Luz da vida

Iniciativas de coletivos e grupos de profissionais fazem coro à conscientização pelo parto adequado.

parto humanizado
Denise Marçal/Divulgação

Dar à luz a um ser humano é uma dádiva única e coloca a condição do parto como um momento que deve ser bem assistido e respeitado. A humanização do nascimento ilumina um histórico brasileiro de partos normais mal conduzidos e altos índices de violência obstétrica. Em Fortaleza, iniciativas de coletivos e grupos de profissionais fazem coro à conscientização pelo parto adequado e contribuem para desconstruir mitos relacionados
ao nascimento.

“Parto humanizado é um tipo de parto que privilegia as escolhas da mulher, respeita a fisiologia do parto e do nascimento, preocupa-se em acolher carinhosamente aquela mulher e apoia as boas e necessárias práticas do parto”, explica Luís Carlos Weyne, médico obstetra e um dos criadores do Raízes Parto, grupo profissional multidisciplinar que atua com humanização do nascimento e promove eventos de conscientização sobre o tema.

Com 40 anos de atuação, o médico é um dos primeiros em Fortaleza a trazer as boas práticas do parto humanizado para o consultório e o hospital. Ele conta que, no ano 2000, quando era chefe do Hospital Distrital Gonzaga Mota de Messejana, Fortaleza recebeu a visita de uma comissão japonesa, chamada Jica, contratada pelo Ministério da Saúdepara divulgar o parto adequado. “A partir daí, eu procurei auxiliar na implantação dessas práticas que existem lá até hoje”, afirma.

Entender as diretrizes do nascimento humanizado mudou a forma de atuar e pensar do obstetra. “O que fez com que eu mudasse minha maneira de
raciocinar e de sentir o parto foi que eu me convenci de que o parto humanizado valoriza o nascimento. Isso facilmente me sensibilizou e eu não tive nenhuma dificuldade de entender isso”, relata Luís Carlos Weyne. Para o médico, a luta é pela humanização do nascimento, mesmo quando há necessidade de uma cesárea. “Se a cesariana for necessária, podem ser usadas técnicas de humanização”, ressalta.

Luís Carlos Weyne
Entender as diretrizes do nascimento humanizado mudou a forma de atuar e pensar do obstetra Luís Carlos Weyne. Natália Braga/Divulgação

Como observa o profissional de saúde, apesar do atraso brasileiro, se comparado a países como Estados Unidos e Japão, onde o parto natural humanizado já se consolidou, Fortaleza tem avançado nos últimos anos. “Vejo maternidades que estão praticando isso, profissionais, isoladamente, trabalhando com essas práticas, e hospitais particulares criando condições para que, se o obstetra quiser fazer o parto dessa forma lá, possa ser feito”, pontua. “Agora, a mudança é lenta, porque há séculos a gente vem trabalhando de outra maneira”, pondera.

A doula Amanda Oliveira, do Coletivo Gaia, grupo de doulas que presta acompanhamento voluntário a adolescentes assistidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), observa que houve avanços desde que começou a atuar, há quatro anos. Além da mudança de mentalidade das mulheres, que têm mais acesso à informação, uma grande conquista foi a aprovação do Estatuto do Parto Humanizado no Ceará, a Lei no 16.837, sancionada pelo Governo do Estado em janeiro. “Foi um avanço gigantesco ter uma lei que possa garantir os direitos das mulheres. Além disso, já temos postos de saúde abrindo novas propostas de atendimento, mais hospitais que estão mudando sua estrutura para se adequar a essa nova visão de humanização do parto e abrindo as portas para as doulas. Tem avançado bastante, mas ainda temos um longo trabalho pela frente”, avalia.

Experiência profunda

“Costumo dizer que a pessoa pode escalar o Monte Everest, pode saltar de paraquedas, pode mergulhar em águas profundas, mas nada disso representa uma emoção comparada com o nascimento natural. No meu entendimento, é uma experiência crucial para a integração da personalidade da mulher”, opina Luís Carlos Weyne. 

Para a personal trainer Neyce Cullen, de 37 anos, a experiênciado parto natural humanizado foi uma vitória. “Como minha primeira filha foi de parto cesáreo, o que eu mais pensava era: consegui! Sentir minha filha sair de mim e vir direto para os meus braços é uma felicidade que não tem como descrever, é uma sensação de leveza, de paz e de amor plenos”, relata.

Quem também passou pela experiência de dar à luz de forma respeitosa e acolhedora foi a microempresária Nayara Oliveira, de 23 anos. Ela conta que, quando estava grávida, em 2015, a ideia de ter parto normal pelo SUS a deixava insegura quanto ao atendimento que poderia receber. O que fez toda a diferença para a jovem foi o trabalho de acompanhamento emocional e informacional da doula. “Foi um parto emocionante, diferente de tudo que eu tinha pensado. Estava muito em paz, não sofri intervenção médica e tive os meus direitos respeitados”, conta.

Conteúdo extra: Saiba mais sobre o trabalho da doula.