Entrevista: Danilo Forte quer ampliação de diálogo sobre investimentos em energia renovável no Ceará

Na liderança da Frente Nacional que discutirá o tema em Brasília, o cearense foi convidado pelo ministro do Meio Ambiente para coordenar a participação do Brasil na COP-26

Danilo Forte
Legenda: Deputado cearense puxa o debate sobre energia renovável no País c om a criação da Frente Parlamentar.
Foto: Agência Câmara

Aconteceu nesta quarta-feira (17) o lançamento da Frente Parlamentar pelas Energias Renováveis, em Brasília. A iniciativa, que teve adesão de mais de 200 parlamentares, é liderada pelo deputado federal cearense Danilo Forte (PSDB) com um objetivo central: abrir discussão em âmbito nacional sobre investimentos públicos e privados em energia solar e eólica, por exemplo, viáveis inclusive no Ceará, pelas condições climáticas.

Em entrevista ao Diário do Nordeste, Danilo Forte ressalta o diálogo a ser estabelecido com o Governo Federal pelo colegiado, e conta que foi convidado pelo ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) para ser um dos coordenadores da participação do Brasil na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas - COP-26, que ocorre em novembro, na Escócia. 

No grupo de oposição ao governador Camilo Santana (PT), ele também defende que a Frente Parlamentar construa uma boa relação com o Governo do Estado para contribuir para a implementação de tecnologias no Ceará.

O Estado, na avaliação do cearense, tem potencial para ser um dos grandes geradores de energia limpa, principalmente utilizando a força do vento e o a intensidade do sol. O que atrasa os investimentos, segundo ele, é a existência de burocracias que limitam o setor privado. 

Para o tucano, o País passa por uma mudança de mentalidade quanto às relações internacionais, e é preciso estabelecer uma imagem que vá além das queimadas na Amazônia, que repercutiram negativamente ao redor do mundo.

Leia os principais trechos da entrevista:

A instalação da Frente Parlamentar acontece em um momento oportuno diante da proximidade da COP-26, que deve debater esse tema das energias renováveis. Como o Congresso, a partir dessa iniciativa, pode contribuir com a forma como o Brasil vai se posicionar nesse debate? 

Acho que o mundo todo está preocupado com o meio ambiente, e se chegou à conclusão de que o grande problema é a emissão de gases. A raiz de tudo isso está na matriz energética.

Na Alemanha, em 2012, 50% da geração era de queima de carvão mineral e 25% era de energia nuclear. Após o desastre de Fukushima, já acabou a energia nuclear, não existe mais geração de energia nuclear na Alemanha. E a última térmica de carvão será fechada no ano que vem, ou seja: a Alemanha já mudou totalmente a matriz energética dela. E assim os exemplos vão ser seguidos. 

Como foi a aceitação dos parlamentares à proposta da Frente? 

Eu fiquei até surpreso. Vendo o potencial que temos, principalmente nós do Nordeste - que temos a capacidade de sermos o maior produtor de energia limpa do Brasil -, temos aí uma oportunidade muito grande. 

Comecei a conversar com os colegas deputados e percebi a necessidade de criar um movimento mais forte, mais sólido, para trazer esse movimento para dentro da Câmara. E em menos de duas semanas já tínhamos 212 assinaturas dos deputados colegas, querendo participar da Frente. 

O Brasil tem vivido uma crise internacional no que diz respeito à política voltada ao meio ambiente, especialmente no contexto da Amazônia. Há uma mudança de postura atualmente, algum diálogo com o Governo Bolsonaro sobre isso?  

A mentalidade é que está mudando. A gente está construindo um novo momento. Exatamente porque nós temos que mostrar que o Brasil não é só Amazônia, não é só queimada, que nós temos condição, inclusive, de diminuir as queimadas - um problema legal e um problema de ostensividade de fiscalização.  

Eu fui convidado pelo ministro de Ricardo Salles para ser um dos coordenadores da participação da representação do Brasil na COP-26. Exatamente porque nós temos que mostrar o outro lado da moeda. 

