Laudo pericial considera pouco provável hipótese de suicídio

O Sistema Verdes Mares teve acesso ao laudo da reprodução simulada dos fatos. De acordo com o documento, em todas as situações, o suspeito Aldemir Pessoa Júnior tinha maior controle sobre a arma de fogo

Escrito por Emanoela Campelo de Melo, Emerson Rodrigues e Kilvia Muniz, seguranca@svm.com.br

Segurança
Legenda: Foram simuladas diversas cenas durante a reconstituição

Quem matou a empresária Jamile de Oliveira Correia? A pergunta se arrasta há cinco meses. Família e suspeito contrapõem versões. Defesa e acusação, naturalmente, apresentam explicações que divergem. Em meio a isso, pouco a pouco, são emitidos os laudos que podem ajudar a desvendar o caso. Desta vez, a reportagem do Sistema Verdes Mares teve acesso ao documento sobre a reprodução simulada dos fatos.

O laudo da reconstituição das cenas do que, para a Polícia Civil, foi um crime de feminicídio, vai ao encontro do que a família da empresária vem dizendo desde o ocorrido: Jamile não cometeu suicídio. O advogado Aldemir Pessoa Júnior, namorado da vítima, permanece sendo o único suspeito do crime.

Durante a reprodução foram simuladas três situações de suicídio. Após a análise, segundo a Perícia Forense do Estado do Ceará (Pefoce), foi percebido que "diante das possibilidades formuladas, conforme as condições apresentadas, pode-se deduzir que em todas as situações o Sr. Aldemir tinha maior controle sobre a arma de fogo, podendo ter ocorrido o disparo intencional por parte dele, ou ter ocorrido disparo acidental enquanto a Sra. Jamile empunhava a pistola".

A Perícia Forense ressalta que o laudo cadavérico que indicou a localização do orifício de entrada do projétil e que apresentou lesão no fígado e hemorragia na região abdominal "foi importantíssimo para identificação da direção e ângulo da arma de fogo quando se deu o disparo". O exame no corpo da vítima corroborou a ideia passada por um dos médicos que a socorreu: o tiro se deu na direção de cima para baixo.

De acordo com o laudo, para a reconstituição foram obtidas informações limitadas quanto às condições de como Jamile e Aldemir seguravam a pistola. A limitação se deu porque somente o filho adolescente da vítima participou da reconstituição, e ele tinha uma visão parcial da situação, por ter chegado ao closet da mãe já quando o casal, supostamente, protagonizava uma discussão.

Em um dos trechos do documento fica destacado que "sabendo-se da existência de mais de uma possibilidade para empunhar uma arma de fogo tipo pistola e realizar seu disparo, foram necessárias diferentes simulações para analisar as situações concebíveis". O exame considerou a mão predominante de Jamile e Aldemir, porque, de acordo com a Pefoce, o fato de ambos serem destros influenciou na forma de segurar a arma.

Resultado

Legenda: A empresária Jamile Correia morreu por volta de 7h do dia 31 de agosto, no IJF
Foto: Foto: Reprodução

Foram quase três meses desde a data da reconstituição até a emissão do laudo. A metodologia aplicada nesta diligência foi pensada com a participação do advogado suspeito, incluindo refazer cenas ocorridas dentro do carro, momento em que Jamile teria sido lesionada por ele, até o retorno de Aldemir e o filho de Jamile ao apartamento após deixar a empresária baleada no Instituto Doutor José Frota (IJF).

No dia da reprodução simulada, eram aguardadas as presenças do filho de Jamile e Aldemir. Apesar de intimado a participar da diligência, Aldemir não compareceu ao local. Como conclusão, a Perícia afirmou não haver elementos suficientes para determinar se o disparo da pistola ocorreu de forma intencional, por parte de Aldemir ou Jamile, ou acidental, quando na disputa pelo controle da arma de fogo.

Flávio Jacinto, advogado da família de Jamile, considera que o laudo da reconstituição era a última prova importante que faltava. Segundo Jacinto, as provas que o documento traz juntamente às demais afastam todas as possibilidades de ter havido suicídio, e exibem que Aldemir praticou um crime cruel contra a sua namorada.

"Os esclarecimentos do laudo são absolutos. O acusado, no momento que ele diz que houve suicídio, ele pega algumas teses. Vinha sustentando que o garoto que estava na cena e tentava tirar a arma da mãe. Essa possibilidade fica afastada totalmente pela reprodução simulada, quando os peritos constataram com absoluta segurança que o garoto estava com a visão encoberta pelo próprio acusado", disse Jacinto.

Ainda conforme o advogado de acusação, outro esclarecimento importante e que a família não tinha dúvida é quem estava com a arma. "O laudo deixa claro que o domínio absoluto da arma era do acusado. Como uma pessoa pode praticar suicídio sem sequer estar de posse da arma? O mais desgastante para a família e para a sociedade como um todo é que ele vem sustentando a maluca tese de suicídio. Se foi acidental ou proposital, o tiro partiu no momento que ele usou a arma, que ele atirou". Aurimar Oliveira, irmão da empresária, pontua que após cinco meses e sem que o suspeito estivesse preso por nenhum momento, permanece a sensação de impunidade. "Ainda assim a gente espera que a Justiça tarde, mas não falhe". A previsão é que o inquérito seja concluído nos próximos dias.

Versões

Legenda: Jamile de Oliveira e Aldemir Pessoa Júnior namoravam há cerca de cinco meses. Os dois estavam morando juntos

Em outubro do ano passado, a reportagem conversou com Aldemir quando ele entrava no 2º Distrito Policial, unidade responsável por investigar o caso. Na ocasião, o suspeito disse que o disparo fatal contra a companheira só aconteceu quando o filho dela interferiu. Na versão de Aldemir, ele e o menino protagonizaram uma luta corporal com Jamile, na tentativa de que ela não tirasse a própria vida. Ontem, procurado novamente pela reportagem, Aldemir disse que só se manifestaria em momento oportuno.

Ainda em 2019, o adolescente filho da empresária também concedeu entrevista ao Sistema Verdes Mares. Ele negou que tenha participado da luta corporal e afirmou que em nenhum momento chegou a pegar na arma. No laudo com análise dos DNAs encontrados na arma de fogo que era de Aldemir ficou constatado que o adolescente não pegou no objeto.

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