Crise no PSL leva instabilidade ao Congresso, avaliam cearenses

Nas últimas semanas, trocas de acusações e conflitos pelo controle do PSL têm desgastado publicamente o partido do presidente. Diante da crise, deputados da bancada cearense avaliam com pouco otimismo o cenário em Brasília

Legenda: Deputados cearenses dizem que um clima de insegurança tem dominado a Câmara
Foto: Foto: Agência Câmara

Enquanto o presidente Jair Bolsonaro e aliados avaliam estratégias jurídicas para sair do PSL sem que os parlamentares percam mandato por infidelidade partidária, a sucessão de embates públicos dentro da legenda mostra que o clima de turbulência extrapolou os limites dos gabinetes e agora paira do Salão Verde da Câmara dos Deputados ao Palácio do Planalto. O cenário afeta não só a governabilidade do Executivo, mas também a rotina do Congresso. É a impressão dos deputados da bancada cearense ouvidos pela reportagem.

Tido como fiel apoiador de Bolsonaro, condição com a qual conquistou votos e o controle do PSL no Ceará, Heitor Freire afirmou ontem, por meio de sua assessoria, que “não fala sobre as questões do partido”, o que, recentemente, só fez por meio de nota em que nega as acusações de antigos aliados de ter vazado conversas pessoais do presidente, cujo teor expõe o desejo de Bolsonaro de elevar o filho Eduardo à posição de líder da sigla na Câmara.

Coordenador da bancada cearense e relator-geral do Orçamento de 2020, Domingos Neto (PSD) revela um sentimento de desconfiança e insegurança que tomou conta dos deputados. “Ninguém confia mais em ninguém. Hoje, foi o Bolsonaro, o Waldir (líder do partido) diz que tem gravação. Eles transformaram a gravação clandestina em um modus operandi. Você imagina o que eles não devem estar fazendo. A possibilidade de chantagem e tudo. E tudo feito por autoridades, deputados federais e presidente da República. O clima é que ninguém mais fala com ninguém, deputados saindo de grupos do WhatsApp”, revela.

Domingos esteve, ontem, com Bolsonaro e, embora não tenha tocado no assunto da crise no partido, considera um “fato” que o presidente adote tratamento diferente com os deputados que se alinharam com Delegado Waldir e Luciano Bivar, presidente nacional do PSL. 

Vazamentos

Quanto às gravações e divulgações de conversas particulares, o cearense pretende atuar para vedar a prática. “Estou propondo um projeto para criar punição a deputado que faça isso. Vou conversar com o presidente Rodrigo Maia e com os líderes. Minha ideia é que, independente da ação na Justiça, possa acionar o Conselho de Ética”, explica.

Para o deputado André Figueiredo, líder do PDT, o racha no partido que, supostamente, deveria ser o principal alicerce de Bolsonaro, na Câmara, deve reforçar a autonomia e o protagonismo do Parlamento diante da agenda do País. “As votações que estão acontecendo na Câmara não refletem a vontade e a posição de Bolsonaro. Ele não tem interlocução dentro do Legislativo, desde quando era deputado não tinha nenhuma interlocução entre os colegas. Não existem mais articuladores (da gestão) em nenhuma da comissões”, afirma.

O pedetista também desaprova o que, inicialmente, foi defendido como “nova política” por integrantes do PSL. “Roupa suja se lava em casa, mas não é o que se tem visto, infelizmente. O partido tem muitos deputados que não têm experiência parlamentar. Alguns têm aprendido, mas a maioria tem se preocupado apenas em fazer fuxico nas redes sociais”, critica.

A turbulência política no partido de Bolsonaro contrasta com a necessidade do Governo de angariar apoio para votações e discussões que são tidas como prioritárias para o Planalto no Congresso, como o projeto de lei que redefine regras para posse e porte de armas de fogo, o Pacote Anticrime do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro (em meio a alegações de que o ministro tem usado a Polícia Federal para desestabilizar a ala do PSL ligada a Luciano Bivar), e, especialmente, as reformas da Previdência e Tributária.

