Isolamento na pandemia rende brigas familiares e fiscais de quarentena

Amigos e parentes discutem devido à discordância sobre seguir ou não recomendações do confinamento

"A pandemia já acabou, não tá vendo?", foi o que Larissa Araújo ouviu quando se recusou a almoçar na casa de uma amiga da família. Ela, que é estudante de jornalismo em Recife (PE) e ajuda a mãe que trabalha em comércio de rua, conta que sua família é "tachada de louca" no bairro por ainda seguir recomendações de isolamento social.

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Araújo afirma também que é comum pessoas próximas a ela dizerem que o medo dos familiares é fruto de uma "falta de fé em Deus". Para trabalhar, ela precisa sair de casa, mas além disso, diz que não abusa da sorte, ao contrário dos vizinhos, que tem feito festas de pagode, churrasco e até arraial.

"Parece que onde eu vivo, só eu e minha família estamos nos resguardando", afirma ela que explica que ajuda sua mãe no comércio de rua e estima que elas nunca venderam tanta cerveja.

A reportagem ouviu relatos de quem se envolveu em discussões com familiares ou amigos devido às discordâncias tanto em relação ao isolamento social ou até ideológicas -tanto entre aqueles que estão isolados, como Larissa, quanto os que começaram a flexibilizar algumas medidas.

Enquanto Larissa diz não entrar em discussão com quem discorda de suas opiniões, Jade, 20, que teve o sobrenome ocultado, afirma que faltou calma na sua quarentena.

Em São José do Rio Preto (SP), onde mora, ela usou o isolamento como uma oportunidade para aproximar sua família e a de seu namorado, e foram todos para um sítio. "Pensamos que não ia durar tanto tempo e queríamos usar o período para unir os familiares", conta.

A união começou em março, tudo ia às mil maravilhas, até que a tia do namorado começou a criar intrigas. "Ela dizia que coronavírus não existe, mas achava um absurdo a gente pedir comida em restaurante. Sempre ouvíamos 'vai saber se não cuspiram na sua comida'", cita a jovem.

Em meados de junho, elas brigaram, a quarentena em família acabou. Cada um voltou para sua respectiva casa.

"Desde então, não nos falamos mais. Agora a tia está tentando convencer os familiares a tomarem vermífugo [como medida preventiva contra o coronavírus]", conta ela, que apesar de achar errado não se preocupa tanto porque é estudante de medicina e afirma que sabe que o remédio "não vai fazer mal".

Grupo de risco

Wigvan Pereira, 30, que mora em São Paulo, também decidiu passar a quarentena com sua família. Ele é grupo de risco e está na fazenda dos seus pais em Uruaçu, no interior de Goiás. O problema mora ao lado da casa dos seus pais: os vizinhos são tios que costumam ir à cidade várias vezes durante a semana e "não são muito cuidadosos". Por ali, é comum haver festas e reuniões familiares.

"Eu penso que a dificuldade das pessoas é a de entender que qualquer pessoa pode se contaminar. Parece que acham que se você ama a pessoa ela estará imune", diz Pereira. Segundo ele, a pandemia serviu para revelar o egoísmo entre as pessoas, que colocam "um prazer imediato à frente do bem coletivo".

Ele também pondera que na zona rural, a sociabilidade é diferente e encontrar com os parentes mais próximas acaba sendo necessário em alguns momentos.

"Não entro em atritos porque a situação já está desgastante o suficiente. Não conseguiria lidar com mais um peso", diz ele, que vê um componente político nas discussões sobre a pandemia. "Quanto mais adeptos ao atual Presidente, mais negacionistas elas parecem ser".'

Ansiedade

Já a estudante de psicologia Nadia Kfouri, 19, perdeu seu avô, que tinha comorbidades e foi infectado pela Covid-19. "Passei três meses em casa, fiquei sem vê-lo e ele morreu", conta ela, que mora em São Paulo.

Depois de tanto tempo em quarentena, notou uma piora na ansiedade e passou a andar de bicicleta e encontrar alguns amigos. Ela conta que acabou brigando com um dos amigos durante a quarentena por motivos políticos, mas que sua relação com a mãe melhorou.

Enquanto Kfouri diz que ouviu brincadeiras de pessoas próximas de que ela estava furando a quarentena, Giovanna, 22, que teve o sobrenome ocultado, conta que já brigou muito com aqueles que cobram dos outros isolamento social por meio das redes sociais.

"Penso que não dá pra colocar o pé na jaca, tem que ter cuidado, mas a vida tem que continuar e temos que nos readaptar", diz.

"Já briguei muito, mas pelo fato das pessoas fingirem não estarem saindo, colocando o dedo na cara de alguém. Sei que está saindo e não postando", afirma. "Se a pessoa não for pra academia, esteticista, cabeleireiros ou o que for 'não útil' essas pessoas vão perder os empregos e aí quem cuida delas?", indaga.

Christian Dunker, psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo), analisa que os chamados "fiscais da quarentena" podem ser vistos como uma espécie de carolas.

"Ao controlar o gozo do outro, a pessoa mantém a repressão sob si mesmo. Ou seja, na medida que eu critico, vigio, ao mesmo tempo, indiretamente, eu to me dizendo 'olha o que eu não posso fazer'", afirma.

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