Caso de dançarina cearense morta em intervenção policial na Bahia permanece sem solução

A dançarina Gabriela Amorim morreu após ação da Polícia ocorrida em Irecê (BA) em 2019. Eliedelson Possidônio, um dos sobreviventes, cobra Justiça

Dançarina Gabriela Amorim
Legenda: Dançarina deixou um filho de seis anos à época da morte.
Foto: arquivo pessoal

O inquérito que investiga as circunstâncias de uma intervenção policial que matou a dançarina Gabriela Amorim, 25 anos, e deixou integrantes da banda de forró Sala de Reboco feridos ainda segue sem conclusão mais de um ano e sete meses após o crime. A ação ocorreu no município de Irecê, na Bahia, na madrugada do dia 5 de julho de 2019.

Na ocasião, o sanfoneiro da banda, Eliedelson Possidônio, sobreviveu, mas acabou baleado na perna. A saudade pela lembrança da amiga que morreu, virou revolta e cobrança por ações da Justiça. "Os policiais tão praticamente impunes, recebendo seus salários. Minha amiga perdeu a vida; eu já perdi dois anos de trabalho", continua, "pra tudo eu preciso de uma muleta, de uma cadeira de rodas. Aqui vai perdurar mais três ou quatro anos com esse fixador na perna".

Eliedelson teve que passar por cirurgias e necessitou da implantação de um fixador para alongamento de um osso. O equipamento, segundo ele, deve ser utilizado entre quatro e cinco anos.

"Não consigo dar um passo se não for com a muleta. Eu, como músico, teria de levar um ajudante para levar o instrumento. Como é que você consegue pagar um ajudante com um salário de músico?", questiona.

O músico acredita que a demora da investigação ocorre por proteção aos policiais. "A gente já entrou com recurso na Corregedoria para chamar a atenção", afirma, alegando que, normalmente, "se termina com 30 dias". "Por mais que o nosso teve reconstituição, as imagens já mostravam quem eram os culpados pelo acontecido".

Como foi a ação

De acordo com Eliedelson, os integrantes da banda iam, em carro, de Lapão (BA) para Irecê quando avistaram outro veículo usando luz alta, sem sirene ou intermitentes ligados, na direção do grupo. "Agiam como se fossem assaltar a gente, foi quando a gente começou a fugir e eles começaram a correr atrás da gente".

Ao entrar na cidade, já distantes do carro que os seguia, os membros do grupo musical passaram por uma barreira policial. "Quando a gente tava se aproximando dessa barreira que eles fizeram, a gente pensou 'já estão bem atrás daqueles assaltantes que vinham atrás da gente', até porque, quando a gente começou a passar, eles não falaram nada pra gente parar", afirmou, pontuando que os PMs "não averbaram" ordem de parada.

Algum tempo depois, segundo o músico, a viatura se aproximou, e os agentes começaram a atirar no carro com o grupo, cujos vidros estavam baixos. "Uma das primeiras pessoas a sentir os tiros fui eu", destacou, acrescentando que, pouco tempo depois, ouviu que a dançarina já reclamava de dor no estômago. "Ela já tinha sido baleada, o tiro dela atravessou a barriga".

O grupo, então, parou em posto de gasolina, seguido pela Polícia. Lá, os integrantes da banda alegaram aos PMs que não eram bandidos. Segundo Possidônio, a composição deu "meia-volta" e saiu. Pouco tempo depois, outros agentes chegaram dizendo que tinham pedido socorro.

Ele finaliza afirmando que, nesse momento, a dançarina já estava "quase desfalecendo", e ele, sem movimento da perna, tendo sido encaminhado à sala de cirurgia depois.

A cantora Joelma Rios, em entrevista ao Diário do Nordeste ainda no dia da ocorrência, relatou que foram efetuados 38 disparos. Mesmo tendo usado uma bolsa para se proteger, a forrozeira chegou a ser baleada no glúteo esquerdo.

Versão da Polícia

Em nota, a Polícia Militar da Bahia (PMBA) confirmou, à época, que os tiros que mataram a dançarina e feriram os membros da banda partiram de policiais. A Polícia afirmou que "o condutor não respeitou o alerta de parada" e estava trafegando na contramão.

“Uma guarnição da unidade flagrou um veículo modelo Hilux SW4, de cor preta, trafegando na contramão, no centro do município de Irecê, e iniciou o acompanhamento ao perceber que o motorista permanecia com uma direção perigosa. Dessa forma, foi pedido apoio ao 7º Batalhão e formado o primeiro bloqueio, na altura da Rua 1º de Janeiro. O condutor não respeitou o alerta de parada e um novo bloqueio foi estabelecido por equipes do 7º Batalhão, desta vez na Avenida Santos Lopes”, seguiu a nota.

A Polícia acrescentou ainda que "após terem furado dois pontos ostensivos de bloqueio, houve disparo de arma de fogo e os PMs abordaram os ocupantes”. Os advogados da banda negam que o carro tenha furado bloqueio.

Sobre a demora para resolução do caso, que já está perto de completar dois anos, o Diário do Nordeste solicitou informações à Secretaria da Segurança Pública da Bahia sobre o andamento do caso. A pasta informou que a solicitação seria encaminhada para a Corregedoria da PM, mas até a publicação desta matéria a resposta não havia sido enviada.

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