Menos troca de favores e mais diálogo são exigências após eleições

Representantes comunitários compartilham anseios por implementação de políticas públicas voltadas à redução da desigualdade social em Fortaleza e à necessidade de diálogo constante com vereadores e prefeito

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Legenda: Moradoras das comunidades de Fortaleza esperam um novo tipo de relação com os vereadores
Foto: Camila Lima

Os sinalizadores de desigualdades sociais persistem e mostram os desafios da Fortaleza que se divide entre diferentes demandas, mas se une em mobilização comunitária na reivindicação por melhoria da qualidade de vida. Quem forma essas redes de moradores, alvo do interesse das campanhas eleitorais no Município, indica a relevância da ampliação da oferta de saúde e de educação, distribuição de renda, além de políticas para redução da violência que atinge com mais força mulheres e pessoas negras. Ouvir os anseios da população, como defendem representantes de bairros, não pode ser mais algo pontual.

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“Nas campanhas, para os vereadores, as lideranças comunitárias têm, muitas vezes, esse papel de fazer articulação entre os candidatos e candidatas e às comunidades ao organizar as demandas, apresentar as candidaturas e levar aos candidatos. Além de fazer isso, ir construindo essa relação ao longo dos mandatos, e isso é algo muito importante”, explica Monalisa Soares, professora da Universidade Federal do Ceará (UFC) e pesquisadora do Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia (Lepem). Por isso, os olhos da população estão mais ativos, como observa a representante comunitária Sâmia Alves, de 24 anos, do bairro Floresta, onde foram eleitos os dois vereadores mais apoiados pelos moradores.

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“A comunidade está mais atenta na questão dos direitos, e a expectativa é não ser muito (o foco) essa questão do assistencialismo, mas de conhecer os seus direitos. É tanto que alguns candidatos, que fizeram campanhas aqui no bairro, trabalharam muito com (propostas) de garantia de direitos”.

Quem recebeu a confiança da população do local deve buscar soluções para os desafios de oferta de saúde e de segurança no bairro. “Saúde é um ponto principal, porque nós temos dois postos de saúde mais próximos, mas por questões de violência eles estão com mudanças. Tem gente da minha rua que não pode ir no posto por questão do território (dividido por organizações criminosas)”.

Sâmia define como “participação mais empoderada” as cobranças do eleitorado e dos representantes comunitários aos ocupantes dos cargos públicos para efetivação das ideias que os levaram ao poder. 

“Apesar da pandemia, alguns candidatos vieram aqui para apadrinhar projetos que já vinham sendo trabalhados pelas lideranças. Alguns candidatos não vieram na comunidade, foram diretamente nas lideranças, e alguns projetos - que já eram trabalhados - eles quiseram pegar como se fossem deles, mas a comunidade estava bem ativa nesse processo e conseguiu realmente dialogar”, pondera.

Força conjunta

Paul Almeida, 38 anos, presidente da Associação de Moradores da Serrinha, diz ter sido desafio para a comunidade depositar votos de confiança neste pleito gerando, assim, a necessidade de debater propostas contrárias às necessidades de quem mais precisa. “A Associação de Moradores, com os movimentos sociais e coletivos - que se organizaram sobretudo no período da pandemia -, apresentou os candidatos que mais representavam os anseios da comunidade”.

No radar do grupo estão questões como os impactos da especulação imobiliária e da participação na renovação do Plano Diretor de Fortaleza. “A nossa expectativa, as lutas e as pautas concretas do bairro são a questão dos direitos sociais, da renda básica, que vão ser um grande desafio nesse contexto de pandemia, do desemprego muito grande”, completa o representante.

Todavia, os problemas urbanos não estão centralizados em uma única localidade e são comuns a diversas periferias da Capital. Fato que exige articulação também entre comunidades. “Pautar os mandatos para que a gente consiga emendar, transformar mandatos populares, entendendo também que o bairro está no contexto de cidade. Ao mesmo tempo em que a gente luta por pautas específicas, a gente vai estar em coletivo”, conclui Paul.

Atenção específica

Um questionamento na mente de muitas fortalezenses diz respeito às políticas públicas focadas no público feminino, como acompanha a mobilizadora social Silvânia Vieira, do Movimento Orquídeas, no Parque Santana, no Mondubim. 

“A gente percebe como mais urgente, na nossa comunidade, a educação para os nossos filhos. Nós temos uma creche que foi uma conquista, no orçamento participativo, na luta do movimento das mulheres da comunidade”, destaca ela.

Para Silvânia, o momento é de refletir, mesmo que na escala municipal, sobre o rumo do País. Ela avalia que as eleições de vereadores e prefeito fazem parte de um movimento e que este deve focar na redução dos crimes contra mulheres e em investimentos para elas. “As nossas vidas não têm preço e, muitas vezes, estamos morrendo por omissão do poder público. O que foi feito pela vida das mulheres e contra o feminicídio?”, questiona.

A mobilizadora social avalia que existem muitas propostas de grupos organizados na Capital, mas que ainda não são ouvidos quanto às suas reivindicações. “Não é calçamento e asfalto que fazem o desenvolvimento pleno de uma comunidade, mas existe um potencial muito maior que todos que vão trabalhar em campanhas precisam ver nas comunidades”, cobra. Silvânia destaca que a cidade não pode funcionar em uma lógica de “troca de favores”, que a próxima gestão deve abranger com efetividade as necessidades do que ela considera essencial para a construção de espaço justo.

Comunicação

A pesquisadora Monalisa Soares indica que os candidatos eleitos devem conhecer seus apoiadores e as suas localidades, além de manter em mente as propostas divulgadas em campanha. “É muito importante que os mandatos possam construir canais de conexão e de comunicação mais efetivos com a população”.

Essa ponte pode ser realizada, como detalha, em políticas de comunicação por meio de assessores, realizações de reuniões comunitárias e pesquisas. “As lideranças são um ativo muito importante desse processo para que se desfaça esse sentimento, que o eleitorado, às vezes, tem com o Legislativo, de que são campanhas que só se veem de quatro em quatro anos”.

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