Memórias que não se apagam

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Os primórdios da cidade de Juazeiro estão vivos na memória de pessoas que viveram com o seu patriarca

Com 95 anos de idade, a professora e artista plástica Assunção Gonçalves é uma das poucas pessoas, ainda vivas, que tiveram o privilégio de conviver com o Padre Cícero. Acompanhou de perto o dia a dia do sacerdote que se tornou o "santo do Nordeste". O peso da idade não permite mais a desenvoltura de antigamente. O raciocínio é lento.

A princípio, ela argumenta, com educação, que não tem mais condições de conceder entrevistas. Com a ajuda de "Fransquinha" Assunção, sua prima e filha adotiva, ela começa a remoer os pensamentos no caleidoscópio da sua imaginação. Olhando pelo retrovisor do tempo, fala, com emoção, sobre o Padre Cícero. "Ele adorava crianças, era muito atencioso e simpático. Contava histórias, geralmente, sobre as coisas do evangelho. Tentava sempre deixar coisas nas cabeças das pessoas que falavam de nosso Senhor", relembrou.

Sentada numa confortável cadeira, cercada de fotos e quadros antigos, a maioria pintados por ela, a emblemática professora da Escola Rural de Juazeiro, revive o passado, caminhando devagarzinho, com a memória, pelas ruas de Juazeiro, com cuidado, para não machucar o presente. Em cada esquina, uma história para contar, lembranças alegres e tristes de uma cidade que nasceu e cresceu sob as bênçãos do Padre Cícero. "Ali, na esquina, ao lado da igreja, era o salão de festas", lembra.

Quando nasceu no dia 1º de junho de 1916, a cidade tinha apenas cinco anos de idade. Juazeiro se emancipou do Crato no dia 22 de julho de 1911. Ambas cresceram juntas, debaixo da mesma sombra protetora do Padre Cícero que, mesmo suspenso das ordens sacerdotais, batizou a criança que, mais tarde, seria professora da Escola Normal Rural de Juazeiro.

A instituição, segundo Assunção, representou o ideário do Padre Cícero que defendia uma educação profissionalizante, que ensinasse o homem a sobreviver dos recursos que a terra pudesse prover, não somente ensinasse a ler, escrever e contar, mas que subsidiasse os meios e condições para viver em seu habitat.

A Escola Normal Rural foi a mais forte marca de sua vida. "Foi ali que eu me realizei como ser humano", diz dona Assunção, acrescentando que a formação desenvolvida pelo estabelecimento de ensino no plano geral ou específico, apresentava características múltiplas, enfatizando de um lado, informações relativas à preparação técnica para atuação no ensino rural, por outro, a qualificação profissional para operar nas adversidades e possibilidades do meio.

Partida do Padim

Outro fato que marcou a sua infância foi a morte do Padre Cícero, em 1934. Ela lembra que a morte do sacerdote já era esperada devido ao seu estado de saúde. "Doutor Mozar já tinha desenganado. E todos os médicos que estavam na cabeceira dele diziam que ele tinha poucas horas de vida. Às 22 horas, meu pai mandou me chamar. Às 5 horas, acordei com o badalar dos sinos anunciando a morte dele. Saí pra lá, fiquei lá o dia todo", conta.

As reminiscências vão aflorando na mente da professora. Ela recorda que, depois de morto, o Padre Cícero foi colocado num caixão, em pé, na janela de sua casa, na Rua São José. "Num determinado momento, a mão dele se mexeu. A multidão pensou que ele tinha ressuscitado", relembrou.


NORDESTINOS

Filhos vindos de diferentes lugares

Juazeiro é conhecido por acolher pessoas vindas de vários lugares do Brasil, em busca da fé e de oportunidade

"Juazeiro é o refúgio dos náufragos da vida". A frase do Padre Cícero continua viva na cabeça das levas de romeiros que todos os dias chegam à cidade em busca de abrigo, emprego e dos "milagres" que ocorrem todos os dias com os seus devotos. O maior deles é o crescimento da cidade que, em menos de 100 anos, se tornou a metrópole do Cariri.

A alagoana Júlia Amélia da Conceição fez parte das primeiras romarias que chegaram a Juazeiro, no início do século passado, arrastadas pela fé no Padre Cícero, a procura de um milagre para melhoria de suas condições de vida. Saiu da cidade de Santana de Ipanema no jogo de caçuás (cesto de cipó que serve para carregar mantimentos e é transportado por animais de carga) com mais cinco irmãos. "Foi mais de uma semana de viagem nas estradas e veredas do sertão nordestina", lembra dona Júlia.

Hoje, com 106 anos de idade, apontada como a romeira mais velha de Juazeiro, dona Júlia recorda que, quando chegou, Juazeiro era apenas um povoado. "Tudo isso aqui era mato", diz ela, esticando o olhar para o final da Rua do Limoeiro onde mora. A anciã centenária não se lembra do movimento político que deu origem à criação do Município de Juazeiro. Mas fala com entusiasmo da cidade que ela viu nascer e crescer, tijolo por tijolo, rua por rua.

Ela diz que nunca entrou na casa do Padre Cícero, mas sempre o via na janela da sua residência, abençoando seus devotos. Para ela, Padre Cícero não morreu. "Ele se mudou. Não era uma pessoa comum, como nós. Era a quarta pessoa da Santíssima Trindade, juntamente com Frei Damião". O depoimento da romeira é compartilhado por milhares de devotos que afirmam, com convicção, que o Padre Cícero nasceu "santo".

No passeio saudosista pelas ruas de Juazeiro, dona Júlia recorda o velho sobrado localizado na Praça da Liberdade, hoje Padre Cícero, esquina da Rua do Cruzeiro, com Rua Grande, atualmente Padre Cícero. Com o crescimento da cidade, o povo simples não acompanhou o processo de urbanização. A maioria não perdeu o costume trazido das cidades pequenas do nordeste de sentar nas calçadas, no começo da noite, enquanto o sono não chega.

A cidade se agigantou. Não dá mais para acompanhar o seu crescimento. De um dia para o outro nascem uma casa, um estabelecimento comercial, um prédio público, uma rua. O trânsito acabou os campos de ponte de rua onde os meninos jogavam futebol com bola de bexiga de boi. A violência empurrou os transeuntes e moradores para dentro de casa.

Filho ilustre

Com 85 anos de idade, o comerciante Joaquim Rodrigues, conhecido como "Seu Lunga", um dos tipos mais populares de Juazeiro, diz que "o maior milagre do Padre Cícero é o crescimento de Juazeiro". Lunga lembra que o seu estabelecimento comercial, situado na Rua Santa Luzia, era o fim da cidade. Hoje, a cidade cresceu para todos os lados. "Não dá mais para acompanhar o crescimento de Juazeiro", reclama.

Natural da zona rural de Caririaçu, o velho Lunga, que se tornou famoso por sua "tolerância zero", recorda que chegou a Juazeiro ainda menino. "Tenho uma vaga lembrança do Padre Cícero, mas conheço os seus ensinamentos. Ele só pregou o bem. Ele já é santo. Aliás, este é um assunto que não devia nem ser discutido", acrescenta Lunga sobre a divindade do "Padim" dos nordestinos.


Antônio Vicelmo
Repórter
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