), no dia 18 de setembro do ano passado. Desta vez, os investigadores solicitaram a aplicação de tornozeleira eletrônica para monitorar o advogado.

Segundo o relatório final, Aldemir induziu o filho de Jamile - um adolescente de 14 anos que estava próximo ao disparo - e a empregada doméstica da residência a mentirem. "Está claro o perigo gerado pelo estado de liberdade desvigiada do indiciado, o qual possui forte influência e clara capacidade de persuasão do adolescente (nome preservado) e de outras testemunhas", justifica, sobre o monitoramento eletrônico.

Repercussão

Aurimar Oliveira, irmão de Jamile, comemorou a conclusão do Inquérito Policial, com indiciamento de Aldemir por feminicídio. "Era o que a gente esperava, sempre. Isso deve ser o começo. (Espero) Que ele comece a cumprir a medida punitiva. Foi um trabalho bem feito da Polícia Civil. A gente esperava que começasse com esse indiciamento. Que a Justiça seja feita".

O advogado Flávio Jacinto, que representa a família da empresária morta, disse que "não se tinha dúvida nenhuma" sobre o feminicídio e que a demora na investigação se deu "porque realmente é um crime muito complexo, com muitas perícias, muitas testemunhas ouvidas, muito levantamento de documentos".

Sobre o pedido da Polícia Civil para o indiciado ser monitorado por tornozeleira eletrônica, ele acredita que é uma medida necessária: "Ele se revelou uma pessoa muito perigosa para a sociedade. A tornozeleira, pelo menos, evita que ele fique andando sem nenhum controle".

Aldemir Júnior não atendeu às ligações da reportagem. Já os advogados de defesa do indiciado ficaram de retornar a ligação com um posicionamento, mas não o fizeram até o fechamento desta matéria. Quando foi ouvido em outras ocasiões, Aldemir sempre afirmou ser inocente e defendia com veemência a tese de que a namorada praticou suicídio.

Provas

Jamile de Oliveira Correia foi baleada dentro do próprio apartamento, localizado na Rua Joaquim Nabuco, por volta de 23h30 do dia 29 de agosto de 2019. E morreu no Instituto Doutor José Frota (IJF), na manhã do dia 31 daquele mês. O relatório final, em 143 páginas, reúne provas que apontam a responsabilidade de Aldemir Júnior no caso.

Segundo o documento, as câmeras de segurança do condomínio revelaram que Aldemir desferiu um soco em Jamile dentro de um veículo, quando o casal chegava ao empreendimento, na noite em que a empresária foi baleada.

Na madrugada do dia seguinte, as filmagens mostraram a mulher sendo levada pelo filho e pelo companheiro para o IJF. As imagens foram analisadas pela própria Polícia Civil e pela Perícia Forense do Ceará (Pefoce).

No hospital, o episódio foi reportado pelo namorado da empresária como tentativa de suicídio. Mas, logo, os profissionais de saúde suspeitaram da informação. "Os médicos e as enfermeiras que mantiveram contato com Jamile revelaram detalhes importantes: seu estado grave, o medo dela, a queda que provocou o hematoma no olho e a responsabilidade do tiro. Os profissionais desconfiaram que havia algo errado. O hematoma no olho não parecia consectário de uma queda, e a lesão, pela trajetória do projétil, não tinha aspecto de autoexecução", traz o Relatório da Polícia Civil.

Apenas depois da morte de Jamile, o caso chegou ao 2º DP, que levantou a hipótese de feminicídio. Durante quase sete meses de investigação, a equipe policial ouviu 62 depoimentos, que corroboraram para a tese de homicídio com dolo eventual, segundo a Polícia.

Laudos

Outro fator importante para a investigação foi o trabalho da Pefoce, que entregou pelo menos 17 laudos periciais à Polícia Civil. Entre eles, o exame residuográfico de pesquisa de chumbo, que não encontrou o elemento nas mãos de Jamile; e o exame de perfis genéticos deixados em locais de crimes variados, que não localizou materiais genéticos na arma de fogo, mas encontrou de Aldemir na parte serrilhada do ferrolho e de Jamile, na extremidade do cano.

Na reprodução simulada dos fatos, conforme o relatório final, "os peritos (da Pefoce) revelaram que, para que Jamile conseguisse efetuar o disparo conforme localização exata do orifício de entrada do projétil e o percurso no interior de seu corpo, ela deveria estar com seu polegar direito no gatilho e com seu punho direito inclinado em direção ao seu corpo, formando um ângulo de quase 90°, que dificulta ainda mais seu controle sobre a pistola".

Para a Polícia Civil, este último laudo mostrou que "Aldemir tinha maior controle sobre a arma de fogo". "Pode ter ocorrido o disparo intencional por parte dele ou ter ocorrido disparo acidental, enquanto a Sra. Jamile empunhava a pistola (com a mão direita ou a esquerda), que atingiu a vítima conforme a localização do orifício de entrada e o percurso do projétil no interior do corpo", concluiu.