Lidando com a ansiedade

Veja orientações da especialista Marília Coelho para lidar com a ansiedade.

Aprender a lidar com a ansiedade e saber agir sob seu efeito é um recurso importante para se obter bons resultados nas diversas situações da vida, explica Marília Coelho, psicóloga clínica e orientadora profissional e de carreira. A afirmação também se aplica aos concurseiros, seja durante a preparação para o certame, seja no dia da prova. 

A psicóloga Marília Coelho explica que a ansiedade é uma emoção natural, que entra em ação sempre que se avalia e se considera uma situação de possível risco potencial. “O disparador desse estado pode ser o pressentimento de algo incerto ou a antecipação de uma temida situação futura”, contextualiza. Então, em um certo nível, essa emoção pode proteger e ter seu lado positivo. “Ela leva o sujeito a cercar-se de uma determinada precaução na vida, aquele ‘frio na barriga’ saudável que prepara, na medida certa, para algo que virá”, observa.

A atenção deve ser constante, mas sobretudo quando a ansiedade está presente em excesso. Nesta entrevista exclusiva ao Classificados do Diário do Nordeste, a psicóloga clínica e orientadora profissional Marília Coelho dá dicas aos concurseiros de como lidar com a ansiedade.

Diário do Nordeste: Quais são as orientações para as pessoas que estão se preparando para prova de concurso público, no sentido de lidar com a ansiedade?
Marília Coelho: Sugiro uma rotina que possa privilegiar o ser de forma integral, visando um cotidiano funcional e saudável. Isso é possível com a prática de atividade física; cuidados com a alimentação; a prática de meditação/ respiração consciente; a implementação da higiene do sono (quando possível administrar na rotina); privilegiar alguns momentos da semana ao ar livre, em contato com a natureza, que não deixe o concurseiro tão somente em ambientes fechados ao longo da semana. Se necessário, conciliar algum áudio de conteúdo de estudo junto a uma caminhada ao ar livre, por exemplo. Pode parecer difícil favorecer uma rotina com essas diversas atribuições. Entretanto, investir nesses hábitos aumenta o foco e a disposição para os estudos e para a assimilação do conteúdo. Disciplina e organização geram resultados e rendem no quesito tempo.

E como lidar com a ansiedade no(s) dia(s) de prova?
Os dias de prova pedem leveza, organização e centramento. Recomendo organizar tudo que seja preciso levar para a prova com antecedência (documentos, canetas, alimentos, etc.). Tudo conforme indicado no edital. É importante checar as informações de horário e local do exame com clareza. Familiarizar-se com o devido local de prova com antecedência. Ter atenção sempre às possíveis variáveis, como horário de verão, por exemplo, quando houver. Escolher roupas e calçados confortáveis, apropriados ao clima do dia e do local. Ter em mente sua estratégia de prova: por onde começar, por qual assunto, o que deixar por último, ou seja, como funciona melhor para você essa organização na hora do exame. Além disso, estar atento e familiarizado às particularidades de cada banca examinadora.

Como saber se o nível de ansiedade está aceitável ou em excesso? O que fazer para lidar com ela?
No âmbito das provas, a ansiedade em nível regular pode ter um papel relevante na preparação para o enfrentamento da situação, ativando uma maior utilização da atenção e dos recursos internos do indivíduo para um bom desempenho. Nesses casos, pode despertar um determinado estado de alerta e prontidão adequados, preparando a pessoa para lidar bem com os desafios que podem se apresentar. Quando ela está desregulada, atrapalha, há descontrole, deixa o indivíduo vulnerável, compromete o seu desempenho ou até o paralisa. Sintomas de taquicardia, sudorese, tremor, falta de ar, náusea e vertigem, por exemplo, costumam ser representações de uma ansiedade fora do tom que, nesses casos, pede atenção. Se na hora da prova esses sintomas ensaiarem aparecer, sugiro que o concurseiro coloque literalmente os dois pés no chão, em prol de buscar centramento, assim como buscar respirar profunda e lentamente.

Legenda: Marília Coelho: a ansiedade é uma emoção natural, que entra em ação sempre que se avalia e se considera uma situação de possível risco potencial.
Foto: Flávio Cardoso

Os concurseiros às vezes fazem a prova uma vez, duas, e ainda não são aprovados na carreira que querem, o que pode gerar ainda mais ansiedade e frustração. Que orientações você dá a essas pessoas?
Em primeiro lugar, a consciência do objetivo e do possível preço do percurso a se trilhar são fundamentais. Às vezes a pessoa está há algum tempo nesse caminho, mas não conta, por vezes, com a dedicação e as estratégias necessárias. Se não há técnica de estudo, estratégia de prova, autoconhecimento e autocuidado, peço que se convoquem a mais compaixão consigo – uma vez que não havia terreno fértil para resultados de aprovação – e, ao mesmo tempo, a mais autorresponsabilidade, em prol de ajustar o que for preciso e tomar as rédeas efetivas desse propósito. Em seguida, creio que fazer memória das próprias conquistas de vida e reconhecê-las pode colocar o sujeito de frente com os momentos significativos em que ele alcançou resultados de fato. Das situações mais simples às mais complexas, tanto na vida pessoal, como na profissional. Isso pode, de certa forma, favorecê-lo a um determinado resgate da sua autoestima, com o reencontro de seus alcances já efetivados ao longo da vida.

Que outras orientações podem ser trasmitidas aos concurseiros?
Convido-os a algumas reflexões: você consegue se enxergar lá do outro lado? Sendo aprovado, sendo convocado, trabalhando efetivamente no cargo? Você se considera verdadeiramente merecedor dessa conquista? Às vezes uma parte do indivíduo diz que sim, em contrapartida, algumas crenças menos conscientes podem reverberar no não: no não merecimento, no não sair da sua zona familiar ou até da sua cidade (a depender), no medo dos desafios da responsabilidade e das atribuições do cargo na prática. Alguns desses aspectos podem ser sutis e muito discretos, mas também podem interferir de alguma forma para o fluir dessa aprovação.

DURMA BEM
A higiene do sono, citada pela psicóloga Marília Coelho, é um conjunto de hábitos que favorecem um sono mais reparador. Essas ações envolvem tornar o ambiente onde se vai dormir mais aconchegante, com menos estímulos, menos iluminação também; reduzir estímulos visuais e auditivos (evitar televisão e muito barulho, por exemplo, antes de dormir; não ficar exposto a uma iluminação tão forte antes de dormir); às vezes alimentação mais leve antes de dormir ou não comer tão perto da hora de se deitar; às vezes tomar um banho morno, que ajuda a relaxar o corpo. "São hábitos que favorecem o relaxamento e a quietude, preparando o corpo para o descanso", reforça a profissional.