Corpo de jovem torturado e morto segue desaparecido

Policiais militares são suspeitos de serem os autores do crime. Quatro já foram detidos pela Controladoria

Passaram-se dois meses e seis dias desde o desaparecimento do frentista João Paulo de Sousa Rodrigues, de 20 anos de idade. Mais de sessenta dias depois do sumiço, o homem foi declarado morto após sofrer sessões de tortura, mas o corpo ainda não foi localizado. A conclusão do que teria acontecido com o frentista foi revelada após uma investigação da Controladoria de Disciplina dos Órgãos de Segurança Pública e Sistema Penitenciário (CGD), que prendeu quatro policiais militares suspeitos de envolvimento no crime.

O órgão que investiga o caso realizou um levantamento embasado em dados, depoimentos de testemunhas, dos próprios suspeitos e análise das imagens do circuito interno de monitoramento de um estabelecimento que flagrou o momento em que João Paulo era abordado pelos policiais e levado para um outro veículo. A ação aconteceu no dia 30 de setembro, na Avenida Cônego de Castro, no bairro Parque Santa Rosa.

Em dois meses de investigação, a CGD reuniu provas e elementos que confirmavam o envolvimento dos policiais suspeitos de participação no desaparecimento do frentista. Três deles são lotados na Força Tática de Apoio (FTA) da 1º Cia do 14º BPM (Maracanaú) e um é sargento da Reserva da PM.

Inquérito

Na última segunda-feira (30), o inquérito foi encaminhado para a 5ª Vara Criminal pela Delegacia de Assuntos Internos (DAI) da CGD, que indiciou os quatro policiais por homicídio.

O órgão concluiu que a vítima foi morta após sofrer sessões de tortura. Porém, os detalhes e a motivação do crime ainda não foram revelados. O caso continua sendo investigado, restando outras pessoas serem ouvidas. Há a possibilidade de que mais prisões ocorram.

A delegada titular da DAI, Adriana Câmara, que preside as investigações, foi procurada na última sexta-feira (4), mas a reportagem foi informada que ela estava em audiência e não poderia atender às ligações.

Angústia e sofrimento

Apesar da prisão de alguns envolvidos na morte de João Paulo, os familiares da vítima ainda esperam por esclarecimentos sobre o caso e cobram o direito de prestarem a última homenagem: velar o corpo do ente querido. Porém, até hoje os restos mortais do frentista não foram encontrados.

A família de João Paulo conta que teve poucas informações por parte dos responsáveis pela investigação. Eles foram avisados que o caso corre sob segredo de Justiça e que não podem dar muitas informações.

A irmã de João Paulo, Jocilene de Sousa Rodrigues, de 18 anos de idade, que está grávida e na etapa final de sua gestação, falou que todos ainda sofrem muito. A jovem contou que os parentes souberam das prisões e dos indiciamentos dos policiais através da imprensa e que a família conta com o apoio da mídia para que este caso não fique impune e os culpados paguem pelo crime que cometeram.

Ela disse ainda que a notícia do indiciamento dos policiais deu um alento para a mãe, pai e os irmãos que desejam Justiça, mas que toda essa situação ainda está sendo muito sofrida para a família. "Foi muito doloroso saber que ele foi torturado até a morte e não saber onde está o corpo, não poder velar e entender o motivo de tanta crueldade com ele", lamenta.

Há cerca de um mês, durante as apurações, os investigadores do caso realizaram buscas em um terreno situado no município de Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), após receberem uma denúncia anônima. A informação dava conta de que o corpo da vítima poderia estar escondido lá, mas no local indicado pelo denunciante, nada foi encontrado.

Buscas

O Diário do Nordeste acompanha o caso e o apelo da família desde quando iniciaram uma campanha de buscas após o misterioso sumiço da vítima, que até então, não se sabia que estava morta. Cartazes com a foto dele foram espalhados no bairro onde ele morava e seus amigos realizaram correntes nas redes sociais na esperança de encontrá-lo. A família não imaginava que João Paulo havia sido levado por policias e depois disso nunca mais seria visto com vida.

Após ter acesso ao vídeo que mostra o exato momento em que o frentista é abordado pelos militares que estavam em uma viatura e, após uma breve conversa, conduzido a um veículo descaracterizado, um Fiat Palio de cor preta, a CGD passou a investigar o caso e, com o aparato da gravação, identificou os PMs envolvidos.

As imagens foram analisadas e pausadas segundo a segundo e, com isso, foi percebido que a vítima havia sido algemada antes de entrar no Fiat Pálio, fato que contraria a versão dos policiais. Eles disseram que, após a abordagem, de rotina, João Paulo teria sido liberado e, em seguida, de livre e espontânea vontade, teria entrado no carro de um amigo e desaparecido.

Os três policiais do FTA foram presos no dia 8 de outubro. Cerca de um mês depois, no dia 10 de novembro, o quarto suspeito foi autuado, o sargento da reserva da PM. O policial foi identificado nas imagens como sendo um dos homens que ocupa o veículo Fiat Palio.

Além da prisão do sargento, a Polícia localizou o automóvel utilizado para levar o frentista. O veículo foi apreendido com sinais de adulteração. O estofado e a cor do carro tinham sido modificados. A viatura utilizada pelos policiais no dia da abordagem também foi apreendida, além de dois automóveis, sendo uma caminhonete Mitsubishi Outlander e uma Mitsubishi L200 Sport. Na residência de um dos policiais presos foram encontradas diversas caixas de som automotivo e uma moto que estava desmontada.

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