Bolsonaro admite troca de cargos por apoio das siglas do Centrão

Pressionado pela recente piora da popularidade e pelo inquérito das "fake news", presidente avança nas articulações com líderes partidários, que incluem a entrega de cargos aos novos aliados; Nordeste é alvo do Planalto

Legenda: Presidente Jair Bolsonaro tenta ampliar base de apoio no Congresso para driblar a crise
Foto: Foto: PR

O Governo Bolsonaro atua para reduzir o risco de abertura de um processo de impeachment no Congresso Nacional, em um contexto de aumento da impopularidade e do avanço do inquérito que investiga o "gabinete do ódio", uma rede de difusão de "fake news" contra adversários do Planalto.

Ontem, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) reconheceu que o Governo está entregando cargos para indicados do Centrão e disse que as conversas com os partidos passam também por possíveis alianças na eleição de 2022.

Eleito com um discurso crítico à "velha política" e da troca de apoio por espaço no Governo, Bolsonaro afirmou que os parlamentares se sentem "prestigiados" com as indicações e acrescentou que os deputados, muitas vezes, querem dizer que são os "donos" de determinadas obras.

A mudança na estratégia política, segundo o presidente, ganhou força há dois meses, quando passou a se reunir com frequência com presidentes de partidos e líderes das legendas no Congresso.

O Centrão já indicou nomes para a direção-geral do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs) e para uma diretoria do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).

"Temos que ter agenda positiva para o Brasil e temos que conversar com partidos de centro também. Conduzi a conversa ao longo dos dois últimos meses. Conversei com praticamente todos presidentes e líderes de partidos. Sim, alguns querem cargos, não vou negar. Alguns, não são todos. Mas, em nenhum momento, oferecemos ou pediram ministérios, estatais ou bancos oficiais. Pega o Ministério do Desenvolvimento Regional (o Dnocs está vinculado à pasta), que tem estrutura gigantesca, que em grande parte tem atuação no Nordeste. Tem cargo na ponta da linha, segundo ou terceiro escalão que estava na mão de pessoas que são de governos anteriores ao Temer. Trocamos alguns cargos nesse sentido. Atendemos, sim, a alguns partidos nesse sentido (de cargos)", disse o presidente, durante uma "live".

Nordeste

Bolsonaro acrescentou que as conversas incluem negociações por possíveis alianças, especialmente no Nordeste, cujos governadores são majoritariamente de partidos de oposição ao Governo.

"Têm estados do Nordeste, em especial, em que o PT está forte. Em quase todos, o PT é muito forte e, para derrotá-los, tem que somar todas as forças do outro lado. Para mim, com todo respeito ao Parlamento, prefiro deputados desses outros partidos do que PT ou PCdoB", disse.

Corrupção

Ele minimizou a possibilidade de a entrega de cargos resultar em corrupção, alegando que o Governo tem mecanismos de controle, como a Controladoria-Geral da União.

"Qualquer pessoa indicada passa por sistemas de informação nosso, a gente pesquisa a vida pregressa dessa pessoa. Se tem condições de exercer o cargo, vai exercer, sem problema nenhum. Se tinha algum mistério, está desfeito", disse.

Funasa

Em nova parceria entre militares e políticos do Centrão, o Governo trocou o comando da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) e nomeou, ontem, o comandante da Polícia Militar de Minas Gerais, coronel Giovanne Gomes da Silva, para a presidência do órgão.

O nome foi uma indicação do deputado Diego Andrade (PSD-MG), em negociação capitaneada pelo presidente do partido político, o ex-ministro Gilberto Kassab. Além da Funasa, Bolsonaro já entregou o comando do Dnocs ao Progressistas e a Secretaria de Mobilidade Urbana do Ministério do Desenvolvimento Regional ao PL.

Maia

Já o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse que, nas discussões entre Congresso e TSE, é previsto um adiamento das eleições municipais para 15 de novembro ou até 6 de dezembro, a depender das condições técnicas de saúde.

Maia falou ainda sobre a investigação do STF sobre notícias falsas. Ele defende um projeto de lei que responsabilize as redes sociais pela disseminação de "fake news".

Sobre as ameaças de Jair Bolsonaro ao STF, Maia disse que decisões judiciais devem ser cumpridas.


Categorias Relacionadas