História da cidade inundada

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Obra do autor Francisco Isac perpassa as histórias dos moradores e poemas da antiga Jaguaribara

Jaguaribara As melhores lembranças da vida são guardadas no baú das recordações. Mas o que dizer quando o baú precisa ir, literalmente, por água a baixo? Desde que Antônio Conselheiro falou que "o sertão vai virar mar", poucas frases sertanejas são tão propagadas. Mas se era profecia há tempos virou realidade para quem pode dizer, com força e sentimento, de um passado mergulhado na água. "O sertão que virou mar", de Francisco Isac, natural de Jaguaribara, é uma compilação de memórias - e fatos memoráveis - de poucos que podem sentir na pele a profecia concretizada, de uma cidade que ficou completamente em ruínas embaixo d´água e um pouco da história e das tradições.

A cultura é transmitida pelas pessoas, de várias formas, mas o espaço (o geográfico mesmo) tem contribuição também como personagem, que o diga Euclides da Cunha (autor de "Os Sertões"). E a cidade de Jaguaribara, mergulhada no Açude Castanhão, é o berço de nascimento e das memórias do autor Francisco Isac da Silva. Lá morou "Cholinha", nascida no Crato, fugida do arrombamento do açude Orós. Morou um tempo na casa de Maria Flandeira e depois lhe arrumaram um quarto de taipa na Rua do Papouco; teve também Chico Gavião, que ganhava o pão carregando água para as pessoas; tem também Augusto Pessoa, artesão, sentava na calçada à tardinha, que versava "o mundo roda, e a roda grande vai rodar dentro da pequena. Não vou estar vivo para ver, mas quem viver verá".

Antes de ser, atualmente, a primeira cidade completamente planejada do Ceará, Jaguaribara já era de suas singularidades, pra não dizer mistérios e mitos. Muitas décadas antes do Castanhão, frei Vidal lá teria dito que aquilo ali viraria "cama de baleia". Paralelamente, os "profetas da ciência" já apostavam em açude para este sertão - para pânico da população desde os primeiros anúncios em 1985. O primeiro deles foi o engenheiro Roderic Cradal, que fez estudos geológicos e, onde foi sua moradia temporária e escritório, denominou-se "Caverna do Doutor" - de onde foi tirada, durante a construção da barragem, uma pedra com os dizeres "Região São Salvador. Caverna do Mistério. Obra do fim dos tempos - 1893".

"O sertão que virou mar" traz o apanhado da memória, mas também registros de documentos históricos, relação de prefeitos, vereadores, cronograma de fatos políticos - o mais célebre foi a morte, em 1824, de Tristão Gonçalves de Alencar Araripe, "herói" da Confederação do Equador. Um monumento criado em sua memória foi erigido em Jaguaribara, que na época da morte ainda pertencia ao município de Jaguaretama. Não fosse os descendentes do republicano, vindos da cidade do Crato, terem resgatado o monumento de três metros de altura, hoje estaria debaixo do Castanhão.

Se os poetas bucólicos naturalmente lembram, nostálgicos, da infância vivida, que diriam das praças, das ruas, dos quintais por onde se brincava e corria e simplesmente foram riscados do papel. É a festa do término de curso da oitava série no Ginásio Domingo Paes, das performances culturais do grupo Teatro de Rua, ou do coral "Um canto infantil em cada canto, que participava das novenas. Calma! As coisas não morrem porque mudam de lugar, mas a terra é um pedaço do homem (ou o contrário), e o autor registra, ainda que sem muita destreza historiográfica, mas de forma natural e espontânea, fatos, dados e datas em uma cidade que virou ruínas, e de um sertão que virou cidade.

"O Sertão que virou mar" é muito mais do que um título óbvio para um livro, um pequeno baú em letras e imagens da Jaguaribara de Santa Rosa; não de sua infância, mas das várias idades de todo um povo que mudou-se de lá, mas que deixou vestígios nas pedras e tijolos que ficaram no fundo do mar de água doce em que virou parte do sertão, que deu lugar ao imenso Açude Castanhão.

LIVRO
Obra inclui aspectos sociais e econômicos

Jaguaribara O livro traz informações econômicas, políticas, culturais, mas tem o sentido do sertanejo que, enquanto arrumava as malas, recolhia o que podia, porque era importante. Daí finda a estranheza inicial de quem folheia um livro que tem memórias, dados historiográficos (como o registro da criação do município de Jaguaribara), informações topográficas, até os discursos das autoridades que inauguraram a cidade de "Nova Jaguaribara".

A segunda metade é reservada para poesias, como uma de título homônimo ao livro: "eu vi meu sertão virar um mar vi tudo se acabar não foi um passe de mágica. Jaguaribara/minha Santa Rosa de Lima/terra-santa, obra prima/feita pela mão divina/que o Castanhão inundou/hoje é cama de baleia/frei Vidal profetizou(...) se eu pudesse ser um peixe/pra mergulhar nas águas profundas eu ia matar a saudade/saudade do meu sertão/eu ia ver meu Barro Branco/a Pelada e o Simão/os banquinhos lá da praça/e o marco de Tristão/é com saudade louca que eu canto esta canção".

O autor Francisco Isac da Silva, de 54 anos, tem trabalhos culturais, atua na educação, e mora em Jaguaribara, onde nasceu, primeira cidade planejada do Ceará. "O Sertão que virou mar" tem início com as primeiras pesquisas publicadas em Jaguaribara de Santa Rosa, também do autor, que fez anotações pessoais em conversas com pessoas mais antigas do município e acompanhou a construção da Barragem do Castanhão.

As pequenas fotos ilustram espaços da antiga Jaguaribara, onde se passam os acontecimentos tratados na obra. Sem pretensão de enredo, a obra traz recortes de Jaguaribara, a maioria com registro possibilitado pela oralidade dos mais velhos. O município tem 66 anos, mas há oito anos (desde 2001) foi transferido para região mais alta, ainda nas margens do Rio Jaguaribe, dando lugar ao Açude Castanhão.

MELQUÍADES JÚNIOR
COLABORADOR
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