Com discurso de continuidade, Sarto terá de imprimir marca na gestão

O novo prefeito chegou ao cargo defendendo avançar em políticas da administração do antecessor. No entanto, ele tem também a missão de imprimir sua identidade ao Governo em meio à pandemia, avaliam analistas

Legenda: Ao tomar posse, Sarto enumerou ações de contenção da pandemia e reformas na Capital como prioridades
Foto: Natinho Rodrigues

À frente do Paço Municipal pela primeira vez, a expectativa é sobre qual será o estilo de governar do novo prefeito de Fortaleza, Sarto Nogueira (PDT), e quais áreas ele vai "atacar" para deixar a sua marca na gestão, que estava sob o comando do aliado e ex-prefeito Roberto Cláudio (PDT). A vacinação contra a Covid-19, a reabertura das escolas públicas e a retomada do crescimento econômico serão os primeiros testes de Sarto como gestor, que sinalizarão o rumo da sua governabilidade. Ele também tem o desafio de cumprir com o discurso de continuidade defendido ao longo da eleição e, junto a isso, imprimir uma identidade própria à gestão.

Na campanha eleitoral, o agora prefeito se apoiou na imagem de Roberto Cláudio, que terminou o segundo mandato com a gestão bem avaliada pelos fortalezenses, segundo institutos de pesquisa, e na imagem do governador Camilo Santana (PT), embora só tenha podido aparecer ao lado dele no segundo turno, porque o PT teve candidatura, a de Luizianne Lins.

O então postulante à sucessão de Roberto Cláudio não era tão conhecido do grande público na Capital, apesar de ter longa trajetória na política, tendo sido sete vezes deputado estadual, presidente da Câmara Municipal de Fortaleza e da Assembleia Legislativa. Não à toa o início da campanha de Sarto ao Executivo foi marcado pela presença intensa do agora ex-prefeito, considerado um de seus principais fiadores.

O mote da campanha do pedetista, principalmente no primeiro turno, é de que ele daria continuidade à gestão de Roberto Cláudio. No pleito, o então candidato ressaltou obras e projetos do aliado e afirmou que avançaria nas áreas necessárias. No segundo turno, Sarto explorou mais outras propostas, enquanto também narrava sua experiência e história de vida.

A cientista política Monalisa Soares, professora da Universidade Federal do Ceará (UFC) e pesquisadora do Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia (Lepem), analisa que um dos desafios do novo prefeito é construir uma identidade na gestão.

"Ele teve uma campanha marcada pela presença de outras lideranças. Teve a identidade atrelada ao ex-prefeito e ao governador, então tem esse desafio de construir essa marca própria, independentemente dessas figuras (políticas): uma que saiu de cena e outra que continua (na vida pública)".

Habilidade

Agora, mesmo que ainda próximo das lideranças políticas que o apoiaram durante a eleição, o cientista político Cleyton Monte, que também é professor universitário e pesquisador do Lepem, da UFC, considera que o novo prefeito de Fortaleza terá de "exercitar muito a sua habilidade política" e formará grupo político alinhado a si no Executivo.

"Sarto tem um perfil diferente (de Roberto Cláudio). Ele vai querer criar uma força política, criar o seu grupo mais próximo, e acho que ele demonstrou isso ao montar o secretariado", avalia.

A maioria dos secretários do primeiro escalão do Governo fazia parte da gestão de Roberto Cláudio. Quase todos são nomes técnicos escalados para comandar Pastas. No entanto, não é só na administração que Sarto precisará ter boa articulação política. No Legislativo Municipal também, até porque a base de vereadores e partidos aliados é ampla e exigirá dele jogo de cintura para conciliar interesses.

Diferente da gestão de Roberto Cláudio, em que a base aliada era bem mais numerosa sobre a oposição - quatro vereadores eram ligados ao grupo do deputado federal Capitão Wagner (Pros) e outros três do PT -, desta vez, o grupo de parlamentares adversários à gestão municipal é mais robusto. Para a nova legislatura na Câmara Municipal, mais de dez vereadores de partidos ligados ao grupo de Capitão Wagner foram eleitos.

Além disso, ainda há impasse sobre o PT, que decidiu, na última semana, em reunião do diretório municipal, fazer oposição a Sarto. A deliberação, porém, gerou divergências entre lideranças do partido que recorreram ao diretório estadual e a decisão acabou suspensa. Dependendo do rumo da legenda petista, mais três vereadores podem engrossar as fileiras da oposição à esquerda no Legislativo, que já conta com dois representantes do Psol.

Oposição

Para cientistas políticos entrevistados pela reportagem, um perfil mais "barulhento" da oposição pode criar dificuldades para Sarto aprovar projetos.

"Vamos ter uma Câmara mais plural, que vai apresentar desafios de convivência com a oposição dos dois lados. Uma oposição ligada a Capitão Wagner e talvez outra de esquerda. Sarto pode não ter tanta tranquilidade como teve Roberto Cláudio", observa a cientista política e também professora universitária Carla Michele Quaresma.

Cleyton Monte lembra que a oposição recém-empossada é mais "ideológica" e "difícil de mudar de posicionamento". Diante do cenário, o prefeito precisará manter uma boa relação política com os vereadores da base aliada, avalia o pesquisador. Havia uma expectativa de que ele indicaria maior número de parlamentares para o primeiro escalão do Governo, o que causou certa frustração na base.

Por enquanto, apenas um vereador, Elpídio Nogueira (PDT), irmão de Sarto, foi indicado para comandar uma Pasta. Outros parlamentares deverão ser indicados para cargos no segundo escalão. "Sarto não vai ter essa possibilidade de fechar portas para os possíveis aliados, porque foi eleito com margem reduzida. Ele tem maioria na Câmara, mas quem conquista tem que manter. Os vereadores, para continuarem na base, têm que ter espaço", afirma Cleyton Monte.

Carla Michele Quaresma ainda aposta na acomodação de aliados no comando das secretariais regionais, que vão aumentar de sete para 12. "O leque de aliados é amplo e difícil, mas esse grupo capitaneado pelos irmãos Ferreira Gomes tem capacidade de articulação política incomparável. Consegue utilizar os instrumentos corretos para manter a governabilidade".

Gargalos

Os primeiros testes de Sarto à frente da Prefeitura envolvem a vacinação contra a Covid-19, a reabertura das escolas públicas municipais e a retomada do crescimento econômico. "E o auxílio emergencial, que se enterrou. Fortaleza é conhecida pelas desigualdades muito profundas e o prefeito precisa observar isso", acrescenta Monalisa Soares.

Carla Michele Quaresma enumera outros problemas históricos com os quais o novo prefeito terá de lidar. "Há questões estruturais. Em decorrência da pandemia, temos déficit educacional enorme, problemas sérios evidenciados de habitação, saneamento, questões que emergiram fortemente em relação ao emprego. São problemas que permanecem".

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