A principal resposta que o Brasil pode dar é exatamente em relação à energia limpa e renovável. E a presença dos três ministros (Bento Albuquerque, de Minas e Energia; Tereza Cristina, da Agricultura e o ministro Ricardo Salles, Meio Ambiente) no lançamento da Frente, simboliza exatamente esse diálogo que a gente quer construir. 

O que poderia ser diferente em relação a desempenho, economia e geração de emprego caso esse tipo de energia recebesse investimentos maiores no Ceará? Como é esse investimento hoje? 

Em 2015 eu coloquei uma emenda (parlamentar) minha para criar um curso de montagem e instalação de energia fotovoltaica, que é energia solar, no IFCE (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará)  da Caucaia. De lá para cá, todos os meninos que saem de lá saem empregados e ganhando mais do que o dobro da média salarial do Estado do Ceará, que chega a R$ 2 mil.  

Alguns desses meninos viraram empresários, eles já montam empresa e vão implantando energia solar pelo resto do Ceará. Isso dá uma dimensão: de todos os municípios do Nordeste que têm impacto de energia eólica e solar, há uma melhoria do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) que varia de 12% a 25%.  

Nós podemos ter um aproveitamento muito grande de um solo que não dá para agricultura, mas que dá para energia. E aí você traz um valor agregado de desenvolvimento e geração de emprego e renda. 

Danilo Forte
Legenda: Frente Parlamentar de Energia Renovável foi oficialmente lançada nesta quarta-feira (17), com a participação dos ministros do Meio Ambiente, Agricultura e Minas e Energia.
Foto: Divulgação

O que trava isso hoje no Ceará? 

O que trava é a burocracia e a falta de legislação. O setor não quer incentivo, nem precisa de investimento de dinheiro público. O setor privado, hoje, banca 100% da geração de energia. Então, o que a gente precisa? De linha de transmissão para tirar a energia do Nordeste, do Centro-Sul, invertendo a lógica do passado, que era a energia sair do Centro-Sul para o Nordeste. 

É necessário desburocratizar. Votar a geração de energia e a regulamentação do offshore, a questão do licenciamento ambiental. Tem estado que permite parque eólico em duna e tem estado que não permite, então precisamos regulamentar essa situação para criar um ambiente de conforto legislativo.

Ao mesmo tempo, criar um ânimo na sociedade brasileira para gerar e internalizar dentro do crescimento econômico do País pós-pandemia. 

Qual a expectativa do empresariado? Há empresas dispostas a investir no Ceará? Como a Frente Parlamentar pode atuar nisso? 

Acho que a perspectiva empresarial é que é um mercado novo. Tem muita gente adentrando no mercado, porque o consumidor está pagando muito caro pela energia, então ele quer uma forma alternativa de baratear o consumo. Você gera energia eólica a R$ 90 o Kwh e paga R$ 800/700, dependendo do local, é um absurdo.  

Eu fui muito procurado pelo empresariado. Vinte e três associações empresariais a nível nacional já me procuraram. Estão, inclusive, dispostas a contribuir com informações técnicas e, também, fazer o acompanhamento da evolução do debate legislativo com relação a essa matéria.  

A própria Fiec (Federação das Indústrias do Estado do Ceará) me procurou na pessoa do Ricardo Cavalcante. Tem todo o estudo, o trabalho que já foi feito, e ela também está muito entusiasmada com a perspectiva do hidrogênio verde. Porque esse é o mercado trilionário que precisa, inclusive, que o Brasil tenha uma participação maior.  

O senhor faz parte do grupo de oposição ao atual governador. Como avalia uma eventual aproximação com o governo para tratar do assunto? Já houve algo nesse sentido? 

Eu sou do diálogo. Não tenho dificuldade de conversar com ninguém. Posso ter posicionamento contrário do ponto de vista de administração, do ponto de vista de ideologia. E acho que o assunto de desenvolvimento econômico, o assunto geração de emprego, geração de renda para o Estado, isso sempre é muito benéfico.  

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