O deputado Célio Studart (PV) prevê um cenário de crescente dificuldade para Bolsonaro. “As matérias do Governo, medidas provisórias, vetos, reformas, devem sofrer um revés, porque isso é inédito. Um presidente ameaçar sair do próprio partido, deputado gravando presidente, deputado gravando deputado e vazando áudios”, afirma.

Para Célio, a crise ressalta as diferenças entre os grupos que se alinharam com o objetivo de eleger o presidente. “É reflexo de uma base heterogênea, formada por deputados de matizes ideológicas bem diferentes. Isso já era perceptível e culmina nesse tipo de crise, que deve dificultar a agenda do Governo”, pondera.

Oposição

Na Câmara dos Deputados, o racha interno no partido do presidente é motivo de comentários irônicos sobre a necessidade de oposição ao Governo. “Quem não está gostando dessa crise é o PT, porque não está conseguindo fazer oposição. A oposição são eles mesmos (do PSL) que fazem”, afirma Júnior Mano (Patriota), que acredita que a crise pode afetar o Brasil economicamente, prejudicando a imagem do País e atraindo desconfiança de investidores.

Já o petista José Guimarães vê a oposição saindo fortalecida após os últimos acontecimentos. “Nós vamos continuar na mesma agenda, na defesa da democracia, contra as reformas ultraliberais do Bolsonaro. Isso só fortalece o nosso trabalho. A briga é deles. A nossa briga é pela democracia, pela soberania, pelos direitos do povo”, reforça.

Questionado sobre o que espera dos próximos meses, Guimarães aponta um cenário imprevisível pela frente. “O que está acontecendo no PSL é o que acontece no próprio Governo. Desgastado, não se entende, não tem base organizada, e o País fica à mercê”, diz. “O que vai acontecer é de uma total imprevisibilidade”, vislumbra o deputado. 

Ala pró-Bivar ganha força em diretório

Em mais um capítulo da guerra aberta no PSL, a ala ligada ao deputado Luciano Bivar (PE) aumentou, ontem, sua representação no diretório nacional da legenda, anunciou a suspensão de cinco deputados bolsonaristas e confirmou trocas nos diretórios comandados pelos filhos do presidente Jair Bolsonaro.

Em convenção em Brasília, foram eleitos 52 novos integrantes para o diretório nacional, que passou a ter 153 membros. O deputado federal Bivar é o presidente nacional do partido e está em rota de colisão com Bolsonaro.

De acordo com parlamentares que acompanharam o encontro, a maioria dos novos integrantes -que tem direito a voto na eleição em novembro para a presidência do PSL- é alinhada a Bivar.

O grupo bivarista anunciou ainda que cinco deputados que nesta semana assinaram a lista para tentar destituir o deputado Delegado Waldir (GO) da liderança do PSL na Câmara serão suspensos das atividades partidárias. São eles: Carlos Jordy (RJ), Alê Silva (MG), Bibo Nunes (RS), Carla Zambelli (SP) e Filipe Barros (PR).

Eles não poderão, segundo Waldir, representar o PSL em nenhuma das atividades da Casa, incluindo a votação para líder da bancada. Com isso, o grupo ligado ao presidente da legenda espera neutralizar o movimento de substituição do delegado no cargo. O grupo bivarista confirmou que haverá trocas no comando do PSL no Rio e São Paulo.

Eduardo Bolsonaro 

O presidente Jair Bolsonaro disse ontem que seu filho Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) é “maior de idade” e “decide o futuro dele”. Bolsonaro havia sido questionado por jornalistas se prefere o “filho 03” no cargo de embaixador do Brasil nos EUA ou na liderança do PSL na Câmara dos Deputados.

Viagem à Ásia

Bolsonaro disse ainda, ontem, que não poderia cancelar a viagem à Ásia por causa da crise no partido. “Você quer que eu cancele a viagem pro Japão, pra China, pros Emirados Árabes e fique aqui?”, afirmou. As declarações foram feitas em frente ao Palácio da Alvorada.