Líderes dos Brics confrontam discurso de Trump e defendem políticas multilaterais

Os Brics são “a favor dos mercados abertos, contra o protecionismo e desempenham um papel estabilizador”, afirmou o presidente russo, Vladimir Putin

Escrito por Redação, politica@verdesmares.com.br

Política
Legenda: Líderes do Brics posaram na famosa escada, sem corrimão, do Palácio do Itamaraty
Foto: Foto: Alan Santos/PR

Os chefes de Estado dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) defenderam, ontem, em Brasília, que se supere os “desafios significativos” enfrentados pelo multilateralismo e se evite medidas “protecionistas” em referências implícitas à política comercial do americano Donald Trump.

“Continuamos comprometidos com a preservação e o fortalecimento do sistema comercial multilateral, com a Organização Mundial do Comércio em seu centro. É essencial que todos os membros da OMC evitem medidas unilaterais e protecionistas”, destacou a declaração final do bloco, que se reúne em plena guerra comercial entre EUA e China.

Na manhã de ontem, o presidente chinês Xi Jinping enfatizou a necessidade de combater o “protecionismo” e o “unilateralismo”, aludindo a aumentos nas tarifas impostas nos últimos meses por Trump a produtos chineses. 

Os Brics são “a favor dos mercados abertos, contra o protecionismo e desempenham um papel estabilizador”, afirmou o presidente russo, Vladimir Putin, em entrevista coletiva. “À medida que a situação mude no mundo, o papel e a importância dos Brics vão ganhar força, sem dúvidas”, acrescentou. 

Os mandatários, reunidos em Brasília, defenderam uma reforma do sistema multilateral, com instituições como ONU, OMC e FMI mais inclusivas e se comprometeram, entre outros, a implementar o Acordo de Paris. 

O presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, destacou que “o avanço econômico e social dos Brics”, depende de um apoio sustentado de seus países à “emancipação das mulheres em todos os âmbitos da sociedade”. 

A declaração final não cita a situação da Venezuela – um assunto que divide os integrantes dos Brics. Pequim e Moscou apoiam o presidente Nicolás Maduro, enquanto o Brasil está, com os EUA, entre os 50 países que reconhecem o líder opositor Juan Guaidó presidente interino do país. 

Outro assunto ignorado foi a situação da Bolívia, após a renúncia do presidente de esquerda Evo Morales. 

O governo de Moscou reconheceu Jeanine Áñez como presidente interina até que um novo presidente seja eleito, embora não considere a saída de Evo do poder como um “processo legítimo”. 

Pragmatismo 

Na cúpula de Brasília, Bolsonaro revelou um certo pragmatismo, ao se recusar a tomar partido na guerra comercial entre a China, seu maior parceiro comercial, e os EUA de Donald Trump, o principal aliado internacional do presidente de ultra-direita.

Bolsonaro disse que a China é cada vez mais parte do futuro do Brasil e prometeu aumentar e diversificar as relações comerciais com Pequim. 

E até o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que os dois governos estão falando sobre a possibilidade de uma área de livre-comércio. 

Durante a campanha eleitoral do ano passado, Bolsonaro acusou a China de querer comprar o Brasil, o que lhe valeu uma pressão dos setores de agronegócio e mineração, que precisam manter um bom relacionamento com Pequim. 

Xi previu “um futuro promissor” para as relações comerciais entre China e Brasil. Mas esta lua de mel entre os dois países terá seu teste mais difícil no ano que vem, com a seleção crucial da operadora de rede 5G no Brasil. 

Se o Brasil escolher a empresa Huawei, será uma afronta ao Governo Trump, que está em campanha mundial com seus aliados para impedir que o gigante chinês participe da implementação dessa tecnologia móvel de alta velocidade. 

A declaração final da 11ª Cúpula dos Brics foi divulgada, ontem, em Brasília. O documento prega a união dos cinco países do bloco em defesa de soluções multilaterais para conflitos, em dissonância com a Casa Branca

Atraso 

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, chegou ao Palácio do Planalto cerca de 45 minutos depois do previsto, na tarde de ontem, para uma agenda com o presidente Jair Bolsonaro.

Terrorismo

O premiê da Índia, Narendra Modi, defendeu, ontem, a realização de debates pelos países dos Brics sobre terrorismo, tráfico de drogas e crime organizado, assuntos que, segundo ele, contribuem para desacelerar a economia.

Foto oficial

A foto oficial da 11ª Cúpula teve ao fundo a famosa escada helicoidal, sem corrimão, que ocupa lugar de destaque no vão livre do térreo do Palácio Itamaraty, projeto do arquiteto Oscar Niemeyer e do engenheiro Joaquim Cardoso.