Cinco meses depois, Estado faz contato com familiares de vítimas

Pela primeira vez desde que os seis reféns foram mortos pela PM, representantes do Governo do Estado e do Ministério Público do Estado visitam as famílias para "prestar apoio" e "saber o que estão precisando"

Escrito por Melquiades Júnior , melquiades.junior@diariodonordeste.com.br

Segurança

Além da dor das perdas, o silêncio é perturbador para os familiares dos seis reféns mortos. Chegavam de São Paulo para o Natal e foram executados. Ninguém disse nada, além do que sabem pelos jornais. Ninguém vai atrás deles, "nem para um pedido sincero de desculpas". Por isso, foi um misto de angústia e ansiedade uma ligação de alguém dizendo que "amanhã está indo um pessoal aí do Governo do Ceará pra conversar com vocês", em Serra Talhada, Estado de Pernambuco.

Os irmãos de João Batista, empresário assassinado com o filho e outros três parentes, não dormiram tranquilos a noite de quarta para quinta, na expectativa sobre quem eram essas pessoas e o que queriam dizer. A sensação de alívio veio quando "Fernando", um conhecido da cidade, esclareceu ter recebido a tal ligação de um primo tenente no Ceará, querendo saber o telefone da família "do caso de Milagres".

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Amenizada a dúvida, a família ficou reunida, na manhã de 9 de maio, quinta-feira, na casa de dona Toinha, mãe de João Batista. Dois carros encostam próximo à casa cinza de porta branca, sem muro e de calçada larga, em que, à noite, costumavam ficar em cadeiras de balanço João, a esposa Cláudia e os filhos, netos de dona Toinha. Moravam vizinho à matriarca.

Descem três mulheres e dois homens. Outros dois ficam nos volantes dos carros.

- Demorou, hein?

Regina Magalhães, irmã de João, pergunta como quem desabafa, desentala. A comitiva é recebida e entra na casa, vão todos para a sala.

Daniel, o irmão mais velho, ouve atento cada fala dos visitantes: uma promotora de Justiça, uma assistente social, uma psicóloga e um coronel da PM.

Em cerca de uma hora, explicaram que gostariam de ajudar, saber do que a família estava precisando. Confessaram um certo receio, de não saberem como seriam recebidos, mas que já havia um otimismo. Qualquer tensão vai se quebrando com a fala de coração aberto de dona Toinha.

"O povo tem mania de fazer vingança com as próprias mãos. Mas nós queremos a justiça de Deus. A gente não quer, jamais, vingança pra nossa família. A gente quer viver o resto da vida com essa dor que não vai sair, mas nunca pensar que tem um inimigo ali. Meus filhos foram criados em tempo tranquilo. Nunca brincavam com arma de brinquedo. Sempre respeitaram o outro. Eu boto o nome do meu filho e meu neto na intenção da missa. Mas se eu tivesse o nome dos assaltantes que também morreram eu colocava também. São todos filhos de Deus".

A essa altura, a família já sabia que foram todos mortos por policiais militares.

Assistência psicológica

Cláudia, a viúva, tinha uma consulta médica e só consegue chegar no meio da conversa. A psicóloga, Monique Brito, fala em dar assistência a ela e João Victor, que perdeu, além do pai, o irmão mais velho. "Ajuda é bem vinda, mas eu precisei tanto nesses meses, como vai ser?". Ficou a sugestão de sessão terapêutica por videoconferência.

A promotora de Justiça, Joseana França, cita o núcleo do Ministério Público de atendimento a vítimas de violência. Cláudia aproveita para lembrar que não receberam ainda os pertences (celulares, relógio e veículo) apreendidos.

"Que a vinda de vocês não seja em vão, e tomem nossa dor como de vocês", pontua Daniel Magalhães, depois de ter ouvido todos e perguntado, "afinal, o que vocês querem?".

O coronel Andrade Mendonça se pronunciou por último: "Quero falar em nome do governador (Camilo Santana). Foi dele a iniciativa de nos mandar. 'Vão lá'. Eu estava no dia, ele tomou a notícia no meio de um evento, então as informações foram muito desencontradas. Então eu tinha que fazer esse registro por dever de justiça".

Horas após a ocorrência de Milagres, Camilo comemorou nas redes sociais que a Polícia frustrou ataques a dois bancos. Indagado depois em coletiva, afirmou que "é estranho um refém de madrugada no banco. Vamos aguardar essa investigação". No mesmo dia, pediu desculpas pela declaração, mas nas redes sociais, nunca diretamente aos que se sentiram ofendidos. Nunca até aquela manhã de quinta.

Encerrada a visita, a comitiva sai para almoçar e seguir para Brejo Santo. Encontro marcado com Fernandes Laurentino e Maria Lurilda, sobreviventes e pais de Edineide, morta pela PM no carro da família tomado pelos assaltantes. A reunião, tranquila, acontece num sítio na zona rural.

Hoje, completam-se duas semanas desde a visita de representantes do Governo do Estado e do Ministério Público e as famílias aguardam, ainda, o que de fato irá acontecer.