Mulheres: história reescrita

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Pesquisas convidam à revisão crítica da História, revelando construções da memória vinculadas ao poder

Fortaleza. No começo, era como se as mulheres estivessem fora do tempo. Por onde andavam enquanto a história era contada? Demoraria para a história tradicional, conduzida por homens de fartos bigodes, causar alguma estranheza aos leitores?

Passava da metade do século XX quando elas conquistaram o direito de ter sua história escrita para além dos rodapés. A incorporação de novas fontes de pesquisa permitiu acessar o passado em perspectivas que incluíam mulheres, crianças, operários e outros grupos antes excluídos. Vê-se que a escrita da história, tanto quanto os fatos que narra, é uma expressão do seu tempo, imersa em um contexto social, cultural e político.

Antes "inenarráveis", as mulheres passaram a surgir em bilhetes, cartas, diários íntimos ou relatos orais tornados públicos. Esses indícios forneceram pistas de um vasto universo que os historiadores ainda estão por desvendar. São cenas e detalhes miúdos, não encontrados na documentação oficial protagonizada, em sua maioria, por homens de grande projeção.

Os novos métodos de investigação fazem emergir as trajetórias de outros sujeitos, pequenos grupos, estratégias e improvisos, bem como diferentes relações de poder. Pouco a pouco, a mulher parece se reconciliar com a historiografia, que inicialmente se interessou por seus papéis privados e depois deu a conhecer as marcas deixadas por escritoras, donas-de-casa, lavadeiras, professoras, devotas, feiticeiras e outras. E não somente como coadjuvantes, "dependentes" de um referencial masculino.

Mais do que preencher lacunas, as ações e experiências de mulheres convidam à revisão crítica da História e afirmam a necessidade de sua reescrita permanente. Bom exemplo é a pesquisa de Edianne dos Santos Nobre, que estabelece as narrativas de milagres realizadas pelas beatas do Cariri a partir de 1891. Ao recuperar o lugar de manifestação daquelas mulheres na história, o texto restitui a complexidade daquele momento e articula novos campos de tensões e negociações.

A construção da memória vinculada ao exercício do poder é latente quando ações repressoras fizeram com que as beatas fossem silenciadas e relegadas à posteridade como "fanáticas". À imagem e semelhança de seu tempo, a Igreja priorizava o acesso do homem ao saber, ao sagrado e ao poder. O milagre de Juazeiro foi ressignificado e ganhou uma versão que perdurou no imaginário do povo. Valorizava uma representação protetora do Padre Cícero, que perpetuou "a imagem de um Juazeiro filho de padre e órfão de mãe", no dizer da historiadora Edianne dos Santos Nobre.

Mais por esquecimento ideológico do que por ausência de vestígios, as beatas pouco ou nada pronunciaram na farta bibliografia sobre o tema. Hoje, falar sobre elas é dar-lhes nova existência. É possível tornar o ato de recontar o passado uma ação política, com potencial transformador no presente. Os atuais métodos de pesquisa viabilizam a escrita de narrativas que equacionam diversas fontes, de registros oficiais aos indícios, entrelinhas e não-ditos. As vozes femininas dissonantes, recuperadas a cada novo estudo, redefinem os limites de atuação dos sujeitos e testemunham os silêncios da História.

Luciana Andrade de Almeida*
Especial para o Regional

*Jornalista e mestre em História Social pela Univ. Federal do Ceará (UFC)

Lacuna
"À imagem de seu tempo, priorizava-se o acesso do homem ao saber, ao sagrado e ao poder"
LUCIANA ANDRADE DE ALMEIDA, Jornalista e historiadora
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