Procriação em cativeiro pode salvar espécie ameaçada de extinção

Afetado pela degradação ambiental, o caranguejo batizado de "Guajá do Araripe" está sendo reproduzido em laboratório para ser reinserido na natureza. Essa estratégia contribui para a manutenção da espécime

Legenda:  Nesta semana, quatro caranguejos foram inseridos na natureza, em Barbalha, na região do Cariri
Foto: FOTO: ANTONIO RODRIGUES

A degradação ambiental traz prejuízos incalculáveis. Alguns danos podem ser irreversíveis, como quando é atestado a extinção de alguma espécie. Na região do Cariri, o Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio) realizou estudo nos territórios dos municípios que compõe a Área de Proteção Ambiental (APA) da Chapada do Araripe - que inclui Ceará, Pernambuco e Piauí - e verificou que a perda de área florestal é de 20 mil hectares por ano. "Nestas áreas, a recarga de água diminui e vai obrigatoriamente significar redução da vazão das nascentes. É reflexo para a fauna, flora e para nós", pontua o analista ambiental Paulo Maier Souza.

Um dos reflexos a que Paulo se refere é a ameaça a diversas espécies. Uma delas é o caranguejo batizado de "Guajá do Araripe", cujo nome científico é Kingsleya attenboroughi. Ele foi catalogado em abril de 2016, mas, devido a redução do seu habitat natural, a espécie está ameaçada. Assim como o soldadinho-do-araripe, o espécime também necessita de território úmido. Na ausência cada vez mais acelerada destes locais, ambos correm risco crítico de extinção.

Esperança

O que diferencia o caranguejo do já famoso pássaro nativo é a possibilidade de reprodução em cativeiro. Em 2016, quando foi descoberto, estudiosos colocaram alguns espécimes em cativeiro para estudar seu comportamento e, principalmente, induzir sua reprodução. Os resultados têm sido satisfatórios. Há um ano, quatro deles foram reintegrados na Reserva Particular de Patrimônio Natural (RPPN) da ONG Aquasis, em Crato.

Apesar de nunca ter sido encontrados neste município, o local possui características necessárias para sua sobrevivência. "Tem boa chance de se fixar e permanecer", observou o biólogo Allyson Pinheiro. Nesta semana, foi a vez de outros quatro exemplares, uma fêmea e três machos, de diferentes idades, serem reintroduzidos ao mesmo riacho onde foram localizadas, no distrito de Arajara, na cidade de Barbalha. Desta vez, os pesquisadores escolheram depositar os crustáceos nas proximidades da nascente, perto da Gruta do Farias, onde acreditam que o Guajá já habitou.

Diferentemente do soldadinho-do-araripe, que não pode ser cultivado, o caranguejo conseguiu ser mantido em cativeiro por mais de um ano. A ideia é que sua reprodução continue sendo feita em laboratório para depois ser trazida para os ambientes protegidos.

Preservação

O biólogo da ONG Aquasis, Weber Girão, que há 10 anos pesquisa o soldadinho-do-araripe, acredita que um trabalho de cooperação pode ajudar a conservação tanto da ave como do caranguejo. "Os dois precisam da umidade, seja na atmosfera ou nos riachos. Essa mata verde no coração do Semiárido brasileiro pode ser comparada a um oásis no meio do deserto. Neste 'oásis' está a biodiversidade especializada deles. Os dois só existem aqui. A conservação de um beneficia o outro".

O analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio), Paulo Maier Souza, conta que há outras 26 espécies, incluindo plantas e animais, na APA da Chapada do Araripe que correm risco de extinção, algumas, exclusivas da região. A última descoberta, descrita em setembro de 2018, foi uma nova espécie de sapo, encontrada no Crato, que recebeu o nome científico de Proceratophrys ararype.

A publicação foi feita por pesquisadores da Universidade Federal do Pernambuco (UFPE). O anfíbio possui de três a cinco centímetros de comprimento e apresenta características de sapos amazônicos. Porém, seu risco de extinção só poderá ser formalmente medido após a publicação de uma portaria do Ministério do Meio Ambiente.

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