Baixa adesão aos atos de 12 de setembro reflete dificuldade de diálogo na oposição a Bolsonaro

Segundo analistas, apesar da convergência em torno do impeachment, a diferença ideológica entre movimentos e partidos dificulta a unificação

Manifestação 12 de Setembro
Legenda: Mobilizações contra o presidente Bolsonaro esbarram na dificuldade de diálogo entre a oposição
Foto: AFP

Protestos contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), realizados no domingo (12), reuniram representantes de movimentos políticos e partidos - principalmente de centro e de direita. Contudo, sem a adesão de legendas de esquerda como PT e Psol, as mobilizações acabaram sendo pouco expressivas. Para analistas políticas entrevistadas pelo Diário do Nordeste, isso reflete a dificuldade de diálogo entre os diferentes grupos que formam, hoje, a oposição ao presidente. 

A tentativa de unificação dos atos em torno da pressão pelo impeachment de Bolsonaro acabou atravessada por diferenças ideológicas e eleitorais. Anteriormente, o ato do dia 12 de setembro foi puxado sob o lema de "Nem Bolsonaro, nem Lula", que acabou não sendo abandonado por muitos manifestantes que foram às ruas.

Nos próximos dias, entretanto, partidos e movimentos de esquerda, centro e direita voltam a dialogar para tentar unificar as agendas em outro protesto contra o Governo. Entre as datas possíveis para a manifestação conjunta está o 15 de novembro, data da Proclamação da República. Siglas e grupos de esquerda também querem mobilizar um ato já para o dia 2 de outubro. 

A dificuldade para esta unificação está nas diferenças existentes dentro do campo de oposição - que reúne, por vezes, lados antagônicos do espectro político. 

"Já ocorreram atos antibolsonaristas em que atores de centro estiveram presentes. Agora, a direita está chegando nesse bonde do impeachment. Vamos ver se eles estão dispostos a construir, com a esquerda, esse pacto de não agressão".
Monalisa Soares.
Professora da UFC e coordenadora do Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia (Lepem-UFC)

Dificuldade de diálogo

Este não foi o cenário da manifestação do 12 de Setembro. Apesar de lideranças políticas terem prometido um ato unificado em torno do pedido de impeachment contra Bolsonaro, nas ruas era visível um movimento contrário também ao ex-presidente Lula e ao PT. 

Pixuleco
Legenda: Críticas ao ex-presidente Lula afastaram partidos e movimentos de esquerda dos atos deste domingo (12)
Foto: AFP

"Excluíram parte da esquerda que é contra Bolsonaro, mas não contra Lula.  É difícil imaginar o PT ou movimentos ligados ao PT indo a uma mobilização que os excluí", exemplifica a professora de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Monalisa Torres. 

Na Avenida Paulista, em São Paulo, um pixuleco levantado no domingo, por exemplo, mostrava o ex-presidente Lula com roupa listrada - associada à usada por presidiários - amarrado a Bolsonaro, que usava uma camisa de força. 

Em outras capitais, também foram exibidas faixas e cartazes com frases como "Nem Bolsonaro, nem Lula" - lema que havia sido abandonado após acordo entre lideranças políticas em busca de ampliar a adesão ao ato. 

"E isso deu uma justificativa para os petistas e os setores de esquerda que não compareceram", explica Monalisa Soares. No entanto, esta “dificuldade de adesão é mútua”, acrescenta. Pesquisa realizada por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) apontou que 38% dos que estavam nas ruas no domingo não participariam de manifestação junto com o PT. 

"Esse é um problema das manifestações contrárias a Bolsonaro: ainda não é algo abraçado de forma ampla. Os grupos contra Bolsonaro não largam as suas bandeiras, então não conseguem um acordo em torno da pauta que pode unificá-los". 
Monalisa Torres
Professora de Teoria Política da Uece

Outras questões também são apontadas pelas analistas políticos como obstáculos para uma adesão maior ao ato de domingo.

Entre elas, o fato de o protesto ter sido convocado por movimentos políticos como o Movimento Brasil Livre (MBL) e o Vem para a Rua - que apoiaram Bolsonaro durante a campanha de 2018, além de terem como bandeiras pautas semelhantes às defendidas pelo presidente Bolsonaro e seus apoiadores. 

Tentativa de terceira via

Além disso, elas também pontuam que o pouco tempo de mobilização e a realização de dois atos na mesma semana também causaram dificuldades de adesão. Antes da manifestação de domingo, ocorreu o Grito dos Excluídos, no dia 7 de setembro. 

"(E também) a ausência de lideranças. Pessoas que convocassem as suas bases, suas militâncias para participar desse evento. Talvez, o público que ia aderir a uma manifestação dessa natureza, é um público que ainda não está disposto a ir para a rua", acrescenta, por sua vez, a cientista política e professora universitária Carla Michele Quaresma.

Ela se refere a um público que se volta à possibilidade de uma terceira via, mas que "talvez não combine muito com essa lógica de manifestação", aponta. Inclusive, entre as principais lideranças políticas presentes nos atos de domingo, estiveram nomes apontados como pré-candidatos à presidência da República, em 2022. 

Na Avenida Paulista, por exemplo, estiveram presentes os presidenciáveis João Doria (PSDB), Ciro Gomes (PDT), Simone Tebet (MDB) e Alessandro Vieira (Cidadania), que defenderam a aproximação entre diferentes grupos do espectro político. 

O saldo, inclusive eleitoral, dos atos para estas figuras ainda é "difícil de mensurar", aponta Monalisa Torres. Contudo, a baixa adesão aos protestos mostra "a dificuldade da terceira via em aglutinar" a população em torno de uma pauta comum. 

"A baixa adesão é ruim para a terceira via, porque, de algum modo, (eles) se associam a um ato esvaziado. Mostra a dificuldade de mobilizar uma base social para estar nas ruas", concorda Monalisa Soares. 

Segundo as pesquisadoras, para alguns nomes, a participação poderia trazer benefícios. Ciro Gomes, dentre os que estiveram presentes, se apresenta como a opção de terceira via com maior indíce nas pesquisas de intenção de voto divulgadas até o momento, mas eventual ganho esbarra no tamanho dos atos. 

"Para o Ciro seria interessante, para se aproximar desses grupos e poder reverter em capital político, mas o público não compareceu", conclui Carla Michele Quaresma.  


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