Nordeste caminha para superar Sudeste no total de casos de Covid-19

Especialistas explicam que problemas históricos da região, como o abismo social e o abandono do Interior pelo poder público, compõem o preocupante contexto da rápida proliferação do novo coronavírus nos estados nordestinos

Legenda: Exclusão social, como a sofrida por pessoas em situação de rua, favorece a multiplicação de contágios do coronavírus , segundo especialistas
Foto: Foto: AFP

O Nordeste está prestes a superar o Sudeste em número de casos confirmados de Covid-19 no Brasil, indicando um novo e gigantesco desafio para as autoridades do País, já que a região possui uma estrutura de Saúde pública mais precária, e as taxas de isolamento social não atingiram níveis ideais. São cerca de 120 mil contágios registrados pelos nove estados nordestinos, ante mais de 131 mil pelo Sudeste, uma diferença de apenas 11,5 mil casos.

O avanço da participação do Nordeste no saldo nacional de contaminações se deu no último mês com o aumento dos testes de diagnósticos e com a proliferação do vírus nas capitais da região.

Para especialistas ouvidos pela reportagem, há vários fatores socioeconômicos que explicam esse deslocamento da Covid-19 da região mais rica para as mais pobres, como o Norte e o Nordeste.

Estados com maior conexão aérea, como Rio e São Paulo, foram os primeiros a terem confirmações de pacientes com a Covid-19. Houve ainda demora na determinação de fechamento de fronteiras.

Problemas sociais historicamente enfrentados pelo Nordeste, como a exclusão social e o abismo de renda entre as classes sociais, agravam a crise sanitária causada pela pandemia do novo coronavírus.

"O principal fator é a pobreza. É a falta de condições de moradia, de higiene, de tudo", explica a epidemiologista e professora do Departamento de Saúde Comunitária da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), Lígia Kerr.

A escassez de água potável ou mesmo as irregularidades na forma de obtenção do líquido também dificultam o cumprimento de recomendações importantes no combate à infecção mortal, além da falta de informações completas sobre a prevenção à Covid-19.

"São 30% de pessoas que estão sem segurança alimentar, ou seja, não sabe se vai ter comida para comer na próxima refeição. Milhões de brasileiros e de nordestinos caíram abaixo da linha da pobreza. Essa é uma importante explicação para isso", cita.

E este é um problema tanto de municípios do Interior do Nordeste como das áreas mais vulneráveis das grandes cidades. "Essas populações mais vulneráveis têm uma menor rede de apoio, tanto de assistência nos serviços de saúde como também o que a gente chama de colchão social", concorda Magda Almeida, também professora do Departamento de Saúde Comunitária da UFC, além de secretária executiva de Vigilância e Regulação da Secretaria Estadual de Saúde (Sesa).

"Porque é muito fácil falar em números, mas a gente está falando de pessoas. São vidas de famílias, que acabam tendo o seu dia a dia comprometido por conta da doença", lamenta Almeida.

Diferenças

O isolamento social, medida que continua sendo a mais eficaz para um crescimento acentuado na curva de crescimento, não consegue ser inteiramente efetivo em regiões com maior vulnerabilidade, argumenta ainda Magda Almeida.

"Permanecer no isolamento é muito mais difícil para essas pessoas, porque elas precisam se manter. Geralmente são empregos informais, que dependem da atividade diária, da saída diária na rua"", afirma. Em bairros ou cidades com maior número de pessoas vivendo em situações de vulnerabilidade, fica inclusive difícil manter as recomendações em casa, como distanciamento social com pessoas infectadas.

"Então obviamente o isolamento não ocorre do mesmo modo, e isso tem um impacto muito grande tanto na contaminação, como na disseminação e na propagação da Covid, além de se refletir depois na assistência", completa.

Segundo Lígia Kerr, não há perspectiva de que a nova doença vá embora agora. Qualquer medida tende "a evitar que as pessoas adoeçam aos montes e que, as que adoeçam tenham condições de ser cuidadas".

A estrutura de Saúde já apresenta sinais de colapsos para conta da demanda existente, e isto pode se agravar com o aumento de casos no Interior dos estados nordestinos.

"Não existem tantos leitos de UTIs (Unidades de Tratamento Intensivas) no Interior, porque a distribuição é feita para as áreas de assistência sejam nos municípios maiores. Quando necessário, o município menor leva os pacientes para o maior" cita. "É muita complexidade, é muita dificuldade", resume ela.

Estratégias

As pesquisadoras concordam, contudo, que foram decisões acertadas as tomadas pelos governadores dos Estados nordestinos, desde ações para implantação de quarentena ou mesmo de "lockdown" (bloqueio total) até o reforço de pessoal e equipamentos nas unidades de Saúde.

"Nós temos avaliado os nove estados, e existe uma diferença entre o que teria acontecido se nada tivesse feito. Seria muito pior do que está acontecendo. Nós não chegamos, por exemplo, a uma situação como a de Manaus, enterrar pessoas em valas", explica Kerr, que integra o subgrupo de Epidemiologia do Comitê Científico do Combate ao Coronavírus do Consórcio Nordeste.

Os nove Governos estaduais do Nordeste integram o Consórcio, criado em 2019, e que desde do início da pandemia tem atuado de maneira conjunta na aplicação de medidas de enfrentamento a pandemia, além de realizar compras conjuntas também na área de Saúde. "Os governadores do Nordeste não estão apoiando o presidente, porque perceberam que de 'gripezinha' (a Covid) não tem nada", ressalta Kerr. Segundo os estudos do Comitê Científico, a epidemiologista explica que, sem as medidas, o Nordeste estaria "em uma situação dramática. Seria um genocídio mesmo".

Magda Almeida cita ainda a situação do Ceará, na qual ela ressalta a celeridade da regionalização a Saúde, além da importância das instituições públicas de pesquisa para o enfrentamento. "É um estado pobre, que não tem muitos recursos, mostra mais uma vez que medidas acertadas tendem ao equilíbrio, apesar de todas as dificuldades", conclui.

Sobre o crescimento acentuado do número de casos no Nordeste, Kerr explica que as estratégias de enfrentamento, para além de tudo que já vem sendo feito, passam pela questão social. "É necessário manter por mais tempo o auxílio emergencial e inscrever mais gente nele", exemplifica.

"Também precisa liberar a lista de pessoas que poderiam estar aposentadas, porque seria uma renda a mais e pode ajudar muita gente, principalmente no Interior. Pode prorrogar o seguro-desemprego", sugere a pesquisadora.

Para ela, esta ajuda precisa vir principalmente do Governo Federal. Por conta disto, "se você for olhar os óbitos em um bairro rico em um bairro pobre, a diferença é gigantesca", observa.


Categorias Relacionadas