Cearenses pretendem recusar indicações de cargos no governo

A coordenação da bancada cearense no Congresso Nacional vai levar, nesta segunda-feira (18), a insatisfação dos parlamentares ao ministério da Casa Civil. A pouca influência dos cargos liberados também é objeto de reclamação dos deputados

Foto: Foto: Agência Câmara

Deputados federais cearenses não estão dispostos a indicar cargos federais no Ceará, pelo menos da forma que foi proposta pela articulação política do governo Bolsonaro na Câmara dos Deputados. Reservadamente, alguns consideram que a exigência do governo de que o parlamentar tenha que assinar uma lista atestando a indicação e confirmando que é base do governo seria uma pressão para votar em projetos como a Reforma da Previdência. Quase toda a bancada cearense tem dito ser contrária ao projeto.

O coordenador da bancada cearense, deputado Domingos Neto (PSD), que recebeu a lista de cargos federais possíveis de indicação parlamentar no Ceará das mãos da líder do governo Bolsonaro, deputada Joice Hasselman (PSL), confirma a situação. Ele disse ter encontro marcado para hoje com o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, em que deve abordar o assunto.

“Nós precisamos saber algumas questões. Primeiro: porque não estão todos os cargos na lista? Segundo: eu vou assinar uma lista dessa para depois o governo querer que eu vote na reforma do jeito que está?”, questiona o parlamentar, ao acrescentar que os cargos disponíveis para indicações são inexpressivos.

A principal queixa dos parlamentares é mesmo a exigência da assinatura de um “termo de compromisso” para apoiar a reforma da Previdência. A situação vem causando constrangimento e sendo criticada entre os deputados.

Os deputados se negam a assinar essa espécie de “contrato” com o governo para apoiar uma reforma, cujos pontos ainda estão sendo negociados, como a aposentadoria rural e o Benefício de Prestação Continuada, que atingem a população do Nordeste.

Na semana passada, o deputado cearense Jaziel Pereira (PR) esteve reunido com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e questionou a negociação que vem sendo feita entre o governo e os parlamentares. E até mesmo dele ouviu críticas sobre a condução das negociações, comandadas pela líder do governo no Congresso, deputada federal Joice Hasselmann.

“Se o governo está querendo construir uma base, uma relação de confiança, essa forma de pedir indicação aos parlamentares não é um bom caminho”, reforçou Domingos Neto. Ele está conversando individualmente com os demais membros da bancada e disse que os cearenses têm sido unânimes em rejeitar a proposta. “Estou sugerindo que a gente não aceite indicar esses cargos”, reforçou o parlamentar.

Base aliada

No Ceará, o PSL acredita que oito dos 22 deputados cearenses integrem a base aliada do governo Bolsonaro. O próprio Domingos, no início da legislatura, apresentou seu nome aos colegas como sendo membro da base do governador Camilo Santana em âmbito local e base da gestão Bolsonaro no Congresso. Agora, ele considera que não há base no momento. “Pergunte a esses oito deputados se eles estão com o governo nessas condições”, sugeriu.

O PSL contabiliza o apoio de oito parlamentares cearenses. O deputado Heitor Freire (PSL) alegou desconhecer as tratativas apontadas pelos demais deputados. No entanto, chegou a admitir a possibilidade do acordo governista. “Não sei o que foi conversado, mas quem sou eu pra confrontar, né?”, disse.

O parlamentar argumentou que “é normal as indicações políticas desde que atendam aos critérios técnicos”, mas que não tem acompanhado as negociações lideradas pelo ministro da Casa Civil e a líder do governo na Câmara.

O deputado federal Roberto Pessoa (PSDB) disse que foi informado da lista dos cargos do governo na última quarta-feira (13), mas que não se interessou em participar das indicações. Ele disse, ainda, que não houve interesse dos parlamentares em indicar nomes para os cargos colocados à disposição pelo Planalto.

“O deputado Domingos Neto nos comunicou que o Planalto teria liberado alguns cargos para a indicação da bancada. Na avaliação do nosso coordenador, são cargos de quinto escalão. Esses cargos não têm influência nenhuma no Estado”, disse o tucano.

Para o ex-prefeito de Maracanaú, os cargos para indicações seriam de nomes já concursados. “Coisa que não tem nada a ver com a política. Achamos que era até uma brincadeira isso”, desabafou o parlamentar.

Com as indicações e outras medidas travadas, o governo federal sofre o risco de esfacelar a base aliada às vésperas de votações importantes, como é o caso da reforma da Previdência. Grupos que apoiaram Bolsonaro na campanha já ensaiam discurso independente, como por exemplo a bancada evangélica.

A corrida pelos votos da nova Previdência

Pelo menos dez deputados cearenses ensaiam ocupar a base de Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados. O número, no entanto, é flutuante e está longe de se consolidar. 
Apenas um deles se coloca a favor da reforma da Previdência apresentada pelo Planalto, que é o deputado federal Heitor Freire (PSL).

O Governo precisa de dois terços dos votos da Câmara dos Deputados e do Senado para aprovar a nova Previdência em dois turnos. O tema, que gera desgaste político, precisa contar com uma base ampla e fiel durante esse tempo.