Família critica ação da PM que terminou com homem morto por sniper em Aquiraz

Segundo familiares, ele necessitava de ajuda psicológica; Polícia Militar diz que procedimento é previsto em lei

Legenda: Após cinco horas tentando negociação, um agente atingiu o homem com um tiro de sniper. Ele morreu no local do crime
Foto: Marcella de Lima

Familiares do homem de 38 anos que foi morto por um sniper do Batalhão de Operações Especiais (Bope) questionam a ação da Polícia Militar. O caso foi registrado, na tarde desta segunda-feira (16), na localidade de Tapera, em Aquiraz, na Região Metropolitana de Fortaleza. A mulher estava sentada em uma cacimba de uma residência e o ex-marido estava atrás com uma faca no pescoço dela.

Por meio de nota, a Polícia Militar do Ceará disse que a ação policial foi completamente embasada na Doutrina Nacional de Gerenciamento de Crise, e de acordo com a Legislação Estadual, que tem um decreto que regula o Gerenciamento de Crise. Segundo o órgão, em nenhum momento foi usada violência com o causador da crise, tendo em vista o fato de a equipe de negociação  do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da PMCE possuir especializações na área. 

A polícia reforça que, o Gerente da Crise fez um treinamento específico nos Estados Unidos da América e o Oficial chefe da Equipe de Negociação retornou recentemente de São Paulo, onde fez um treinamento sobre "Negociação" na PMESP, que é referência nacional na área. Sobre o cuidado de não ter nenhum familiar próximo a negociação, a polícia afirmou que os "familiares estão envolvidos emocionalmente na ocorrência, portanto, segundo a Doutrina de Gerenciamento de Crise, não devem ficar inseridos dentro do Perímetro Interno da Ocorrência, devendo permanecer, apenas, os policiais militares".

A polícia lembrou ainda que existem relatos, de acordo com a doutrina, de várias outras situações em que um familiar provocou uma situação de risco, resultando em perda de vítimas, a exemplo do caso "Eloá", em 2008.

Em relação à ocorrência do Bope, o sniper foi acionado e autorizado a agir neutralizando o agressor no exato momento em que este estava determinado a matar a vítima.

Pai de três filhos

A irmã da vítima, Carmosita de Paula, afirmou para o Sistema Verdes Mares que a família está muito decepcionada com a ação dos agentes. Ela disse também que o irmão necessitava de um apoio psicológico e que era trabalhador e cuidava muito bem dos três filhos. 

“Nós estamos muito decepcionados, principalmente com a polícia, porque não necessitava dele (policial) ter feito o que fez. Deles ter matado ele, porque os policiais atiraram para matar e não precisava. Meu irmão estava doente, estava precisando de ajuda psicológica e não estava precisando de polícia para matar ele. Ele não era bandido, era pai de três filhos, cuidava da minha mãe, que tem 80 anos e cuidava muito bem dos filhos dele. Trabalhava, muito trabalhador meu irmão, não necessitava disso”, disse emocionada. 

O cunhado da vítima, Eudismar Cavalcante, também afirmou que a polícia poderia ter trabalhado com mais cuidado. Ela crê que o uso de uma arma elétrica poderia ter resolvido o problema, de acordo com Eudismar.  

“Eles deveriam agir com mais cautela, pedir um pouco de ajuda até mesmo dos familiares, tentar amenizar a situação. Se eles queriam agir de alguma forma, como você vê a distância aqui do terreno, tem vários locais para os policiais se esconderem, poderiam até disparar uma arma elétrica. Como era uma faca pequena, eu creio que com um tiro com uma arma elétrica ele teria soltado a faca, teria sobrevivido, mas aconteceu essa fatalidade”.  

"Ele queria os amigos presentes, mas a polícia não deixou"

Uma testemunha que presenciou a ação policial disse em entrevista para a reportagem do Sistema Verdes Mares que a primeira equipe da polícia tirou todos do local. A testemunha falou também que em um certo momento a vítima pediu para ver e falar com familiares, porém os policiais não permitiram.  

“Quando eu cheguei era por volta de 16h40, a primeira viatura chegou, expulsou logo todo mundo, só que eu dei um jeito de arrodear para poder ficar mais próximo. Ele queria os amigos presentes, mas a polícia não deixou. Teve amigos policiais que pediram para conversar com ele, mas não deram ordem. Teve familiares que quiseram se aproximar, não deixaram. O sobrinho dele também quis se aproximar, mas não deixaram para conversar. Como a gente conhece ele há muito tempo, há muitos anos, se tivesse deixado a família se aproximar, não teria acontecido isso. Foi uma fatalidade foi, mas teve erro da polícia. Pelo que presenciei não foram cinco horas de negociação, foram duas horas”.

Negociação

Segundo a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), policiais tentaram negociação com o homem durante cinco horas, mas ele não soltou a ex-mulher. Ao perceber que ele estava determinado a golpear a ex-companheira, um sniper do Bope atingiu o suspeito com um disparo de arma de fogo e o homem morreu no local. 

Ainda de acordo com a SSPDS, a mulher foi resgatada e socorrida para uma unidade de saúde. Após ser atendida, ela e os policiais que participaram da ação foram até a Delegacia Metropolitana de Eusébio, onde o caso foi registrado.

Você tem interesse em receber mais conteúdo de segurança?