Hospitais regionais reduzem 51 toneladas de resíduos descartados

Em apenas seis meses, as unidades de saúde das regiões do Cariri, Sertão Central e Norte diminuíram e deram destino adequado a toneladas de resíduos. O valor representa quase o dobro do lixo reciclado durante 2018

Legenda: Em Quixeramobim, o composto orgânico está sendo utilizado para adubar as plantas
Foto: FOTO: ALEX PIMENTEL

A destinação correta dos resíduos hospitalares, embora seja uma exigência legal desde 2010, em muitos casos não é cumprida. Em julho deste ano, o Diário do Nordeste noticiou que, nas cidades de Barbalha (Cariri) e Quixeramobim (Sertão Central), materiais hospitalares foram encontrados nos lixões.

A legislação brasileira prevê uma série de critérios a ser observados no descarte dos resíduos hospitalares. Inclui desde a separação do material, ainda na unidade de saúde, até o transporte.

Nos três maiores hospitais do interior do Estado, essa adequação virou realidade. As unidades de saúde iniciaram um processo de gestão sustentável, cujo foco é a captação e destinação correta dos resíduos sólidos produzidos.

O professor de Gestão de Resíduos da Universidade de Fortaleza, Humberto Júnior, explica que, embora a normativa tenha sido determinada há alguns anos, as unidades de saúde demandam tempo para implantar o Plano de Gestão de Resíduos Sólidos. "O processo é lento, tanto na adequação quanto na capacitação dos profissionais e elaboração da logística. Por esse motivo há demora no início do Plano".

Resultados positivos

No Hospital Regional do Cariri (HRC) o processo de reciclagem foi iniciado em 2016. Dois anos depois, 26,5 mil toneladas de resíduos foram recicladas. No Sertão Central, o Hospital Regional do Sertão Central (HRSC) começou a aplicar o modelo de gestão ambiental em agosto de 2017. Já no ano seguinte, foram recicladas mais de 16 toneladas. O Hospital Regional Norte (HRN), por sua vez, iniciou o processo em 2018 e, somente nos seis primeiros meses deste ano, a unidade enviou para o destino correto mais de 14,5 toneladas de lixo.

Nos primeiros seis meses deste ano, juntos, os três centros hospitalares administrados pelo Instituto de Saúde e Gestão Hospitalar (ISGH) recolheram e deram destinação adequada a 51 toneladas de resíduos sólidos.

De acordo com os levantamentos feitos pelas comissões de gerenciamento de resíduos dos três hospitais, este número representa praticamente o dobro do lixo reciclado durante todo o ano de 2018.

Apesar de já ser considerados "modelos", conforme Humberto Júnior, as unidades querem avançar no processo. Até o fim deste ano, a estimativa é manter a média obtida no primeiro semestre e atingir a marca de 100 toneladas de resíduos destinados de forma correta.

O enfermeiro John Herbeth Nascimento, um dos coordenadores do programa de gestão sustentável no HRSC, explica que os resíduos são segregados nos locais de geração e posteriormente recolhidos para pesagem, registro e armazenamento temporário por tipo, segundo a classificação oficial. O grupo "A" engloba material infectante; grupo "B", resíduo químico; grupo "D", lixo comum; e grupo "E", os perfurocortante. "Cada um recebe a sua respectiva destinação final", pontua.

De acordo com os levantamentos feitos pela equipe de gestão do HRSC, essas mudanças estão reduzindo em 18 toneladas, por ano, a geração e destinação de resíduos para ocupação de aterro sanitário. Além disso, estão minimizando os custos operacionais gerando uma economia anual de R$ 13 mil. No Hospital Regional Norte, a economia é de quase R$ 11 mil e, no HRC, de R$ 12 mil. Para além destes valores, Humberto Júnior destaca que o mais importante é o "ganho ambiental" gerado por essas ações.

A diretora de Gestão e Atendimento do HRSC, Alayanne Menezes da Silveira, diz que "o processo de gestão integrada de resíduos em serviços de saúde reveste-se de caráter técnico e integrado, visando promover sustentabilidade, inovação, economicidade, corresponsabilidade e intersetorialidade".

Raio de ação

Em Quixeramobim, o HRSC passou a receber, também, lixo das residências próximas da unidade de saúde.

"Quando fiquei sabendo da possibilidade de levar resíduos para descarte no HRSC, eu fiquei muito contente. Em Quixeramobim não há acesso facilitado para nenhum serviço de descarte ecológico próximo à minha residência. O lixo sempre foi uma preocupação para mim. Eu me sentia frustrado por não ter opções na minha região para descartar o lixo adequadamente", observa o morador Jeferson de Sousa Saldanha.

Para ele, a sensação era a de impossibilidade de fazer algo pela natureza. "Agora, além do meu lixo, levo os dos vizinhos. Quero que todos passem a ter consciência ambiental, que passemos a fazer algo pela natureza de modo efetivo", completa.

A ideia, agora, é ir além da destinação dos resíduos e transformar o lixo reciclado em compostagem orgânica, um processo biológico, aeróbico e controlado de tratamento, higienização e estabilização de resíduos orgânicos, que gera um produto bastante útil para nutrir o solo e evitar a poluição ambiental.

"O objetivo geral é diminuir a geração de resíduos e, consequentemente, a ocupação de aterros sanitários, sendo que o material orgânico corresponde a cerca de 50% do total de resíduos gerados em Serviços de Saúde (RSS)", explica o coordenador do programa e gerente administrativo do hospital, Elisfabio Duarte.

Com a implantação do projeto de compostagem orgânica, o Hospital Regional do Sertão Central está produzindo cerca de 1.500 Kg de material compostado por mês, o qual é utilizado para adubação de áreas gramadas e plantas de jardim.

Diante dos bons números, a unidade estuda, como medida expansiva, a construção de composteira de superfície para utilizar sobras alimentares produzidas no refeitório do serviço de nutrição, o que poderá triplicar o montante atual de matérias orgânicas processadas.

"O excedente poderá ser destinado a entidades de produtores rurais da região", destaca Elisfabio. O projeto conta com suporte técnico do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE) deQuixadá.


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