Assalto termina com 3 mortos

Legenda:
Foto: Daniel Roman
Dois PMs que estavam transportando malotes foram fuzilados na porta do BB. Uma cliente também foi morta

Três mortos, dois feridos e o roubo de dois malotes com cerca de R$ 80 mil. Este foi o saldo trágico de um tiroteio entre assaltantes e policiais militares de folga na porta de um banco. O fato ocorreu às 14h20 de ontem na calçada da agência do Banco do Brasil da Avenida Osório de Paiva, em Parangaba (Zona Sul da Capital). Uma quadrilha formada por cerca de seis homens, utilizando pistolas, duas motos e um carro, atacou dois PMs à paisana que chegavam ao banco para entregar os malotes com dinheiro em espécie e cheques da empresa particular AGF.

Os dois PMs, cabos Francisco de Assis do Nascimento e Francisco Honorato de Castro, ambos de 37 anos e lotados na Companhia de Polícia de Guarda (CPG), foram surpreendidos pelos assaltantes que já estavam ali a esperá-los. Quando os bandidos atacaram, o cabo Nascimento sequer conseguiu reagir. Recebeu um tiro na nuca e tombou na porta do banco. Na cintura estava sua arma particular: um revólver calibre 38 com seis balas intactas. Não teve tempo de sacá-la. O outro militar, cabo Honorato, ainda conseguiu sacar uma pistola de calibre 380 ACP, mas também foi baleado - no tórax e nas costas - e morreu no ‘Frotinha’ de Parangaba.

Inocente

A terceira vítima foi uma transeunte: a dona-de-casa Marinete Marques de Mesquita, 59, que saía do BB no exato momento em que ocorria o tiroteio do lado de fora da agência. Junto com o cabo Honorato, ela foi levada para o hospital. Os dois, segundo o médico chefe da equipe de plantão, Bruno Mourão, ainda passaram pelo procedimento de ressuscitação, mas não resistiram. Já o comerciante J.I.S, 37 (identidade preservada) foi atingido com um tiro na perna esquerda. Um dos bandidos também teria sido baleado, mas conseguiu fugir.

REALIDADE
Cabo fazia ´bico´ Francisco Honorato

O cabo PM Francisco Honorato de Castro fazia ´bico´ como segurança para complementar sua renda. Como a maioria dos policiais militares cearenses, ele aproveitava seus dias de folga para realizar um serviço extra. Somente assim conseguia pagar as contas e dar uma vida digna aos seus familiares.

A história de Honorato é exemplo típico do que acontece com, praticamente, todos os 13.214 homens da Polícia Militar do Ceará. Recebendo salário baixo, a tropa - principalmente soldados, cabos e sargentos - deixa de descansar e sai em busca de ´bico´, seja atuando como segurança particular, dirigindo táxis e topiques, vendendo lanches ou exercendo outras atividades paralelas.

Este ano já foram assassinados 10 policiais militares cearenses. A maioria absoluta tombou morta quando estava de folga e reagiu contra assaltantes.

No ano passado, foram registradas 15 mortes de PMs no Ceará, contra 14 em 2005. Quando um PM morre em sua folga, a família não tem direito a receber nenhum tipo de ajuda financeira do Estado.

TRAMADO
Para a Polícia, o assalto contra os militares foi uma ´parada dada´

Para a Polícia, não restam dúvidas de que o assalto contra os dois policiais militares foi tramado por alguém que tinha a informação da hora em que eles chegariam ao banco com os malotes, o que na linguagem policial é conhecido como ‘parada dada’. Os bandidos chegaram ao BB cerca de 40 minutos antes e ficaram à espreita. Um deles até conversou rapidamente com um ‘flanelinha’ que passa o dia em frente à agência bancária.

A delegada Ana Lúcia Almeida, titular do 5º DP (Parangaba) e uma das primeiras autoridades policiais a chegar ao local do crime, arrolou várias testemunhas e, em seguida, encaminhou o caso à Delegacia de Roubos e Furtos (DRF).

Sabiam

Populares que estavam na calçada agência ou nas proximidades foram unânimes em afirmar que os assaltantes foram logo disparando suas armas quando encontraram os policiais. Sabiam quem eram e o que transportavam.

As investigações sobre o caso entraram madrugada adentro na sede da Delegacia de Roubos e Furtos, onde estavam os delegados Franco Júnior e Alízio Freitas (ambos da DRF).

DILIGÊNCIAS
Suspeitos armados são detidos pela PM

Quatro homens, que trafegavam em um Santana cinza, com placas da cidade de Pacajus (a 49 km de Fortaleza), foram detidos pela Polícia Militar como suspeitos de participação no assalto contra os PMs. Segundo o supervisor do Policiamento da Capital, major PM Ricardo Moura, os quatro suspeitos foram cercados no cruzamento das avenidas Perimetral e Expedicionários, na entrada do Conjunto Prefeito José Walter (Zona Sul). Um deles portava um revólver calibre 38.

Do local da prisão, os quatro foram encaminhados ao 8º DP (José Walter) e, em seguida, transferidos para a Delegacia de Roubos e Furtos (DRF), onde passaram a ser investigados pelos delegados. Todos negaram participação no crime, apesar de um deles ter sido reconhecido.

Os quatro acusados (o Diário do Nordeste preserva a identidade deles por serem somente suspeitos) disseram que procediam da cidade de Horizonte, onde moram. O dono do carro contou que faz o transporte de passageiros e que foi contratado por R$ 10,00 para trazer os três homens até a Capital. “Um deles pediu para ser deixado no Passaré. Quando estávamos seguindo para lá houve a abordagem da Polícia”, disse A., que estava armado com um revólver calibre 38. “Comprei esta arma para me defender, pois já fui assaltado várias vezes”, contou o suspeito na DRF.

Moto localizada

À frente das diligências, o chefe do Comando do Policiamento da Capital (CPC), coronel Carlos Alberto Serra, informou que foi montado um cerco no local do assalto. Testemunhas informaram ao oficial que os assaltantes fugiram do local em duas motos (uma de cor vermelha e outra preta) e num carro cinza.

Durante as diligências, a Polícia encontrou uma das motos usadas pelos ladrões. Uma Titan vermelha, de placa HWJ-1517 (CE) foi deixada pelos assaltantes na Rua Osvaldo Aranha, a poucos quarteirões da agência do BB.

No local do tiroteio foram recolhidas pelos peritos do Instituto de Criminalística (IC) cápsulas deflagradas de calibre 380 e 0.40., esta última seria de balas que podem ter sido disparadas pelo cabo Francisco Honorato. A Polícia não encontrou a arma do cabo, daí suspeitar que ela tenha sido levada pelos assaltantes.

O superintendente da Polícia Civil, delegado Luiz Carlos Dantas, compareceu, no começo da noite passada, à DRF, para acompanhar as investigações em torno do fato. O depoimento dos quatro suspeitos detidos aconteceu durante toda a noite e eles deverão ser submetidos a exame residuográfico para saber se atiraram.