Anúncio de teste positivo de Bolsonaro vira destaque internacional

Descrito no exterior como um "opositor do isolamento social", presidente se encontra em recuperação, recebe diversas mensagens de apoio e pedidos para reforçar medidas de prevenção contra o novo coronavírus no País

Legenda: No sábado, Bolsonaro almoçou com o embaixador americano Todd Chapman para comemorar o dia da Independência dos EUA
Foto: PR

O anúncio do resultado final do teste de detecção da Covid-19 apresentado pelo presidente Jair Bolsonaro, de 65 anos, que deu positivo, colocou o Brasil, novamente, no topo do ranking dos assuntos mais comentados do mundo na imprensa internacional. Foi manchete, destaque na capa dos maiores portais de notícias no exterior. A última vez que o chefe do Executivo brasileiro teve tamanha exposição na mídia global foi na semana passada, quando liberou a dispensa do uso de máscara em comércios, contrariando uma orientação científica de consenso.

Os relatos publicados principalmente pelos jornais e TVs nos EUA e Europa destacaram o ceticismo do presidente, no início da pandemia, quanto às medidas de isolamento social. A defesa da flexibilização da quarentena e do relaxamento das restrições, sob o lema "salvar empregos, salvar vidas", foi uma posição liberal também adotada pelo presidente dos EUA, Donald Trump.

O jornal The New York Times qualificou Bolsonaro de um "cético" quanto à eficácia das medidas de isolamento social. O diagnóstico do presidente foi manchete da publicação nova-iorquina.

No jornal britânico The Guardian, o tema também estampou manchete em sua versão online, com um tom mais crítico em relação aos episódios em que Bolsonaro fez questão de se aproximar de apoiadores em lugares públicos, como feiras, resultado em aglomerações.

Foi um jantar promovido pelo líder da Casa Branca em seu resort em Mar-a-Lago, no estado da Flórida, em um sábado, 7 de março deste ano, que deu início à presença do novo coronavírus no entorno de Bolsonaro. Cinco dias depois do jantar, o secretário de Comunicação da Presidência da República, Fabio Wajngarten, testou positivo para a Covid-19.

A imprensa do Sudeste chegou a acionar a Justiça para ter acesso aos primeiros testes apresentados pelo presidente, que deram negativo. Nesses exames, por questões de segurança, há o uso de pseudônimos para identificar o presidente.

Embaixador

Um outro foco da atenção internacional ao anúncio do seu exame positivo, ontem, foi a investigação de que um almoço servido pela Embaixada dos EUA com a presença de Bolsonaro, sem máscara, foi um dos lugares frequentados pelo presidente no último fim de semana, em Brasília, após sobrevoar áreas atingidas por um ciclone-bomba em Santa Catarina para ver os estragos.

Ontem, após o presidente anunciar ter contraído o novo coronavírus, o estado de saúde do embaixador anfitrião Todd Chapman tornou-se público. Ele fez o teste, que deu resultado negativo.

"O embaixador e a sra. Chapman permanecerão em casa em quarentena. A Embaixada dos EUA está avaliando toda a equipe que pode ter sido exposta à Covid-19. A embaixada e os consulados continuam a seguir os procedimentos do CDC (Centro de Controle de Doenças dos EUA)", informou a Embaixada.

O encontro teve cobertura fotográfica oficial, com as imagens da celebração do dia da Independência dos EUA publicadas na conta oficial da Presidência da República no Flickr.

Chapman posou para fotos ao lado de Bolsonaro, do chanceler Ernesto Araújo e do deputado federal Eduardo Bolsonaro. Eles não usavam máscaras de proteção nem seguiam as recomendações de evitar proximidade física como forma de diminuir os riscos de contaminação pela Covid-19.

Brasil-EUA

Atualmente, as relações bilaterais entre Brasil e EUA estão em sua melhor fase, após o ciclo de poder do PT. Há negociação e fechamento de acordos. No caso do Nordeste, Pernambuco já se beneficiou com um acordo fechado neste ano com cotas para a venda de açúcar. Já o Ceará aguarda a retomada dos voos para a Flórida, nicho que o seu setor turístico começou a trabalhar com o avanço do hub da aviação.

Brasília

Como na segunda-feira Bolsonaro já havia tornado público que fez um exame no pulmão após sentir febre, houve uma especulação sobre o resultado de algum teste rápido, mas o Planalto avisou que o anúncio do novo teste estava marcado para o dia seguinte.

Em Brasília, o estado de saúde do presidente gerou comentários entre forças políticas de diferentes orientações ideológicas, embora o presidente tenha dito que estava bem, que tinha o "pulmão limpo", apenas cancelou a agenda de compromissos.

