Número de cearenses no Cadastro de Produtores Orgânicos mais que triplicou nos últimos 7 anos

O Estado já registrou um número três vezes maior do que o total de produtores cadastrados em 2013.

Legenda: A região Centro-Sul apresenta a maior produção de mel do Estado.
Foto: Foto: Divulgação

Nos últimos sete anos a produção orgânica no Ceará vem crescendo e segue uma tendência nacional de ampliação no número de produtores inscritos no Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos, principal plataforma de registro da produção orgânica. Até setembro de 2019, o Estado registrou um número três vezes maior do que o total de produtores cadastrados em 2013, quando foram contabilizados 200 produtores

Segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), o Ceará possui, hoje, 616 produtores orgânicos registrados. Além desses, a estimativa é que existam mais de 370 em todo o Estado, espalhados principalmente no Sertão Central, na região da Paraipaba, Paracuru e Região do Cariri. Hoje, as principais produções agrícolas se concentram na Serra da Ibiapaba (frutas e hortaliças), no Maciço de Baturité (algodão e mel) e no Cariri (mel).
 
Qualidade de vida
 
Em 2012, havia no Brasil quase 5,9 mil produtores registrados no Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos. Até setembro de 2019, esse número saltou para 19.978, crescimento de mais de 200%. Apesar do aumento no cadastro, o universo de produtores orgânicos no Brasil pode ser muito maior. Antes do decreto que regulamenta o setor entrar em vigor, em 2007, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) identificou 90 mil produtores que se autodeclararam como orgânicos. O cenário mostra uma busca por uma produção livre de agrotóxicos.
 
Realidade presente no sítio Gangorra, na zona rural de Jucás, no Centro-Sul cearense, que tem 13 hectares, sendo seis de área plantada. Há seis anos, o casal Odicildo e Karmem Duarte herdou o lote e iniciou o projeto para melhorar a qualidade de vida da família. “A gente fez um empréstimo no valor de R$10 mil para comprar bomba e os equipamentos. E o que a gente vem produzindo que vem dando lucro a gente vai aumentando a área. A bomba (usada para irrigação) ainda tem capacidade e a gente quer aproveitar o total dela na irrigação” explica Odicildo que, além de produtor, é técnico agrícola e usa os conhecimentos para alavancar a produção.
 
O espaço é bem aproveitado e chama atenção pela variedade de culturas. Tem macaxeira, milho, feijão, limão, laranja, acerola e até mogno, mas o destaque mesmo é a banana casca verde. O casal comercializa parte do que produzem na Feira Orgânica de Iguatu, que acontece anualmente no Centro da cidade. 
 

“É muito importante mostrar nossos produtos para outros produtores, para outras pessoas que vem comprar, até de outras cidades. Tem a feira que a gente vende e tem os comércios que a gente abastece no Centro, que é conforme o pedido. Eles vão pedindo e a gente vai levando e quando a produção é em grande quantidade, tem um rapaz do Rio Grande do Norte e outro da Paraíba que a gente comercializa junto com eles”, explica Odicildo.

A aposta é o cultivo orgânico, livre de agrotóxicos, opção estimulada pelo desejo da família de consumir alimentos saudáveis. “A gente sabe a qualidade do nosso produto. De onde tá vindo, a origem realmente, de como tá sendo plantado, de como tá sendo acompanhado. O primeiro ponto que mudou foi a questão da alimentação. A questão livre de agrotóxicos, totalmente orgânico”, afirma Karmem Duarte.
 
O casal ainda mora na área urbana, mas a meta é se mudar para a zona rural e construir uma rotina de vida mais saudável, perto da natureza. “Curtir muito mais a natureza, curtir muito mais esse clima maravilhoso, diferente da poluição das cidades”, destaca Karmem. 
 
Mel
 
Também no Centro-Sul cearense, o município de Iguatu tem como principal atividade produtiva a apicultura. Lá, os produtores se dividem entre a venda no comércio local e a distribuição para empresas privadas que trabalham com exportação. Andreilson Silva trabalha com mel desde 2006. “Eu tenho o plano de ampliar essa atividade mas ainda não dá para viver disso”, conta o produtor, que complementa a renda da família prestando serviços como técnico agrícola. Para ele, trabalhar em conjunto com os demais apicultores é o caminho mais eficiente para desenvolver a atividade.  

“Para um apicultor iniciar ele tem que levantar um capital alto de recursos. Com isso, a maioria se reúne para compartilhar alguns materiais, como de extração. Outra coisa, se a gente produz uma quantidade maior, é mais fácil a gente juntar e vender para uma empresa”, explica Andreilson. 

O secretário-executivo da Comissão da Produção Orgânica (CPOrg) do Ceará, Adriano Custódio, afirma que a região Centro-Sul segue a tendência do restante do Estado onde, do total de culturas produtivas, o mel ainda é a principal atividade (32%). Ao todo, são 209 apicultores registrados produzindo o alimento com características quase que integralmente orgânicas. Isso acontece porque a vegetação nativa da Caatinga é propícia para a agricultura de sequeiro, técnica usada em terrenos onde a pluviosidade é baixa. 

Produção

Para que a produção seja considerada orgânica, os produtores podem se regularizar de duas formas: obter certificação por um Organismo da Avaliação da Conformidade Orgânica (OAC) credenciado ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa); ou se organizar em um grupo e se cadastrar na Pasta para realizar a venda direta sem certificação, que pode ser obtida pela contratação de uma Certificadora por Auditoria ou se ligando a um Sistema Participativo de Garantia (SPG). O órgão deve, ainda, estar sob a certificação de uma Organização Participativa de Avaliação da Conformidade (OPAC).

No Ceará, 456 produtores são registrados por entidades certificadoras por auditoria e recebem visitas de inspeção periódicas. Além deles, 160 estão registradas por meio de entidades OPAC. Nesse caso, o produtor deve participar ativamente do grupo ou núcleo a que estiver ligado e o próprio grupo garante a qualidade orgânica dos produtos, sendo que todos respondem, juntos, caso haja alguma fraude ou irregularidade. 

Caso o interesse seja apenas pela venda direta ou institucional, os produtores podem formar uma Organização de Controle Social (OCS). Nesses casos, a venda só é permitida em feiras ou diretamente ao consumidor, além de para merenda escolar e Companhia Nacional de Abastecimento - CONAB, para o próprio Governo. Quando o produto é certificado, a venda pode ser feita tanto em feiras como para supermercados, lojas, restaurantes, hotéis, indústrias, na internet, etc.

Só no Centro-Sul cearense a expectativa é que existam 100 produtores esperando uma certificação, que pode ser feita, inclusive, por uma empresa privada. No caso do apicultor Andreilson Silva, que pretende concorrer a programas do Governo Federal de fomento a agricultura, o caminho é se organizar com um grupo de mais quatro produtores para concorrer a um crédito de R$ 110 mil. Segundo ele, o dinheiro será usado na construção de uma unidade simples de produção.

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