Reta final da campanha deve acirrar embates e envolver lideranças

A menos de duas semanas para o primeiro turno da eleição, marcado para 15 de novembro, analistas políticos projetam também que o corpo a corpo com o eleitor deve se intensificar, mesmo com medidas duras contra aglomerações

Urnas Eletrônicas
Legenda: A menos de duas semanas para o primeiro turno, os candidatos ao Paço Municipal traçam as últimas estratégias eleitorais
Foto: Fabiane de Paula

A menos de duas semanas para o primeiro turno da eleição municipal, os candidatos traçam as últimas estratégias para convencer o eleitor e tentar avançar ao possível segundo turno do pleito. Num cenário dividido em dois “pelotões”, segundo a mais recente pesquisa Ibope de intenção de voto, três candidaturas aparecem como mais competitivas quanto às vagas de eventual segunda etapa da disputa eleitoral, mas a corrida contra o relógio para tentar pontuar mais é geral. Sociólogos e cientistas políticos analisam os próximos dias de campanha como um período de maior acirramento entre as candidaturas e projetam que a atuação de lideranças políticas deve se intensificar na disputa pela Prefeitura de Fortaleza.

O cenário é também delicado diante da pandemia de Covid-19. Para analistas políticos, as aglomerações políticas devem permanecer em evidência, visto que a reta final da campanha tende a mobilizar mais candidatos e eleitores nas ruas. A tendência, porém, está no radar da Justiça Eleitoral, que estabeleceu multa para coibir eventos que favoreçam a disseminação do novo coronavírus.

Na avaliação da cientista política e professora universitária Carla Michele Quaresma, as eleições deste ano são atípicas por causa do encurtamento da campanha eleitoral. Por isso, algumas práticas comuns acabaram sendo antecipadas. “Já vimos no primeiro momento uma disputa muito focada na propaganda negativa”, aponta. Segundo ela, tal estratégia tem sido notada com mais frequência em duas cantidaturas – a de Capitão Wagner (Pros) e a de Sarto Nogueira (PDT) –, que vêm atuando, diz Carla Michele Quaresma, “no sentido de desconstruir a imagem dos potenciais rivais no segundo turno”. 

Embates
Na propaganda em rádio e televisão, a campanha tem sido marcada por constantes trocas de farpas entre Pros e PDT. A campanha pedetista também direcionou artilharia contra a candidatura petista, de Luizianne Lins, que tende a revidar nos próximos dias. Um dos coordenadores da campanha do PT, o deputado federal José Guimarães disse nos últimos dias que a campanha do partido foi reposicionada e, agora, “bateu, levou em dose dupla”. 

Para o também cientista político Cleyton Monte, pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia (Lepem) da Universidade Federal do Ceará (UFC), na reta final da campanha deve haver um maior acirramento entoado a partir de uma série de críticas, em especial por causa da proximidade numérica entre Sarto Nogueira e Luizianne Lins de acordo com as últimas pesquisas eleitorais.

Segundo Carla Michele Quaresma, os ataques tendem a ficar cada vez mais agressivos, especialmente porque é o momento de “buscar o voto dos indecisos – e isso constrói muito a desqualificação do opositor”, analisa, ao passo que acrescenta a necessidade de esses candidatos apostarem nas mídias sociais nessas duas últimas semanas a fim de atingir o público mais jovem. “Para muitas pessoas, a política não é algo interessante, e somente no momento da reta final é que percebe que vai ter que decidir”, pontua. 
Contudo, na avaliação da pesquisadora, as mídias sociais devem continuar sendo utilizadas, sobretudo, para dar visibilidade à campanha de rua, a qual não se imaginava que seria tão forte, diante da pandemia. 

Analistas políticos projetavam, antes do início da campanha, que as plataformas digitais seriam utilizadas de formas diferenciadas para suprimir as atividades de rua, mas, conforme aponta Carla Michele, “tivemos uma campanha muito semelhante a campanhas anteriores, com carreata, passeata, comício, corpo a corpo muito intenso e as técnicas que imaginávamos que seriam utilizadas por causa da necessidade de intensificação das redes sociais acabaram meio frustradas”.

Tempo
Na visão da cientista social, porém, é difícil que os candidatos do “segundo pelotão” das pesquisas alcancem a intenção de voto dos demais, especialmente por causa do encurtamento da campanha. “Não tem como usar esse período para se tornar conhecido e depois disso ganhar essa adesão que se substancia no voto”.

Já as candidaturas que lideram as pesquisas tendem a apostar em diferentes estratégias. Para o sociólogo da Universidade Federal do Ceará (UFC), Jonael Pontes, a campanha de Luizianne Lins tem investido na ideia de que é a única opção que tem projeto para a população mais pobre da Capital. “Ela vai investir nas mídias sociais, utilizando o Lula, e contra-atacando as críticas dos adversários. Vai levantar a bandeira de proximidade, sobretudo, com as classes mais populares”, projeta. 

Líder nas pesquisas, Capitão Wagner (Pros) deve, segundo o sociólogo, alimentar críticas contra os adversários e apresentar propostas que não estejam ligadas diretamente à segurança pública. Para Jonael, a artilharia do militar reformado deverá ser dividida na reta final da campanha. “É sabido que é importante que os candidatos não dediquem toda a energia apenas para atacar os adversários, é preciso que apresente um projeto”. 

Já o candidato do Governo, Sarto Nogueira (PDT), que tem reafirmado aproximação com o prefeito Roberto Cláudio (PDT) e com o governador Camilo Santana (PT), mesmo sem poder utilizar a imagem do petista na campanha, deve também manter as críticas aos adversários, aponta Jonael Pontes. “A gente não pode esquecer dentro dessa disputa política o conflito que existe entre o grupo dos Ferreira Gomes e a Luizianne”, lembra o pesquisador.

Corpo a corpo

Diante do tempo curto de campanha, porém, a saída a ser buscada pela maioria dos candidatos, conforme Carla Michele Quarema, é o investimento no ato público de rua. Para ela, embora o Ministério Público do Ceará (MPCE) tenha endurecido medidas em relação às aglomerações promovidas por candidaturas, o corpo a corpo com o eleitor deve se intensificar, com a utilização de cabos eleitorais e da militância dos partidos. E, na busca por apoio, as lideranças partidárias devem assumir a frente e sair com mais frequência às ruas para pedir voto aos seus apoiados. 

Cleyton Monte avalia que Sarto Nogueira, por exemplo, deve apostar na figura de Camilo Santana e nas pessoas próximas ao governador. Já Luizianne Lins, de acordo com o cientista político, deve usar mais ainda a figura do ex-presidente Lula e também do chefe do Executivo Estadual, enquanto para Capitão Wagner pode variar nas estratégias de mostrar o apoio do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). “Ele trabalha esse apoio de forma privada para grupos específicos, mas não compensa fazer disso uma mensagem geral porque isso pode afastar determinados grupos”, pondera. 

 

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