Caipora e mula-sem-cabeça “assombram” sertanejos

“Fuma que só uma caipora”. A comparação tem sentido. De acordo com a lenda, a caipora, um dos mitos mais comentados do Cariri, gosta de fumo de rolo. A caipora aprecia o fumo. Os caçadores garantem que, antes de sair para caçar no mato, na noite de quinta-feira deve-se deixar fumo de corda no tronco de uma árvore e dizer: “Toma, caipora, deixa eu ir embora”. A boa sorte de um caçador é atribuída também aos presentes que ele oferece.

O agricultor José Fernandes, residente no Sítio Cana Brava, Município de Farias Brito, jura por Deus que já viu uma caipora. Ele conta que foi para o mato cortar madeira para fazer cabos de machado. De repente, o cachorro que o acompanhava começou a latir. Quando ele se aproximou, lá estava a caipora. Zé Fernandes correu para casa apavorado. Passou três noites sem dormir. O patrão o levou para o Crato a fim de ser medicado. Só dormiu depois que tomou um tranqüilizante. Fernandes conta que, dias depois, voltou a se encontrar a caipora num corredor.

A lenda da caipora é bastante evidenciada em todo o Brasil. Sua presença vem desde os indígenas, é deles que surgiu este mito. Segundo muitas tribos, principalmente as do tronco lingüístico Tupi-Guarani, a caipora era um Deus que possuía como função e dom o controle e guarda das florestas, e tudo que existia nela. Com o contato com outras civilizações não-indígenas, esta divindade foi bastante modificada quanto a sua interpretação, passando a ser vista como uma criatura maligna.

A caipora apronta toda sorte de ciladas para o caçador, sobretudo aquele que abate animais além de suas necessidades. Afugenta as presas, espanca os cães farejadores, e desorienta o caçador simulando os ruídos dos animais da mata. Assobia, estala os galhos e assim dá falsas pistas fazendo com que ele se perca no meio do mato. Mas, de acordo com a crença popular, é, sobretudo, nas sextas-feiras, nos domingos e dias santos, quando não se deve sair para a caça, que a sua atividade se intensifica.

MULA-SEM-CABEÇA — Dizem que é uma mulher que namorou um padre e foi amaldiçoada. Toda passagem de quinta para sexta feira ela vai numa encruzilhada e ali se transforma na besta.

Então, ela vai percorrer sete povoados, ao longo daquela noite, e se encontrar alguém chupa seus olhos, unhas e dedos. Apesar do nome, mula-sem-cabeça, na verdade, de acordo com os relatos de quem já a viu, ela aparece como um animal inteiro, forte, lançando fogo pelas narinas e boca, onde tem freios de ferro.

Nas noites que ela sai, ouve-se seu galope, acompanhado de longos relinchos. Às vezes, parece chorar como se fosse uma pessoa. Ao ver a mula, deve-se deitar de bruços no chão e esconder unhas e dentes para não ser atacado. Se alguém, com muita coragem, tirar os freios de sua boca, o encanto será desfeito e a mula-sem-cabeça, voltará a ser gente, ficando livre da maldição que a castiga, para sempre. (A.V.)

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