Políticos e instituições reinventam atuação em meio a transformações digitais

Plataformas e linguagens relacionadas à internet aproximam figuras públicas de suas bases e abrem novas possibilidades para o poder público. Pandemia ampliou a presença da tecnologia nos processos políticos, inclusive no Ceará

Em meio à pandemia, sessões no Congresso passaram a ser remotas
Legenda: Em meio à pandemia, sessões no Congresso passaram a ser remotas
Foto: Divulgação/Agência Senado

Com mudanças que atingiram as relações sociais, a economia, os esportes e a saúde mundial, o ano passado marcou também transformações no modo de fazer política. Em 2020, o avanço no mundo digital, que já caminhava a passos largos, acelerou em meio à pandemia de Covid-19, segundo consultores políticos e parlamentares. Eles apontam que, se em 2018 as arenas digitais surpreenderam a política brasileira, em 2020, esses espaços ganharam protagonismo, seja durante a campanha ou no cotidiano das instituições.

A cientista política Monalisa Torres, professora de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará (Uece), aponta “marcos” que indicam a adaptação da política aos novos espaços.

"A eleição de Barack Obama, em 2010, nos Estados Unidos, foi um sinal muito forte do que estava por vir. Em 2018 isso ficou mais expressivo e se tornou um marco, porque ficou notável como as redes sociais influenciaram a eleição (no Brasil)”, aponta.  

Segundo a cientista política, era esperado que em 2020 houvesse um protagonismo maior das redes sociais na política, mas, com a pandemia, o destaque foi maior. “É interessante notar que até nas candidaturas tradicionais, em municípios do interior, havia perfis de campanha. Os candidatos usaram os espaços virtuais”.

Consultor em marketing político, Leurinbergue Lima reforça a avaliação e destaca a velocidade com que isso ocorreu. “Foi muito rápido e impressionante como aproximou o político de um número maior de pessoas. Todos são quase que obrigados a ter redes sociais, a mostrar o que estão fazendo, prestar contas. Antes, era difícil ter esse tipo de acesso aos políticos”, ressalta.

Em busca do eleitor  

Pesquisas recentes indicam que, além da pandemia – que limitou a circulação dos candidatos –, a busca dos políticos pela internet ocorre em resposta ao comportamento do eleitorado. De acordo com dados fornecidos por plataformas de mídias sociais, o impulsionamento de conteúdo nas redes sociais em 2018 ocupava, no Brasil, o 9º maior destino de gastos dos candidatos. Em 2020, virou o sexto maior.   

Ainda no ano passado, pesquisa realizada pelo Instituto Ibope, encomendada pela TV Verdes Mares, mostrou que 30% dos eleitores de Fortaleza declaravam usar as redes sociais como fonte de informações. No levantamento, divulgado em 3 de novembro, sites e portais de notícias foram apontados por 35% dos entrevistados como fonte de informações.  

Para Leurinbergue Lima, o espaço, se bem usado, traz ganhos para a população e aproxima os políticos de suas bases. Ele observa, ainda, que a pressão que emerge da internet influencia a postura dos representantes.

“Fazemos essa métrica e os políticos querem sentir como está a temperatura nas redes. Não chega a influenciar a tomada de decisão, mas define a postura, se vão discursar e defender aquele posicionamento, se vão ficar calados, ser mais discretos”.   

“A internet entra como um espaço de debate que não pode ser desprezado. Gosto de olhar como um copo meio cheio, vejo como um espaço democrático, onde todos se sentem à vontade, e, a partir disso, vemos novos protagonismos que em outros modelos de construção política talvez não tivessem a mesma visibilidade”, acrescenta Monalisa Torres.  

Novas possibilidades 

Decano da Câmara de Fortaleza, o vereador Carlos Mesquita (PDT) conta que viu a necessidade de “se modernizar” na campanha do ano passado. Aos 65 anos, e em meio à pandemia, as redes sociais apareceram como possibilidade para o parlamentar. “Embora não leve muito jeito, estou sendo obrigado pela forma como a política está se apresentando, vou ter que entender esse novo mundo”, admite. 

“Fiz umas ‘lives’ que fizeram sucesso, um vídeo que postamos rendeu mais de 50 mil visualizações. Eram coisas que nem queria fazer, me convenceram e fiquei feliz com o resultado. Acho que vou virar um velhinho antenado”, brinca. Ele ressalta que alguns dos novos vereadores de Fortaleza têm “muita força na internet”. “Meu perfil de eleitorado é sentar na calçada, fazer ação social em bairro”, cita. 

Novas caras  

Sessões na Câmara também passaram a adotar espaço virtual. Posse dos novos vereadores ocorreu de forma híbrida
Legenda: Sessões na Câmara também passaram a adotar espaço virtual. Posse dos novos vereadores ocorreu de forma híbrida
Foto: Reprodução

Exercendo o primeiro mandato parlamentar, o vereador Gabriel Aguiar (Psol) reconhece o alcance que as mídias sociais dão ao mandato.

“Para a gente ecoar, ter engajamento, chegar às pessoas, há um potencial maior sendo mais digital. Nas ruas, com uma semana de ação, conseguimos três mil assinaturas em um abaixo-assinado. Com um vídeo, o mesmo abaixo-assinado chega a 40 mil em um dia”, aponta. 

Depois de eleito, ele aponta que o espaço continua sendo a principal plataforma de comunicação com a população. “Sem dúvidas, as redes sociais são uma plataforma de democratização e participação no mandato”, reconhece. 

Nas últimas eleições municipais, a disputa pela Prefeitura de Fortaleza ganhou destaque no País pelos investimentos em propaganda nos espaços digitais. Três candidatos da Capital lideraram o ranking nacional de gastos com impulsionamento de conteúdo nas redes sociais.  

