Agricultor cultiva mandacaru e garante fartura para os animais até nos períodos de estiagem

O agricultor Luiz Lino Barbosa consegue resolver o maior problema causado nos dias de hoje pelas seguidas estiagens: produzir alimentos para os animais

Com o advento de programas como o Bolsa Família e de inúmeras tecnologias sociais espalhadas pelo sertão, as estiagens seguidas que castigam o Semiárido já não produzem mais os efeitos devastadores de outrora ao homem. Entretanto, os animais ainda sofrem com a falta de chuvas. Pensando principalmente neles, o agricultor Luiz Lino Barbosa, 68 anos, criou um projeto sustentável de convivência com a seca na comunidade de Alegre, distante 50 quilômetros da sede de Itatira.

O produtor rural de agricultura familiar plantou dois mil pés de mandacaru em 2005, uma cultura pouca explorada no sertão mas que se mostra ideal para o consumo animal.Conforme Luiz Lino, a vantagem maior é que a cactácea é de fácil adaptação ao clima quente dos Sertões de Canindé, onde a  temperatura chega a 40 graus centígrados.

Além da plantação de mandacaru, o agricultor tem, em forma de consórcio, 10 mil mudas de palma adensada, 2,5 mil pés de leucena e 200 mudas de jucás, além de cana-de-açúcar e capim búfalo. Luiz Lino cria bodes e ovelhas e assegura que sua iniciativa garante alimento para os animais por um bom período de estiagem.

"Tenho um banco de suporte forrageiro muito bom, feito à base de leucena com cana-de-açúcar. Para se ter uma ideia da dificuldade por aqui, na localidade de Urubu, onde estão implantados os plantios, choveu apenas 68.5 milímetros no ano de 2014’’.

Para que tudo dê certo, seu Luiz tem o apoio e ajuda fiel da mulher Francisca Luzanira Bento, 59 anos, e o filho Antônio Cleber Barbosa dos Santos, 28 anos. Para quem mora no campo, a aprendizagem é algo infinita. "Todos esses plantios são baseados na experiência que faço a cada ano. A resistência dessas plantas só tem nos ajudado a manter nossos animais", comemora Luiz Lino.

Para saber a temperatura exata na propriedade, ele trabalha com um medidor do tempo e tem na ponta da casa um pluviômetro para ter noção do que chove a cada ano na sua propriedade. "Já que não é possível evitar a seca. A atitude mais eficiente é aprender a conviver com ela", enfatiza o sertanejo.

Para ter sempre água para consumo humano e animal, Luiz Lino conta com uma cisterna de placa construída com recursos próprios, com capacidade para 16 mil litros, que dá para atender sua família por um ano meio. Quanto aos animais, montou uma bateria de seis tambores de 250 litros cada, que recebem água por captação de um açude construído na entrada de sua propriedade.

O agricultor explica o que mudou depois que ele passou a ter uma outra postura em relação à seca. "Antes tudo era só sofrimento, mata seca, Caatinga e pedra. Agora está aí. Olha a fartura. Os animais comem na hora que querem, sem ter que fugir em busca de alimentos e invadir propriedades dos vizinhos", aponta orgulhoso.

O agricultor ainda ajuda seus vizinhos com a liberação do mandacaru a preço bem acessível. "Moramos no mesmo chão. Por isso, não vejo nenhuma restrição em ajudar os colegas. Nesses três anos da maior seca dos últimos 60 anos do Nordeste, ainda não precisei usar dinheiro de banco para salvar meus animais".

O próximo passo do produtor é implantar em sua propriedade um sistema de plantas nativas para assegurar sustentabilidade do solo e evitar erosões. "Vamos plantar no inicio do período chuvoso, mesmo com um inverno fraco, aroeira, pau d árco, jurema branca, pau branco, catingueira, frejó, umburana, entre outros", garante.

Para isso, já busca sementes e mudas das plantas. "Meu grande sonho é criar uma área de proteção ambiental particular, possibilitando uma convivência harmoniosa com a fauna e a flora. Aqui ninguém caça, não desmata e não agride o meio ambiente. Sou uma ambientalista por natureza".

O Prefeito de Itatira Antônio Bié da Silva agendou uma visita à comunidade, acompanhado da secretária da Agricultura e Recursos Hídricos Márcia Pinto para conhecer de perto a experiência de Luiz Lino com o objetivo de implantá-la em outras áreas da região.

"Precisamos entender melhor as ideias do homem do campo, que, mesmo sem ter passado por um banco de faculdade, muitas vezes ensina a quem conseguiu estudar. Essa convivência precisa ser entendida e isso nós vamos entender visitando o local para depois darmos início a um projeto mais amplo das experiências de seu Luiz Lino", garante o gestor municipal.

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