Manifestações políticas inspiram foliões e agremiações de Carnaval

Neste ano, desde o Pré-Carnaval, controversas frases de ministros de Jair Bolsonaro, e do próprio presidente, dividem as ruas com temas que abordam problemas estruturais da sociedade, como machismo, racismo e LGBTfobia

Foto: Foto: Arquivo Pessoal

"E tudo que os velhos tiranos/ Tiraram de nós/ Vai tudo de volta pro nosso gonga", cantam os brincantes do Maracatu Nação Fortaleza, enquanto desfilam na Avenida Domingos Olímpio. A uma distância de mais de dois mil quilômetros, membros da atual campeã da Sapucaí, Estação Primeira de Mangueira, entoam "Favela, pega a visão/ Não tem futuro sem partilha/ Nem Messias de arma na mão".

Uma canta o líder da Revolução da Chibata, o almirante negro João Cândido, invisibilizado pela narrativa que ainda deixa à margem grupos oprimidos. A outra aborda a figura de Jesus Cristo a partir dos corpos vulneráveis daqueles que são minorizados. Unidos pelo Carnaval, o maracatu cearense e a escola de samba do Rio de Janeiro juntam-se a outras dezenas de brasileiros que brincam o período momino sob a inspiração do momento político vivido no País.

"Nós valorizamos a presença do pensamento político dentro de uma agremiação carnavalesca", explica Calé Alencar, compositor da loa que acompanha o Maracatu Nação Fortaleza em 2020. "Como você pode ser artista sem ser político? Não há como. Ainda mais nesse Brasil de agora, em que a gente está sendo engolido por essa onda conservadora", enfatiza.

Foto: Arquivo Pessoal

Pelo segundo ano, a ala Marielle Franco, em menção à vereadora carioca assassinada em 2018, faz parte do desfile do Nação Fortaleza. Se em 2019, quando o maracatu foi campeão do grupo de acesso no Carnaval de Fortaleza, a faixa que abria a ala indagava "Quem matou Marielle?", em 2020 virá a pergunta: "Quem mandou matar Marielle?"

A figura de Marielle Franco também esteve presente no samba-enredo campeão em 2019 da Mangueira. O tema político é repetido pela escola de samba, mas ela não é a única a tomar esta inspiração. Oito das 13 agremiações que desfilam na Sapucaí trazem temáticas relacionadas ao cenário político neste ano.

"Não é um fato novo. A origem do Carnaval vem da sátira, seja aos costumes seja ao próprio debate político do momento", lembra o cientista político Cleyton Monte. O pesquisador explica que o crescimento da presença da temática nos carnavais ocorre depois que o festejo se torna também alvo de grupos conservadores. "Carnavalescos começaram a ver nos enredos a oportunidade de se manifestar criticamente, principalmente neste momento de polarização e de guerra cultural", afirma.

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Pautas

Os temas são diversos. A Portela, por exemplo, faz uma crítica direta ao presidente Jair Bolsonaro e ao prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella. "Nossa aldeia é sem partido ou facção/Não tem bispo, nem se curva a capitão", diz o samba-enredo da agremiação. A São Clemente também menciona, no samba, episódios bem recentes da história brasileira, como a Operação Lava Jato, os "marajás em Bangu", a "mamata" e as candidaturas laranjas. "Brasil, compartilhou, viralizou, nem viu/E o País inteiro assim sambou/ Caiu na fake news", diz trecho do samba-enredo.

Para Monte, a tendência da inspiração carnavalesca nos episódios políticos deve continuar em crescimento, porque "encontra acolhida na população. A sociedade criou uma empatia com essa forma de se manifestar culturalmente", justifica o pesquisador.

Há ainda lutas políticas que se organizam em forma de batuque carnavalesco. É assim para as mais de 50 integrantes do Bloco Cola Velcro. Criado em dezembro de 2017, o grupo se apresenta na Capital desde o Carnaval do ano seguinte com o objetivo de criar um espaço seguro para mulheres, livre de assédios e também dos preconceitos que circundam a vida das mulheres lésbicas e bissexuais.

"O Carnaval é um momento de festejar, acho que para todo brasileiro. E para a gente é o momento de levantar as nossas bandeiras de luta. De falar não ao machismo no Carnaval. Não à lesbofobia e à bifobia. A gente caminha com estas pautas e se encontra no momento do bloco", explica a educadora social Deyse Mara, integrante do coletivo.

Nas ruas

Este também é o quinto ano em que o grupo de amigas de faculdade da socióloga Pryscilla Martins combina entre si fantasias desde o Pré-Carnaval. Há dois anos, a política entrou na roda de conversa como inspiração. "Se você me perguntar em qual dia a gente decidiu, não vou saber. Foi uma demanda natural, porque todo Carnaval é político, então não tinha como fugir desses temas", conta.

Dentre as fantasias utilizadas por elas, a inspirada na "Ursal" - vinda de uma fala de Cabo Daciolo, durante a campanha eleitoral de 2018 - e a de "ditadura gayzista" - uma das fake news que já circulavam antes mesmo das últimas eleições. "A gente vive tanta opressão, tanta dificuldade, que acreditamos que estar na rua e fazer o deboche é um jeito de expurgar tudo isso e conseguir viver a vida depois do Carnaval", acredita Martins.

Iniciativa individual

As festas de 2020 também têm sido marcadas por inspirações em frases do presidente Jair Bolsonaro ou de ministros. Enquanto a empregada doméstica a caminho da Disney, surgida de uma fala do ministro da Economia, Paulo Guedes, dominava os blocos ainda no Pré-Carnaval, a professora universitária Paula Brandão preferiu se inspirar em uma das políticas públicas anunciadas pela ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves: a abstinência sexual.

Foto: Foto: Fernanda Siebra/Secultfor

"É para questionar a política pública pensada pela ministra", explica a docente ao citar a blusa "Quem deu, deu, quem não deu, não Damares", com a qual já desfilava no Pré-Carnaval cearense. "O Carnaval tem que dialogar com os temas atuais. Mesmo vivendo um momento de polarização, brincar com aquele que pode ser inclusive um adversário político pode levar as pessoas a refletir", explica.

"Trazer uma caricatura a partir de fantasias, músicas, de gritos de guerra e de frases é uma forma criativa de se manifestar. É se apropriar de uma situação tensa e transformar em humor. Isso é bem típico do brasileiro e ainda mais do cearense, que sabe fazer com ainda mais criatividade", considera Cleyton Monte.


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