Após o primeiro turno, José Sarto (PDT), Capitão Wagner (Pros) e Célio Studart (PV) eram os únicos candidatos do Brasil com investimentos superiores a meio milhão de reais nas plataformas virtuais. À época, Wagner liderava, com R$ 748 mil. Sarto vinha em seguida, com R$ 630 mil. Já Célio Studart (PT) tinha gastado R$ 563 mil. 

Do digital para o tradicional 

Para a cientista política Monalisa Torres, outra evidência da força da transformação digital na última eleição foi a influência sobre outras mídias. “Se olharmos o formato mais tradicional de campanha, o horário gratuito de propaganda eleitoral (na televisão), tivemos peças em que o roteiro era muito semelhante à linguagem da internet, foi algo que contaminou positivamente um expediente que sempre foi muito tradicional”. 

Alguns candidatos a prefeito de Fortaleza adotaram recursos das redes sociais na propaganda eleitoral
Legenda: Alguns candidatos a prefeito de Fortaleza adotaram recursos das redes sociais na propaganda eleitoral
Foto: Reprodução

A analista ressalta também as mudanças que a pandemia acelerou não só nas disputas eleitorais, mas também no funcionamento das instituições. 

“A própria atuação do Legislativo mudou, por exemplo. Tiveram que adotar o regime de trabalho remoto, isso foi incorporado, o plenário virou remoto, as atividades legislativas passaram a ser realizadas a distância”, ressalta.  

A influência da pandemia

Medidas do tipo foram adotadas diante da primeira onda de Covid-19 no País. Em 25 de março de 2020, a Câmara dos Deputados fez a sua primeira sessão virtual de votações. Além dos impactos sanitários, a medida trouxe  benefícios financeiros. O Diário do Nordeste mostrou em janeiro deste ano que os deputados federais do Ceará economizaram mais de R$ 3 milhões da cota parlamentar ao longo do ano anterior.

Parlamentares apontaram, à época, a possibilidade de trabalhar remoto ou em formato híbrido como responsável pela redução de gastos. Alguns defendem que a medida vire permanente na Casa Federal. Um dos defensores da mudança é o líder da bancada, o deputado Genecias Noronha (SD).  

No Ceará, sessões da Assembleia também ocorreram de forma remota
Legenda: No Ceará, sessões da Assembleia também ocorreram de forma remota
Foto: Reprodução

No Ceará, durante a pandemia, servidores públicos federais, estaduais e municipais do Executivo, do Legislativo e do Judiciário também adotaram trabalho remoto. No caso do Legislativo estadual, a Assembleia foi a primeira no País a realizar uma sessão virtual, em 19 de março do ano passado, e pioneira no desenvolvimento de ferramenta própria para viabilizar votações secretas remotas.

Na última quinta-feira (25), o presidente da Assembleia, Evandro Leitão (PDT), afirmou ao Diário do Nordeste que não descarta a retomada das atividades exclusivamente remotas. A medida já foi aplicada pelo Tribunal de Justiça do Ceará, que decidiu prorrogar o trabalho remoto obrigatório no Poder Judiciário até o dia 31 de maio.

Tecnologia atrelada a uma cobertura política multiplataforma 

Enquanto políticos se adaptam à realidade digital, o jornalismo especializado na área também explora outras plataformas para acompanhar o cotidiano dos poderes. No último dia 18 de fevereiro, o Diário do Nordeste, empresa do Grupo Edson Queiroz, lançou novos produtos digitais que vão compor o portfólio de conteúdo e mídia.  Na área de política, o destaque ficou por conta do PontoPoder, espaço multiplataforma que acompanha as últimas informações e os bastidores da política. 

PontoPoder reúne, em diversas plataformas, informações sobre a política cearense
Legenda: PontoPoder reúne, em diversas plataformas, informações sobre a política cearense
Foto: Kid Júnior

Discussões mais aprofundadas e analíticas são levadas para o podcast PontoPoder Cafezinho, que traz ainda comentários sobre repercussões das eleições, decisões do Legislativo e bastidores do dia a dia político encapsulados em poucos minutos de programa.

Durante as últimas eleições, a cobertura especializada chegou também à TV Diário, com o PontoPoder Eleições. O programa, além de acompanhar a agenda dos candidatos, trouxe quadros para informar aos eleitores sobre as funções dos agentes públicos, explicou como funciona o sistema eleitoral, prezando por uma linguagem dinâmica, ágil e segura.

Com transmissão simultânea na TV Diário, no canal Ponto Poder do Youtube e nas plataformas digitais do Diário do Nordeste, o jornalístico deve voltar ao ar neste ano.  

“No momento em que o mundo faz essa migração de tecnologias, o jornalismo político está inserido neste processo. Nós, no Diário do Nordeste, já estamos há um tempo experimentando novas ferramentas e o bom exemplo disso é o PontoPoder, um produto multiplataforma, com uma linguagem que aproxima o campo da política do leitor, do espectador, do ouvinte”, destaca Inácio Aguiar, editor de Política do Sistema Verdes Mares.

O diretor Comercial e Marketing do Sistema Verdes Mares, Erick Picanço, ressalta que a cobertura do PontoPoder Eleições, em 2020, teve como foco a prestação de serviços para o eleitor. “Agora, seguimos como uma plataforma de acompanhamento da gestão, de todos os três poderes, e com uma visão mais analítica”, afirma.

A ideia, completa ele, é ampliar a abrangência de cobertura para outros estados, “sempre com a perspectiva de fazer o acompanhamento político, buscar especificidades, um serviço para a sociedade”.

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