Ceará inicia exportação de jumentos

Legenda: EM TODA a região Nordeste, há cerca de 1,2 milhão de jumentos. O principal mercado comprador é o Japão
Foto: Arquivo
O Ceará inicia na primeira quinzena deste mês o abate industrial de cavalos e jumentos para fins de exportação da carne para o Japão, Holanda e Bélgica. A iniciativa é da empresa Pampa Agroindústria Ltda e será desenvolvida nas antigas instalações da Comape, em Santa Quitéria, a 222 quilômetros de Fortaleza. O projeto prevê a exportação de cerca de 250 toneladas por mês, de carne eqüina e asininos e muares (híbridos).

O diretor-presidente da Empresa, Elimárcio de Bastos Belchior, 28 anos, informou que já vinha atuando no abate e industrialização da carne desses segmentos, em Minas Gerais. A opção pelo Ceará obedeceu a vários aspectos estratégicos, mas especialmente por deter o maior rebanho de burros no Nordeste. Em toda a região, há cerca de 1,2 milhão de jumentos.

Pelo projeto a ser implantado no Ceará, a idéia é que o abate ocorra exatamente entre os animais que se incluem no estorvo e nos estoques excessivos. A captação será feita, especialmente, às administrações municipais, Departamento Nacional de Estradas e Rodagens (Dert), Polícia Rodoviária Federal, Centro de Zoonoses e outras entidades envolvidas com a captura do animal em estradas e áreas públicas.

“A nossa pretensão não será de comprar os animais. Pretendemos criar um mercado industrial com esses animais, que vêm morrendo de inanição ou até mesmo sendo mortos pelos fazendeiros”, disse Elimárcio.

Na experiência anterior de industrialização de carne eqüina, asinina e muares, a empresa mineira vendia para agentes exportadores. O principal mercado comprador é o Japão, seguido pela Holanda e a Bélgica.

Nesses países, a carne eqüina e de asininos e de muares tem uma aceitação natural na gastronomia das suas populações, além do fato de que boa parte da proteína desse produto é acrescido em ração destinada aos pet-shops.

“Não pretendemos comercializar a carne para o Brasil, em nenhuma hipótese. Sabemos da resistência que se terá, diante da cultura local. É algo comparável oferecer carne de porco a um árabe”, compara Elimárcio.

Com a migração da empresa para o Ceará, Elimárcio diz que foram aproveitados os potenciais que o Estado oferece para a viabilização da exportação direta. A principal delas foi a qualidade da planta, ou seja o antigo frigorífico da Comape, em Santa Quitéria, não obstante está parada há 20 anos.

Com a recuperação da empresa, a Pampa Agroindústria terá ganhos significativos com a exportação pelos portos do Mucuripe ou do Pecém. Também foram levados em conta a boa oferta de mão-de-obra e, ainda, o fato de o Ceará ser o estado catalisador para a arrebanhar os animais de todo o Nordeste.

“Antes esses animais faziam uma viagem de até três dias de caminhão para serem abatidos em Minas Gerais. Agora, esse tormento será aliviado, influindo inclusive na redução de custos com fretes”, afirmou o empresário.

SEM RESISTÊNCIA - Elimárcio não acredita numa resistência do cearense para a atividade industrial a ser desenvolvida nos próximos dias. Apesar do vínculo emocional que o nordestino detém com o animal, ligação perpetuada na poesia do Padre Antônio Vieira, com “O jumento nosso irmão”, entende que haverá um tratamento muito mais sensível para essa questão.

O fim da tração animal tornou o jumento obsoleto e oneroso para seus criadores. No Cariri, especialmente na serra do Araripe, os bichos são soltos até que morram por inanição, ou então, morrem envenenados.

“Um boi custa R$ 1.100,00 para o fazendeiro. Um jumento não custa nada e concorre na comida do pasto. Por isso, muitos fazendeiros optam por matar indiscriminadamente esses bichos”, ressalta o empresário.

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