Atos anti-isolamento e pró-ditadura com participação do presidente Bolsonaro geram reações

Em Brasília, o presidente gritou a apoiadores palavras de ordem como "acabou a época da patifaria" e "não queremos negociar nada". Lideranças políticas repudiaram menções a uma intervenção militar nos atos em meio à pandemia

Escrito por Redação,

Política

No Dia do Exército, enquanto apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (Sem Partido) realizaram manifestações em algumas cidades do País em defesa do fim do isolamento social, contra o Congresso Nacional e a favor de uma intervenção militar no Brasil, o próprio chefe do Palácio do Planalto participou, pelo segundo dia consecutivo, de ato em Brasília, provocando aglomerações. Aos apoiadores, ele disse que não quer "negociar nada" e afirmou que políticos "estão submissos à vontade do povo".

O discurso improvisado ocorreu em cima da caçamba de uma caminhonete, diante do quartel-general do Exército, em Brasília. "Eu estou aqui porque acredito em vocês, vocês estão aqui porque acreditam no Brasil. Nós não queremos negociar nada. Nós queremos ação pelo Brasil", declarou o presidente. "Chega da velha política", completou.

"Patriotas têm que acreditar e fazer sua parte para colocar o Brasil no destaque que merece. E acabar com essa patifaria. É o povo no poder. Para garantir a nossa democracia e aquilo que há de mais sagrado em nós, que é a liberdade. Esses políticos têm que entender que estão submissos à vontade do povo brasileiro", afirmou Bolsonaro.

Houve manifestações em diferentes pontos do País, como Salvador (BA), São Paulo (SP) e Manaus (AM). Os manifestantes pediam a volta ao trabalho e a abertura do comércio. Havia discursos também em defesa do isolamento vertical, quando só os grupos de risco ficam em isolamento.

Ceará

Em Fortaleza, um grupo de pessoas também realizou carreata pelo fim do isolamento social. A concentração iniciou na Avenida Aguanambi, pela manhã, e, mesmo com o bloqueio da via pela AMC e pelo Batalhão de Choque, os manifestantes chegaram à 10ª Região Militar, no Centro. Alguns empunhavam faixa com os dizeres "Presidente, decrete AI-5 já". Na Avenida 13 de Maio, outro grupo se aglomerou com a mesma pauta. Três pessoas foram detidas, no Centro, por violação ao decreto estadual que veda aglomerações como medida de combate à Covid-19.

O AI-5 foi o mais duro instituído pela ditadura, em 1968, ao revogar direitos fundamentais e delegar ao presidente o direito de cassar mandatos de parlamentares e intervir nos municípios e estados.

Críticas

Diversas lideranças políticas reagiram às manifestações. O governador Camilo Santana (PT) chamou atos que façam apologia à ditadura de "inaceitáveis e repugnantes". "O Brasil não se curvará jamais a esse tipo de ameaça", afirmou.

O presidente da Assembleia Legislativa, José Sarto (PDT), disse que ir às ruas em meio à crise sanitária e fazer apologia à ditadura é demonstração de "desapreço pela vida humana" e uma "tremenda contradição". "O regime de exceção cerceou os direitos do povo brasileiro, inclusive de livre manifestação", lembrou.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), não se manifestou diretamente sobre os atos, mas, no Twitter, sugeriu que Bolsonaro priorize outras questões, citando a reedição da MP do Contrato Verde e Amarelo, que perde validade hoje. "Assim, o Congresso Nacional terá mais tempo para aperfeiçoar as regras desse importante programa".

O ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, disse que é "assustador" ver atos pela volta do regime militar. "Ditaduras vêm com violência contra os adversários, censura e intolerância. Pessoas de bem e que amam o Brasil não desejam isso".

Já o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), sustentou que não entraria numa disputa pública com Bolsonaro. "O presidente não vai ter ataques (de minha parte). Ele joga pedras e o Parlamento vai jogar flores", rebateu.