Mensagens de apoio a sua recuperação foram publicadas em redes sociais dos parlamentares bolsonaristas. Em contas dos torcedores mais roxos, que reproduzem conteúdo dos filhos do presidente, algumas postagens alfinetavam o Judiciário, cobrando empatia com o estado de saúde do presidente, em um momento em que Bolsonaro busca pacificar as relações do Executivo com os magistrados do Supremo Tribunal Federal (STF), onde correm inquéritos implicando parte da família do presidente em denúncias.

Congresso

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), evitou colocar ênfase no passado do presidente de desafiar as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), também alvo de Trump.

"Então nós vamos ter que conviver com o vírus enquanto a vacina não estiver pronta para ser utilizada. Enquanto isso, mais do que a gente ficar confrontando posições, é a gente tentar sentar numa mesa e ver o que nos une", declarou Maia, que vai fazer um exame para saber se contraiu a doença. Maia esteve com Bolsonaro na semana passada.

Já a deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), ex-líder do governo no Congresso e agora adversária, baixou o tom de suas postagens críticas ao presidente, mas pediu que ele aja com responsabilidade.

"Bolsonaro descuidou de sua saúde, boicotou o uso de máscara e o isolamento social. Foi irresponsável com ele e com os outros. Está com o coronavírus e certamente contaminou muitos outros. Agora o mínimo que tem que fazer é ficar isolado até que se cure. Seja responsável, presidente", expressou Joyce.

Em postagens anteriores ao anúncio da doença, a deputada adotava um tom mais ácido para criticar as atitudes do presidente quanto à prevenção da Covid-19.

Cloroquina

Ao exaltar os efeitos da cloroquina, medicamento desaconselhado pela OMS, que diz estar tomando para tratar a Covid-19, despertou a ira de páginas ligadas à oposição de esquerda nas redes sociais. Houve a publicação de mensagens de chacota e desrespeito aos pacientes com Covid-19. O remédio contra a malária também é propagado pelo presidente dos EUA.

Cearenses

Desejos de melhoras. Essa foi a mensagem mais repetida entre os políticos do Ceará. O deputado federal Heitor Freire (PSL) declarou estar "em oração e na torcida pela sua rápida recuperação e retorno às atividades", ponderando que o presidente não apresentou sintoma severo da doença, como falta de ar.

Pré-candidata à Prefeitura de Fortaleza, a petista Luizianne Lins, que tenta formar uma frente antibolsonarista como mote de sua corrida de retorno ao Paço Municipal, usou o Twitter para comentar. "Lamentamos, como fazemos em relação a todas as vítimas dessa doença. Exatamente o contrário da sua postura de descaso e deboche com as pessoas infectadas e mortas", escreveu a deputada federal.

Do PDT cearense, veio a recordação das atitudes do presidente na condução da pandemia. "O presidente se colocou em um situação de alto risco e acabou expondo muito a própria saúde", afirmou Eduardo Bismarck (PDT). "Desejo que o quadro não evolua e que haja a plena recuperação do presidente", acrescentou.

Há menos de duas semanas, Bolsonaro fez sua primeira visita ao Ceará, inaugurando trecho da Transposição do rio São Francisco, no Cariri (sul do Estado). O governador Camilo Santana (PT) não compareceu ao evento, avisando que a região sofre com a pandemia, como relatou em entrevista exclusiva publicada na coluna Poder, no último domingo. Tiveram contato com o presidente os federais Capitão Wagner (Pros), Pedro Bezerra (PTB), Domingos Neto (PSD), Jaziel Pereira (PL) e Danilo Forte (PSDB); os estaduais André Fernandes (PSL), Dra. Silvana (PL) e Delegado Cavalcante (PSL); o federal licenciado, Roberto Pessoa (PSDB) e a vereadora Priscila Costa (PSC).

"Estamos em oração, presidente Jair Bolsonaro. Esse obstáculo será superado!", postou Jaziel, que também é líder evangélico.

Quarto líder do mundo com vírus

1- Boris Johnson: o primeiro-ministro do Reino Unido chegou a ser internado. Ao ter alta, exaltou o trabalho dos profissionais do sistema de saúde do seu Governo

2- Juan Hernández o presidente hondurenho falou em "angústia de estar entre a vida e a morte" ao recebeu alta

3- Albert II O príncipe de Mônaco foi o primeiro chefe de estado a anunciar ter contraído a Covid-19 em 19 de março

4-Bolsonaro O presidente do Brasil anunciou no dia 7 de julho resultado positivo de teste


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